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A reinvenção de Angel Olsen (segundo ela mesma)

Texto: NUNO GALOPIM

Dois anos depois de um disco que a colocou no mapa das atenções, o terceiro álbum da cantora nascida no Missouri confirma, pela surpresa das opções, que temos autora com personalidade.

Angel Olsen

Criada no Missouri e com primeiros sinais de visibilidade talhados ao lado de Bonnie Prince Billy, Angel Olsen começou por registar primeiros lançamentos em cassete e CD através de uma muito pequena e discreta independente, cabendo ao disco editado há dois anos – por uma etiqueta de maior perfil internacional, a Jagjagwar – um momento de mais evidente exposição. E em boa hora assim a coisa se fez, porque nos deu primeiros sinais de uma carreira que valia a pena seguir com atenção…

Se, dois anos antes, o seu primeiro álbum havia chamado apenas as atenções dos mais próximos seguidores destes domínios, o então mais visível (e logo aclamado) Burn Your Fire For No Witness revelava um magnífico exemplo de como as raízes clássicas do relacionamento da cultura folk com as escolas pop/rock (afinal escrevendo mais um capítulo numa história que remonta à década de 50) podia gerar novos momentos de imponente diálogo com formas e modelos de produção da cena indie do nosso tempo. Havia ali um fulgor carnal próximo da alma de uma PJ Harvey habitando, os arranjos ora caminhando entre uma plácida simplicidade para voz e seis cordas ou a dimensão maior de uma catedral de acontecimentos pop/rock de delicioso travo gourmet. E entre os caminhos indie rock de Forgiven/Forgotten (na melhor descendência dos ensinamentos de umas Throwing Muses) ou a luminosidade festiva de escola country do irresistível Hi-Five, sempre sob uma certa pose lo-fi, desenhava-se o momento de afirmação de uma voz autoral que não deixou indiferente quem a escutou. Era nome a acompanhar. E, agora, dois anos depois, My Woman serve um novo episódio tão entusiasmante quanto desconcertante. É que, ao mesmo tempo que confirma em pleno um talento autoral e a força de uma voz, o novo álbum resolve deixar as respirações de herança folk arrumadas no passado e encara, de frente, uma vivência mais pessoal do que cenográfica. A reinvenção faz-se pelo “eu”.

O disco, depois de um inesperado flirt com electrónicas no delicioso Intern (que, quem sabe, deixa notas a retomar eventualmente mais adiante) abre com uma sequência de canções de pulsão rock, mais incisivas e abrasivas, antes de ceder terreno a uma segunda parte mais tranquila, delicada, num registo quase de torch song, mas nem por isso menos elétrico ou mais pessoal e íntimo do que o das canções que fazem a entrada no alinhamento. Pessoais, as letras traduzem reflexões identitárias sobretudo centradas na sua vivência, sem contudo conduzir o sentido das palavras a um espaço emocional demarcado. Pelo contrário, aqui respira-se a vida e a sua relação com os outros.

Acima de tudo My Woman é uma afirmação de personalidade. E de alerta para quem tentasse condicionar o seu espaço de expressão aos trilhos antes tomados. O caminho é o seu. E o disco deixa claro que, se o continuar a seguir desta forma, irá a bom porto.

Angel Olsen
“My Woman”
Jagjagwar
★★★★

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