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O 11 de setembro de 2001 em dez filmes

Seleção e textos de NUNO GALOPIM

Quinze anos depois, aqui vai surgir aos poucos uma seleção de dez filmes que levaram aos ecrãs as memórias daquele dia ou dos símbolos que a ele associamos.

De documentários procurando diversos pontos de vista a exercícios de ficção (uns mais focados na recriação de acontecimentos, outros procurando usar narrativas e personagens não reais para reftetir sobre o sucedido), o 11 de setembro tem já uma história considerável de representações no cinema.

Na passagem dos 15 anos sobre os ataques de 11 de setembro de 2001, ficam aqui dez filmes que refletem sobre os acontecimentos, suas causas e consequências.

“9 / 11”
Jules e Gedeon Naudet, e James Hanlon, 2002
Uma equipa francesa estava a realizar um documentário sobre um estagiário de um quartel de bombeiros na manhã de 11 de setembro de 2001. Tal como o jovem, responderam à notificação de uma fuga de gás na zona sul de Manhattan. E quando um ruído intenso os surpreende, apontam a câmara aos céus e captam as imagens de um avião a voar invulgarmente baixo, e que acaba por embater numa das torres do World Trade Center. Essas, que são das poucas imagens existentes do primeiro avião a chocar contra as torres, fazem agora parte de um filme que, ali, entretanto, ganhou outra dimensão, sem contudo desviar dos bombeiros de Nova Iorque a sua atenção principal. Jules, um bombeiro que integrava a equipa de rodagem (e é um dos realizadores do filme) acompanhou a primeira equipa de socorro a chegar às torres, estando dentro da Torre Norte quando de deu a derrocada da outra.

“11’09”01 – 11 Perspectivas”
Vários realizadores, 2002
Os filmes feitos da soma de curtas-metragens são inevitavelmente corpos irregulares mesmo quando uma ideia comum une os fragmentos que ali se juntam. Em 11’09”01 – 11 Perspectivas havia por base uma imposição de tempo sugerida a todos os onze realizadores convocados, a cada um sendo dados 11 minutos, nove segundos e ainda mais um frame… A escolha dos nomes projetou globalmente a ideia, traduzindo-se assim como este foi um acontecimento que todo o mundo viveu. E, assim, tanto vemos aqui, filmado por Samira Makhmalbaf (no segmento Irão), uma discussão numa escola sobre os acontecimentos do 11 de setembro, como, por Ken Loach (Reino Unido), uma memória de um outro 11 de setembro (o de 1973), numa carta que um cantautor chileno envia ao povo americano. O mais marcante dos onze filmes é, talvez, aquele que, contando apenas com o ator Ernest Borgnine, reflete, sob realização de Sean Penn (segmento EUA), consequências de uma vivência mais perto do local dos ataques a Nova Iorque. Além destes três nomes estão ainda ali representados, Claude Lelouch (França), Youssef Chahine (Egito), Danis Tanović (Bósnia-Herzegovina), Idrissa Ouedraogo (Burkina Faso), Alejandro González Iñárritu (México), Amos Gitaï (Israel), Mira Nair (Índia) e Shōhei Imamura (Japão).

“Farenheit 9/11”
Michael Moore, 2004
Dois anos depois de Bowling For Columbine, o filme Farenheit 9/11 valeu a Michael Moore os episódios de maior mediatismo da sua carreira. Usando um processo semelhante ao de filmes anteriores (e que são sua imagem de marca), o realizador procura uma abordagem que é contudo mais autoral e crítica do que propriamente jornalística, procurando construir uma expressão de uma ideia sua e não um retrato, sob pontos de vista diferentes, da realidade. Aqui toma como ponto de partida os acontecimentos a 11 de setembro de 2001 para procurar desmontar, sob um ponto de vista crítico, a política internacional da administração de George W. Bush. O filme foi premiado em Cannes com a Palma de Ouro.

“Voo 93”
Paul Greengrass, 2006
A estreia, em 2006, no Festival de Tribeca, do primeiro filme a ficcionar os ataques terroristas de 11 de setembro levantou muitas opiniões. Publicaram-se então sondagens sobre a vontade do cidadão americano em ver, já, um filme sobre os atentados (muitas delas com números a apontar mais respostas “não” que “sim”). Nas televisões viram-se entrevistas com familiares dos que morreram nesse voo, e que aceitaram ser consultores do filme, apontando muitos United 93 como uma história de coragem, liberdade e patriotismo. As cautelas estenderam-se ao trailer, que, antes de mostrar imagens do filme, nos colocava perante uma voz que contextualizava, que explicava como os familiares das vítimas foram escutados durante a produção. E que acabava a sublinhar que parte das receitas recolhidas seguiria para fundos de auxílio aos que perderam entes queridos naquele avião. O realizador Paul Greengrass sabia desde o início que tinha em mãos uma história sensível, para a qual nem toda a opinião pública americana está preparada. O argumento baseou-se nas gravações das últimas conversas telefónicas entre os passageiros sequestrados e os seus familiares. A ação acompanha o único dos quatro vôos envolvidos nos ataques daquele dia que não atingiu o alvo, despenhando-se numa mata na Pensilvânia após intervenção dos que a bordo viajaram, e que conseguiram dominar os terroristas. Mas não o avião.

“World Trade Center”
Oliver Stone, 2006
Baseado em factos reais, e trabalhado em conjunto com figuras que viveram o drama na pele a 11 de setembro de 2001, o filme de Oliver Stone é, acima de tudo, uma história de sobrevivência. A ação toma logo desde o início um grupo de elementos das forças policiais da Port Authority que, de serviço ao terminal de autocarros, notam a passagem de um avião a voar invulgarmente baixo sobre a cidade, percebendo o que se passou quando, pouco depois, dão pela notícia na televisão. Chegarão algum tempo depois ao World Trade Center, caminhando na passagem subterrânea entre as torres quando uma delas desaba. Percebendo o que está a ocorrer, procuram chegar às escadas de segurança, a única estrutura ali que lhes poderá servir de salvação.

