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Ter muito não é ser melhor…

Texto: NUNO GALOPIM

Apesar dos cinco magníficos singles que o precederam, o quinto álbum de M.I.A. mostra como um disco pode perder viço quando os alinhamentos não sabem ser mais curtos.

Se é que havia ainda dúvidas, em 2013 Matangi confirmava, ao seu quarto álbum, que M.I.A. era, de facto, uma das vozes criativas mais únicas, inventivas e verdadeiramente capazes de traduzir o presente que o mapa mundo da música popular colocava à nossa frente nesta aurora de um novo milénio. Em apenas dez anos (foi em 2003 que se estreou com o single Galang) construiu uma obra que, como poucas, traduz uma invulgar capacidade de reinvenção, adaptação a novas formas e linguagens e, acima de tudo, expressa individualidade e uma firme vontade em não ceder a tentativas de moldagem do que faz a eventuais ideias que não aquelas em que acredita. Não admira por isso que, além da música, se tenha transformado num ícone para uma forma de estar na vida, na política e na arte e que seja, assim, uma das figuras do panorama musical atual a quem mais é reconhecido um consequente papel ativista com visibilidade maior.

Antes de Matangi apresentara em Maya (2010) tudo menos aquilo que a “indústria” poderia querer depois do fulgor de Kala (2007) no departamento das vendas (sobretudo graças ao impacte de singles como Jimmy ou Paper Planes), desafiando mesmo o abrasivo Born Free (acompanhado por um dos melhores telediscos de sempre, assinado por Romain Gavras) as fronteiras de uma ideia com alma punk. Depois seguiu-se uma nova e promissora mixtape, mais uma colaboração em MDNA de Madonna e o incidente do dedo levantado na atuação no Superbowl. Matangi, o quatro álbum de originais, ia nascendo aos poucos, desde logo com promissor cartão de visita no superlativo Bad Girls, revelando, depois de vários adiamentos e um berço atribulado, aquele que se afirmou como um dos melhores discos de 2013 e também um dos que mais bem sabiam traduzir ecos do nosso tempo na forma de música.

Abarcando formas e referências que cruzavam momentos de toda a sua obra até este momento, esse disco era uma montra de ideias que M.I.A. moldava numa impressionante coleção de canções que a eclética equipa de produção defendia numa lógica minimalista que impedia quaisquer formas de afogamento perante eventuais adornos desnecessários. Mas, e mesmo tendo nomes como os The Weeknd ou Julian Assange entre os seus colaboradores, era das canções que vivia o álbum. E que grandes canções ali estavam, num alinhamento convicto, coeso e focado. Sem buracos.

Tal como sucedeu com Matangi, também o quinto álbum de M.I.A. foi começando a ganhar forma pública em singles que foi apresentando, espaçados, a partir de agosto de 2015. Primeiro foi, precisamente há um ano, a vez de Swords, que sugeria uma evolução em continuidade. Seguiu-se, em novembro, Borders, um segundo single que mantinha firme uma mesma forma de aliar uma construção electrónica que assimilara tanto o hip hop como ecos de culturas populares com geografia cultural indiana, para nos propor uma reflexão sobre a crise dos migrantes. Formalmente simplista, a letra traduzia afinal também um modo de comunicar frases, que se repetem. Como um “meme”, a frase (e a ideia que veicula) tornava-se assim potencialmente viral. O terceiro single, Go Off, colocava em cena uma colaboração com Skrillex, cruzando uma vez mais ecos heranças da música popular indiana com uma nova cultura urbana digital que, entretanto, deixou de ter geografia demarcada. Bird Song, já em agosto deste ano, reativava (com alguma surpresa) a colaboração com o velho parceiro Diplo numa canção que, formalmente, lançava novos desafios ao construir todo o suporte instrumental com base numa frase que teatraliza o cantar de um pássaro (e que nada tem a ver com os que fazem as avestruzes, apesar de referidas na letra). A uma semana da edição do álbum, Freedun, co-escrito e contando com a colaboração do ex-One Direction Zayn Malik abre a porta a um flirt com paragens mais pop, que era destino há já algum tempo não visitava.

Os cinco cartões de visita, mesmo sugerindo que, ao invés do sucedido entre Maya e Matangi, não haveria agora uma mudança radical de azimutes na demanda da construção musical, na paleta instrumental ou na vontade em expressar visões sobre o mundo presente através das canções, mantinham bem alto o patamar de expectativas. Mas, salvo no trio Visa, Fly Pirates e Platforms (ainda em sintonia com as heranças diretas do álbum de 2013 e dos singles lançados desde 2015) e o mais surpreendente Survivor (por onde passa uma construção cenográfica ambiental diferente e sugestiva, que serve magnificamente as palavras entoadas), o restante alinhamento de AIM não parece tão focado nem inspirado, em alguns temas revelando temas que entrariam melhor na categoria das sobras ou na de peças a trabalhar mais adiante. Sim, porque nem tudo o que se faz em estúdio tem de entrar nos discos…

Há, assim, aqui, um álbum a dois tempos. Coisa que, contudo, um esforço de contenção no alinhamento, ajudaria tremendamente. Que belo álbum teria aqui nascido com dez temas. Mas, fruto de um excesso a que a era do CD nos habituou, a versão longa, com 17 temas (dois deles sendo misturas alternativas de Bird Song), dilui o que poderia ser mais um álbum maior de uma das grandes vozes do presente. E se este for, como por aí corre, o seu último disco, é pena que não tenha concentrado o seu melhor nos belíssimos temas que nos dá a escutar. Ter mais não é necessariamente ter melhor. E AIM é um exemplo (como tantos outros já antes escutados) de como, ao fazer um disco, decidir o que entra e o que fica de fora é, também, uma decisão importante.

Nada disto belisca o estauto de M.I.A. como uma das mais interessantes e representativas das vozes criativas do presente. Nada disto sugere que tenha perdido capacidades criativas – as grandes canções que o disco mostra são disso uma expressão direta. Mas, ao contrário dos anteriores, este álbum parece ter sido menos acarinhado nos acabamentos… E ao abrir frestas a presenças menos pungentes e a não conseguir arrumar melhor as ideias, não repete, como um todo, o patamar em que se mostrou qualquer dos discos anteriores. Esperemos, por isso, e não só, que não seja o último.


M.I.A.
“AIM”
Interscope / Universal
★★★

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