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Quando a música fala dos fantasmas

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

“One More Time With Feeling” é uma belíssima viagem cinematográfica ao novo disco de Nick Cave e às transformações que a sua vida sofreu ao longo do último ano. O filme regressa hoje às salas de cinema.

A acompanhar a edição do novo álbum, baptizado como Skeleton Tree (que é também o nome de uma das faixas), saiu One More Time With Feeling, um documentário que descreve a rota da criação das canções (que vamos conhecendo aos poucos) e dos constantes medos e pensamentos de Nick Cave.

Realizado por Andrew Dominik (responsável pelo subestimado O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford), One More Time With Feeling é um segundo encontro mais íntimo com Nick Cave. O primeiro foi 20.000 Dias na Terra, feito durante um outro contexto do de 2016. Entre os filmes há um curtíssimo espaço de tempo que os intervala (dois anos), mas que se revelou como. Entre eles, muita coisa se alterou em Nick Cave. O primeiro foi um espectáculo visual planeado, o segundo é apenas a consequência de tudo o que se seguiu na vida do músico.

20.000 Dias na Terra era, ao contrário de One More Time With Feeling, um documentário de celebração da carreira de Cave. Tratava-se de uma mistura bem elaborada entre ficção e realidade, em que o artista reencontrava vários amigos que o acompanham desde sempre, enquanto confrontava várias memórias do passado, nunca esquecendo, ao mesmo tempo, o pendor mais negro da sua obra.

Mas esse filme tinha o objectivo de deixar as pessoas bem-dispostas, e de proporcionar aos espectadores um lado mais pessoal do protagonista que nunca tivemos oportunidade de descobrir anteriormente. Era um divertimento filosófico, em que seguíamos, precisamente, as desventuras de Cave durante o seu 20000.º dia de vida neste planeta. Para um autor que, em várias ocasiões, nos parece vir do outro mundo, o filme conseguiu humanizar uma figura carismática – e com isso, ele deve ter ganho ainda mais fãs.

Já em One More Time With Feeling, a abordagem é completamente diferente. A razão será conhecida por todos os que seguem Nick Cave, e também por aqueles que viram a notícia, há cerca de um ano: a morte de Arthur, um dos seus filhos, que (obviamente) afectou profundamente o pensamento do autor, transformando o “dark side” da sua persona em algo mais íntimo e tocante. É algo que se reflecte em todas as faixas de Skeleton Tree, mesmo que Cave não queira assumir na íntegra o peso dessa trágica “influência” na sua criatividade.

Dois anos depois, qual é a sensação de reencontrar Cave? Entretanto, essa tragédia familiar marcou a sua vida, e ela passa por todo este novo documentário, em todos os pormenores, mesmo quando nada “palpável” parece indicar tal presença. Porque One More Time With Feeling tenta por vezes, e sem sucesso, distanciar-se do sentimento de perda, atenuando o clima pesado de angústia que rodeia cada passo dado por Cave. Mas tal como o próprio nos diz a certa altura do filme, as mágoas não são mais do que um elástico: por mais que nos queiramos afastar, a vida acaba por nos fazer chocar com elas de vez em quando. Este não é, por isso, um documentário fácil. Mas do princípio ao fim, é extremamente recompensador.

E é por isso que One More Time With Feeling proporciona momentos tão belos. Porque se o tema é delicado, Andrew Dominik nunca se deixa seduzir pelo facilitismo sensacionalista. Nada da dor que paira por todo o filme passa pelo maniqueísmo, mas no final, pode deixar o espectador em lágrimas. O maior exemplo dessa pureza está numa das sequências mais poéticas do filme tem as características mais simples de todas (não será “spoiler”, até porque estamos a falar dos problemas da vida, que todos bem conhecemos, e não há aqui nenhuma narrativa para ser desvendada): no estúdio de gravação está Cave a falar com um dos técnicos de som quando surgem a sua mulher e o seu outro filho.

E Cave aproxima-se dos seus familiares, abraça-os e conforta-os com pequenas brincadeiras. Nada naquela cena é dito, ou explicitado, sobre Arthur – mas ele está sempre “lá”. É o momento do filme que mais me disse sobre a perda, porque vale por ter nele tudo o que a humanidade é: um conjunto de indivíduos com as suas lacunas, e que persistem em viver apesar disso. Aquele é Nick Cave, aquela é a sua mulher e aquele é o seu filho vivo, e eles têm de continuar a viver com o fantasma.

Com ambos os filmes criou-se um impressionante díptico (não-intencional, claro), que nos dá uma imagem do que veio imediatamente antes (e Arthur surge, com o pai e o irmão, numa cena de 20.000 Dias na Terra) e do que se seguiu àquela morte. Nick Cave permanece um ícone, mas alterou-se, percebemos isso em tudo o que diz nas entrevistas do filme. E com ele mudou a sua música, e tudo o que ela transporta. Não sei qual será a sensação de rever agora o primeiro filme, depois do soco emocional que a vida e a música de Cave nos deram agora. Mas certo é que One More Time With Feeling é um registo fascinante, e mesmo indescritível, sobre a vida, a morte, e tudo o mais, tudo filmado sempre com muito sentimento. Talvez o visionamento seguido dos filme seja uma ideia reveladora sobre nós próprios, no que há de mais alegre e mais negro nas nossas vidas.

O lançamento deste filme foi marcado por uma sessão única em salas de cinema de todo o mundo – e Portugal não foi excepção. A experiência obtida por tamanho acontecimento é difícil de descrever, até porque se lida aqui com coisas muito difíceis. Para dar um exemplo, basta dizer que não houve uma única pessoa a sair da sala até que os créditos acabassem de rodar, e depois disso, toda a audiência se encontrava num silêncio mórbido, sem saber bem o que pensar. E o mais que se pode dizer deste One More Time With Feeling é que não se trata de um documentário qualquer, ou uma daquelas “featurettes” criadas especialmente para a edição “deluxe” de um disco. E convém não esquecer que, para além de um filme arrasador, é uma fascinante porta de entrada para um álbum extraordinário.

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