“The Falling Man”
de Henry Singer (2006)

Foi uma das imagens mais marcantes entre as muitas que circularam pelo mundo a 11 de setembro de 2001 e nos dias seguintes, tendo surgido impressa em publicações um pouco por todo o lado. O homem que mergulha no vazio, certamente fugindo das chamas, dos gases tóxicos e de outra morte igualmente certa, tornou-se numa das expressões mais perturbantes do horror dos acontecimentos vividos naquele dia. O filme parte dessa imagem, escutando quem a tirou, as reações que causou e a forma como ganhou um peso enquanto peça jornalística.

“Extremamente Alto, Incrivelmente Perto”
Stephen Daldry, 2011
Esta é talvez uma das mais interessantes das abordagens ao 11 de setembro de 2001 já levadas ao grande ecrã. E porquê? Porque, em volta de uma história que só parece possível como coisa de um conto (a morte de um pai, o encontrar de uma chave misteriosa e a busca pela fechadura que deveria abrir), o filme de Stephen Daldry observa, mais que os de Oliver Stone (World Trade Center) ou Paul Greengrass (United 93) e com uma amplitude que não era ainda possível (dada a proximidade) em A Última Hora, de Spike Lee, como a cidade sentiu e partilhou coletivamente a dor. Se a isto juntarmos uma realização que sabe que fazer um filme não é só dizer era-uma-vez com imagens, a presença discreta (mas marcante) de Max Von Sydow, uma banda sonora de Alexandre Desplat que permite eventuais pontos de ligação à memória da presença de Philip Glass em As Horas, do mesmo realizador e uma série de olhares por espaços de Nova Iorque, temos argumentos suficientemente altos e incrivelmente cativantes para ver este como um dos grandes filmes sobre este universo.

“00.30 Hora Negra”
Kathryn Bigelow, 2012
Depois do magnífico Estado de Guerra, a realizadora Kathryn Bigelow regressou aos espaços de conflito no Médio Oriente num filme que recria o (longo) processo de vigilância por parte de uma equipa da CIA que localizou e monitorizou os passos de Bin Laden, abrindo a possibilidade de uma operação que culminou com a sua captura e morte. Protagonizado por Jessica Chastain, o filme foca o moroso e difícil processo que a agente (que ela interpreta) viveu, procurando pistas que a conduzissem a Bin Laden. As esperas, os interrogatórios, o cruzamento de pistas, mas também os bastidores da própria investigação, que levou anos a ser concluída, cruzam um filme que, apesar do rigor que procura no retrato dos factos, não esquece a necessidade de construir personagens que são mais do que meros veículos para uma recriação de acontecimentos. O filme surgiu em lugares de destaque de listas dos melhores do ano, mas levantou debates sobre o modo como retratava algumas realidades, nomeadamente o recurso à tortura nos interrogatórios.

“The Rugby Player”
Scott Gracheff, 2013
As histórias de quem foi protagonista naquele dia começam a surgir no cinema. Entre elas as vítimas. Segundo a Sports Illustrated, a cabine do vôo 93 da United Airlines foi tomada de assalto por quatro desportistas. Um deles, um jogador de rugby, de nome Matthew Bingham. Apesar de ser o objeto do documentário – uma vez que além do que se calcula que terá sido o seu papel no assalto à cabina do avião é-nos recordada a sua juventude, feitos desportivos, o seu gosto por filmar e grande sociabilidade – Matt acaba por partilhar o protagonismo do filme com a mãe, uma antiga hospedeira, mulher viva e bem humorada, que não só se fez uma das principais responsáveis pelo monumento em memória das vítimas daquele dia, e, também pela memória do filho, uma figura de referencia entre os muitos praticantes gay de rugby que chegaram a instiuir um troféu em memória de Matt.

“The Walk: O Desafio”
Robert Zemeckis, 2015
Há algo que paira permanentemente no ar ao longo de todo este belo filme de Robert Zemeckis que recorda o feito, de mais loucura do que de razão, do funâmbulo francês que decidiu fazer o “golpe” artístico do século ao caminhar entre as duas torres do World Trade Center em Nova Iorque. É a ausência daqueles dois colossos, separados por 43 metros de vazio que, a poucas semanas da inauguração da Torre Sul, e à altura do 110º andar, viram numa manhã um cabo de aço esticado entre ambas e, sem qualquer segurança, um homem caminhando sobre ele sem nada mais do que uma trave que o ajudava a manter o equilíbrio. Digitalmente recriadas, as torres não deixam nunca de romper a memória da impecável recriação de época para nos lembrarem que já lá não estão e de tudo o que as fez desaparecer, bem como o que desde então aconteceu. E quando, a dada altura, num dos momentos em que olha a câmara e nos fala, o ator Joseph Gordon Levitt, na pele do protagonista, nos lembra que, apesar da detenção e (leve) pena a que foi sujeito após tão ilegal demonstração de domínio da sua arte, lhe foi dado um passe que lhe garantia acesso ao terraço da Torre Sul “para sempre” essa ausência, a que o filme naturalmente não alude explicitamente mas que não deixa nunca de se fazer sentir, torna-se gritante. Quase insuportável. Sem o ser no corpo, na narrativa, na época, The Walk: O Desafio, não deixa de ser assim mais um filme a juntar aos vários que, nos últimos 15 anos, não nos deixam esquecer o que, ali mesmo, novamente com aquelas torres por protagonistas, aconteceu na manhã de 11 de setembro de 2001.

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