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A caminhar por entre as estrelas há já 50 anos

Texto: NUNO GALOPIM

Passam amanhã 50 anos sobre o momento em que a televisão nortre-americana transmitiu o primeiro episódio de “Star Trek”. Meio século depois, este universo ainda respira boa saúde.

Começou por projetar uma carreira policial, mais tarde apontou azimutes à aviação militar e acabou mesmo a trabalhar na aviação civil. Mas em finais dos anos 50, a caminho de completar os 40 anos de idade, Gene Roddenberry encontrou o trilho certo ao escrever guiões para séries televisivas. Escreveu e escreveu, imaginado situações, personagens e diálogos em vários tempos, lugares e contextos. Em 1963 chegou a ter um piloto seu na mira de entrar em produção, mas questões raciais numa trama passada entre marines acabaram por votar The Lieutenant ao destino de tantas outros sonhos que ficam por realizar.

É pouco depois do desfecho infeliz de mais um projeto que, a meio de um jogo de futebol que tinha ido assistir com um colega argumentista Gene lhe conta a ideia para uma outra série. E fala de uma equipa com pessoas de várias origens e etnias que, em finais do século XIX, viaja a bordo de um dirigível e que, todas as semanas, passa por lugares nunca antes visitados… Os estúdios a quem a apresentou recusaram-na, aparentemente por razões de exequibilidade financeira. E é então que o agente de Roddenberry lhe sugere que imagine essa mesma ideia num contexto de ficção científica. Afinal o discurso de John F. Kennedy que tinha colocado a NASA na corrida à Lua estava na memória recente de todos e o espaço era destino frequente dos noticiários… Faltavam ainda três anos para que a materialização da ideia chegasse aos ecrãs dos televisores. Mas foi ali, entre uma ideia transportada do dirigível do século XIX para uma nave do futuro, que nasceu Star Trek.

Passam agora 50 anos sobre o momento em que, pela primeira vez, a nave Enterprise voou rumo às casas de quem, a 8 de setembro de 1966, captou a transmissão de The Man Trap, o episódio inicial de Star Trek. A série tinha passado por uma pré-história longa, que passara antes de mais por um piloto original que levantou dúvidas junto dos produtores. Era o caráter algo intelectual de algumas das situações, os subentendidos eróticos de algumas figuras femininas, o papel com algum protagonismo interpretado pela namorada do criador da série (que poderia dar azo a má imprensa) ou as orelhas pontiagudas de Spock (já vestido por Leonard Nimoy) que alguns temeram que causasse comparações com o diabo…


“The Cage”, o primeiro episódio-piloto

A série que poderia ter morrido sem sequer nascer teve contudo uma segunda hipótese. Coisa rara… Mas com ordem para filmar um segundo piloto, não só Gene Roddenberry escolheu o melhor dos três guiões que tinha já em mãos – e que daria origem ao episódio Where No Man Has Gone Before – e aproveitou a pausa entre rodagens para repensar não apenas os cenários como o guarda roupa e o próprio elenco que, salvo a personagem de Nimoy, é integralmente revisto, só aí entrando em cena, entre outros, o comandante Kirk, desde logo interpretado por William Shatner.

Ao contrário do piloto original este segundo é aprovado e chegará inclusivamente a ser transmitido. Curiosamente, as imagens do piloto original serão aproveitadas no episódio em duas partes The Menagerie, que as toma como flashback numa história que visita o mesmo planeta e confronta personagens e factos das duas épocas.

A primeira vida de Star Trek nem sempre foi fácil, sobretudo porque as audiências nunca foram significativas. Eram, contudo, estáveis, dando aos produtores, estações (e anunciantes) a segurança de terem um público fiel. E era mesmo tão fiel que, temendo um cancelamento, choveram cartas a pedir pela sua manutenção. E choveram tantas cartas que, no episódio final da primeira temporada, era incluída uma nota final a dar conta do regresso, na rentrée

Durante três épocas, e sob o lema “para ir onde o homem nunca antes tinha ido”, a tripulação da Enterprise, uma nave do século XXIII, encontra alienígenas, enfrenta desafios, contorna ameaças segundo tramas que procuraram refletir frequentemente sobre as grandes questões políticas e sociais do seu tempo. Entre os seus feitos conta-se o primeiro beijo inter-racial da história da televisão americana, protagonizado por William Shatner e a atriz Nichelle Nichols. Com os guiões dos episódios cientes do potencial a explorar entre o núcleo central de personagens, Star Trek ganha familiaridade e destaca-se das tendências habituais no cinema de ficção científica até então por este acervo que assim ganha um peso maior em todo este universo. Tornam-se por isso marcantes as figuras do capitão Kirk (interpretado por William Shatner), o oficial científico Spock (Leonard Nimoy), o médico de bordo McCoy (DeForest Kelley), o engenheiro chefe Scotty (James Doohan), a oficial de comunicações Uhura (Nichelle Nichols), o timoneiro Sulu (George Takei) e o oficial tático Chekov (Walter Koenig).

Apesar de todos os valores envolvidos e dos resultados conseguidos, Star Trek não teve, na sua vida original, mais do que três épocas de produção, saindo de antena em 1969. Porém, ao repetir os episódios em horários diferentes, as pequenas estações que então os passaram a mostrar revelaram as origens de um progressivamente mais sólido culto em torno da série.

