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Três álbuns que guardam memórias do 11 de Setembro

Texto: NUNO GALOPIM

Quinze anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, evocamos três álbuns que, pela música e palavras, fixaram retratos, reflexões e memórias desse dia.

Foto: Library of Congress

Passaram 15 anos sobre o dia 11 de setembro de 2001. E por causa dele muito mudou o mundo. Mais do que escutar a memória dos factos e analisar as suas consequências (porque não faltará hoje quem o vá fazer com palavras bem informadas), o que propomos aqui são reencontros. Com três discos que traduzem ecos desse dia.

Steve Reich, “WCT 9/11” (2011)
Não era a primeira vez que Steve Reich refletia, através da música, sobre os grandes acontecimentos no mundo ao seu redor. Fê-lo antes, por exemplo, em Different Trains, obra que cruzava memórias dos dias em que viajava de comboio entre pais separados, da costa Leste para a Costa Oeste, numa mesma altura em que, no Leste europeu, muitos outros da sua idade eram conduzidos, a bordo de outros comboios, diferentes, das suas casas para os campos de extermínio. Mais tarde, através de Three Tales, construiu um tríptico em torno de grandes calamidades criadas pelo avanço da ciência, passando pelo desastre do grande dirigível Hidenburg, as experiências atómicas no atol de Biklini ou a clonagem que gerou a ovelha dolly… Mais recente são as chamadas Daniel Variations, obra que homenageava a figura de Daniel Pearl, jornalista americano morto por terroristas em 2002… Não foi por isso surpresa total a presença de uma obra que evoca o 11 de Setembro de 2001 na sua carteira de trabalhos. Encomendada por uma série de instituições, entre as quais o Barbican Centre, o Carnegie Hall, a Philharmonic Society of Orange County ou o National Endowment for The Arts, WTC 9/11 foi estreada em março de 2011 pelo Kronos Quartet, teve nesse mesmo ano a primeira gravação em disco. Com perto de 15 minutos de duração, a peça junta ao quarteto de cordas uma série de registos vocais, entre sons captados no próprio dia 11 de Setembro de 2001 e outros, resultantes de entrevistas gravadas pelo próprio compositor em 2010. Memórias reais, palavras, expressões, definem o tutano das memórias que a música envolve, ora imitando as falas ora encontrando o cenário que as arruma. De certa forma Steve Reich encontra aqui um patamar de absoluta maturidade de uma linguagem que começou a dar primeiros passos em peças de manipulação vocal em meados dos anos 60 e, mais tarde, assimilou as gravações de voz humana entre um quadro instrumental variado. WTC 9/11 é uma das mais interessantes das composições mais recentes de Steve Reich e mais uma expressão de uma capacidade da arte em refletir o mundo presente, real e concreto que nos envolve. O disco nasceu com uma polémica lançada em seu redor por causa de uma capa original, que mostrava as Torres Gémeas durante o ataque… Retirada essa capa, o disco apresenta-se agora com a imagem com que acabaria por chegar às lojas.

Bruce Springsteen, “The Rising” (2002)
Se, logo nos primeiros tempos após os ataques de 11 de setembro foram surgindo canções e diversos tributos em memória das vítimas e daqueles que acudiram em sua ajuda, só quase um ano depois surgiu um primeiro álbum tematicamente dominado pelas memórias desse dia no final do verão de 2001. Era o primeiro álbum de estúdio que Bruce Springsteen editava em sete anos e assinalava um reencontro com a E Street Band ao fim de 18. O 11 de setembro cruza as canções de The Rising num conjunto de reflexões que expressam a memória desse dia e do seu impacte na comunidade e no indivíduo. O impacte desse dia e as cicatrizes que deixou habitam depois canções, nas quais os pontos de vista surgem através de várias personagens que Springsteen toma como os narradores e protagonistas de pequenas histórias. Há, sobretudo, relatos de quem tenha perdido os seus entes queridos, recordando os últimos momentos íntimos (como ou Empty Sky) ou procurando forças para continuar (como em You’re Missing), não faltando várias ocasiões em que cabe aos bombeiros um papel de protagonismo nestas pequenas ficções que, como num filme, contam uma história.

Laurie Anderson Live in New York (2002)
Gravado em Nova Iorque, poucos dias após os ataques, o álbum ao vivo de Laurie Anderson é talvez o primeiro retrato (depois editado em disco) de uma experiência de partilha entre um palco e uma plateia ainda com a cidade sob uma ferida aberta. Integradas numa digressão em curso, pela qual Laurie Anderson ia cruzando então temas mais antigos com algumas composições recentes, as duas atuações no teatro Town Hall, perto da zona de Times Square, em Manhattan, estão na base deste registo “live” no qual, além dos temas, Laurie Anderson junta algumas reações e comentários que fixam, neste registo, aquele tempo que ali então se vivia.

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