O perfume da decadência
Texto: NUNO CARVALHO
Peter Bradshaw, no The Guardian, disse que há um perfume de “estagnação” em O Cheiro de Nós. Parece-nos que não soará a exagero dizer que há mesmo um cheiro a regressão no novo filme de Larry Clark, e regressão não tanto no sentido de revivalismo do que já se fez e dos lugares onde já se esteve, mas sobretudo na aceção mais sombria do termo. Na verdade, o que há aqui é um certo perfume de decadência, de algo que ficou em loop sem conseguir evoluir, e que por não avançar foi involuindo e sendo conduzido a um certo vazio. Quando olhamos para O Cheiro de Nós ainda temos um ar do esteta que sempre houve em Larry Clark, mas tudo parece agora mais “descarnado”, desinspirado e esvaziado, como se o talento do realizador estivesse em retirada, restando quase só um lado de voyeur e de porn addict que é no mínimo desolador para o espectador que sabe que Clark é o autor de Bully – Estranhas Amizades (2001), um dos grandes filmes da primeira década deste século.
Filmado em Paris, com elenco, equipa e financiamento locais, O Cheiro de Nós acompanha as vivências de um grupo de adolescentes que levam uma vida de secreto hedonismo, entre skates, sexo e drogas. Mas a narrativa está sobretudo centrada em dois amigos que nas horas vagas trabalham como escorts, ganhando dinheiro sobretudo com clientes já bastante maduros (ou mesmo velhos). Um deles, Math, um jovem narcísico cuja mãe diz que é demasiado egoísta para ter amigos, é objeto do desejo de JP, o seu melhor amigo, que está apaixonado por ele. No entanto, Math descarta-o dizendo-lhe que é “gay só pelo dinheiro”. Um amor impossível que parece arriscado para JP, sobretudo a partir do momento em que uma rapariga com inveja da proximidade entre os dois rapazes resolve revelar aos pais daquele a verdade acerca da paixão do filho.
O problema de O Cheiro de Nós é que o erotismo foi substituído por um olhar mais gráfico, ostensivo e predatório do que nos anteriores filmes do autor. Clark sempre foi acusado de fazer soft porn, nomeadamente em filmes como Miúdos (1995) ou Ken Park (2002), mas conseguia equilibrar esse lado mais voyeurista com um sentido visual apurado e uma pulsão erótica que, mesmo quando as imagens eram mais explícitas, tinha o sabor de um erotismo transgressivo que aqui resvala mais para a pornografia desoladora. Vinte anos depois de Miúdos, talvez o advento da internet e dos vídeos pornográficos amadores que levaram o porno para outra dimensão, mais real mas também mais arriscada, tenha tornado tudo mais extremado e cada vez menos erotizado, e talvez Larry Clark queira mostrar esse mundo mais sombrio e vazio. Mas, mais do que a “estagnação”, este filme cheira a degradação.
“O Cheiro de Nós”
de Larry Clark
Com Lukas Ionesco, Hugo Behar-Thinières, Michael Pitt
Midas Filmes

Gostei do conceito de perfume de “estagnação”. Vou ter que ver esse filme porque parece muito interessante. Obrigado pela dica e parabéns pelo blog
GostarGostar