Tanto que, entre 1973 e 1974, este universo regressou aos televisores com os 22 episódios de uma série de animação centrada nas mesmas personagens. Uma segunda série de imagem real chega então a ser ponderada e entra em pré-produção sob o título Star Trek: Phase Two. Porém, perante o entusiasmo da Paramount, a dada altura os planos para uma série televisivos são arquivados e Star Trek recebe um upgrade inesperado: o cinema.

Dois anos de pois de A Guerra das Estrelas, de George Lucas e Encontros Imediatos de Terceiro Grau de Steven Spielberg, O Caminho das Estrelas ganha forma num filme claramente apostado em explorar potencial deslumbramento dos novos efeitos visuais, mas firme no apelo clássico da presença dos atores da série dos anos 60. A realização foi então entregue a Robert Wise, o mesmo de West Side Story e Música no Coração, mas com importante contribuição para a história do cinema de ficção científica em O Dia em Que a Terra Parou (1951) e, perante bons resultados, logo surgiu ordem para continuar.

A linha de montagem foi ativada, apresentando entre os fimes Star Trek II: A Ira de Khan (Nicholas Meyer, 1982) Star Trek III: À Procura de Spock (Leonard Nimoy, 1984) e Star Trek IV: O Regresso a Casa (Leonard Nimoy, 1986) um arco narrativo comum, passando, daí em diante, a propor argumentos cuja trama se resolvia num único filme, cedendo dois mais à geração original – Star Trek V: A Última Fronteira (William Shatner, 1989) e Star Trek VI: O Continente Desconhecido (Nicholas Meyer, 1991).

Por essa altura já o pequeno ecrã tinha assistido a um reencontro com Star Trek em novas séries, iniciando-se uma etapa de sucesso maior com Star Trek: A Geração Seguinte (de 1987 a 1994) e spin offs como Star Trek: Deep Space Nine (1993-1999), Star Trek: Voyager (1995-2001) e Star Trek: Enterprise (2001-2005), este último com piores resultados tanto nas audiências como no departamento criativo.

Houve mesmo assim ordem para filmar (para o grande ecrã) quatro aventuras com as personagens de Star Trek: A Geração Seguinte, surgindo então Star Trek: Gerações (David Carson, 1994), Star Trek: Primeiro Contacto (Jonathan Frakes, 1996), Star Trek: Insurreição (Jonathan Frakes, 1998) e Star Trek: Nemesis (Stuart Baird, 2002). Tal como no pequeno ecrã, também ali os entusiasmos começaram a esmorecer, parecendo então que a saga, iniciada em 1966, estava finalmente a chegar ao fim.

É então que entra em cena uma outra ideia: um reboot. Ou seja, voltar a ligar a máquina. Começar de novo. J.J. Abrams é chamado a realizar, e faz de Star Trek (2009) um fenómeno em todas as frentes, triunfando não apenas pelo valor seguro dos argumentos vintage do franchise mas também pela forma como os conduziu num diálogo com uma ideia de juventude, não só renovando o elenco como criando uma narrativa que recuperava as personagens da série clássica, porém nos dias imediatamente posteriores ao final da etapa de estudos e início de carreira profissional. J.J. Abrams ainda conduziu os destinos em Star Trek: Além da Escuridão (2012), filme que retomava uma personagem tão cara à série original como ao segundo filme: o vilão Khan.

Estes jogos de pontes entre épocas e produções ganharam contudo momentos mais marcantes em episódios e filmes nos quais personagens e os respetivos atores da série clássica contracenaram com elencos de gerações e filmes seguintes. William Shatner (Kirk) passou assim o testemunho a Jean Luc Picard em Star Trek: Gerações, como Leonard Nimoy revisitou o velho Spock nos filmes de 2009 e 2013 em que a sua personagem estava agora encarnada na juventude por Zachary Quinto. Esta ideia nasceu na verdade na televisão quando em Encounter in Farpoint (1987), episódio original de Star Trek: The Next Generation, um bem idoso Dr. McCoy (na pele de DeForest Kelley) surge como passagem de testemunho da série original para os novos tripulantes da nova Enterprise. Uma segunda expressão desta mesma jogada de engenharia narrativa de pontes levou o velho Mr Scott (por James Doohan) a surgir num outro episódio desta mesma série.

Aos 50 anos de vida, Star Trek tem uma saúde que ultrapassa aquela expressão que diz que “é de ferro”. Porque não enferruja. Há um novo filme – Star Trek: Além do Universo nas salas que, apesar de não repetir o patamar dos dois anteriores, tem obtido resultados que atestam o bom momento que a saga vive. E em breve vai surgir uma nova série televisiva, com o título Star Trek: Discovery, tendo o Netflix (que entretanto se prepara para disponibilizar todas a séries e filmes) assegurado a sua exibição fora dos EUA e Canadá… As viagens, pelos vistos, vão continuar. Tenham vida longa e próspera, como o diria qualquer vulcaniano.

Este texto é uma versão atualizada de um outro que foi originalmente publicado na revista ‘Metropolis’.

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