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Roald Dahl: os 100 anos do mágico da literatura infantil

Texto: RAQUEL SANTOS SILVA

Na semana em que se comemora o centenário do nascimento de Roald Dahl, recordamos o autor infantil que continua a conquistar crianças e adultos.

As histórias e os livros infanto-juvenis de Roald Dahl são algumas das primeiras experiências de leitura que muitos recordam. Os filmes baseados na sua linguagem criativa e fantástica continuam a ser dos mais icónicos que uma criança pode ver nos seus primeiros anos de vida. O escritor da nossa infância – e de todas as infâncias, na verdade – faria esta semana 100 anos e a sua vida e obra são celebradas em todo o mundo, em todas as línguas e em cada uma das personagens mágicas e inesquecíveis que criou.

Roald Dahl é hoje um dos autores mais conhecidos da literatura para crianças, ainda que a sua (oficialmente) primeira obra infantil tenha sido escrita apenas aos 45 anos. Estávamos em 1961 e nascia, a partir do génio criativo deste escocês de pais noruegueses, James e o Pêssego Gigante, quase 20 anos após a passagem para o papel de uma das suas primeiras histórias consideradas infantis: The Gremlins (1943).

Esta história, escrita para a Walt Disney com o objectivo de ser transformada em filme, nunca chegou a sê-lo: a sua inspiração na simbologia da Royal Air Force e nas pequenas criaturas supostamente responsáveis pelas falhas nos aviões, conhecidas de Dahl do seu tempo de piloto, geraram algumas questões legais que acabaram por impedir a sua realização. Mas The Gremlins deu a conhecer Dahl a um público jovem que já se adivinhava fã dos seus mundos fantásticos e que, nos anos 60 e em diante, se iria apaixonar definitivamente pelas suas aventuras.

Nos anos seguintes e até à sua morte, em 1990, histórias como O Fantástico Sr. Raposo, O Grande Gigante Gentil, Matilda, Danny, o Campeão do Mundo, Charlie e a Fábrica de Chocolate e a sua sequela, Charlie e o Grande Elevador de Vidro, entre muitas outras, iriam elevar Roald Dahl ao patamar de um dos grandes contadores de histórias do século XX.

Curiosamente, nem só de literatura infantil se construiu a carreira de Dahl. No cinema, foi responsável pela adaptação de alguns romances a argumentos de filmes; uns infantis, outros menos. O amigo Ian Fleming, criador de James Bond, foi um dos autores que Dahl adaptou para o género cinematográfico, em filmes como 007 – Só Se Vive Duas Vezes (1967) e Chitty Chitty Bang Bang (1968). A paixão pelo audiovisual levou-o também a colaborar, por exemplo, na adaptação de alguns dos seus contos para a série televisiva norte-americana Alfred Hitchcock Apresenta, tendo um deles sido nomeado para um Emmy e outro ganho fama por ser interpretado pelos lendários Peter Lorre e Steve McQueen.

A forma peculiar como absorvia as histórias, as pessoas e situações com que contactava foi talvez responsável pela alegria de viver que conseguiu imprimir na sua vida e na sua obra literária, ainda que nem sempre tenha tido uma vida fácil. Nos anos 20, quando tinha três anos, o pai de Roald Dahl morreu de pneumonia, semanas depois da morte de Astri, sua irmã, falecer aos sete anos com uma infecção, deixando a mãe sozinha e com seis crianças a seu cargo. Mais tarde, o próprio Dahl veria a sua filha Olivia (da primeira esposa, a actriz Patricia Neal), também com sete anos, falecer com uma encefalite provocada pelo sarampo.

De todos estes lutos e dificuldades passa para a literatura de Dahl uma certa aura que permeia os nossos sonhos mais negros, mas também que se transforma por vezes em sarcasmo – vestido de personagens caricaturadas, embora nunca sejam estereótipos comuns – ou num humor bem britânico em linguagem juvenil. Enfrentar obstáculos e momentos mais difíceis também faz parte da infância de cada um, e Dahl sabia aproveitar muito bem a sua imaginação fértil e uma linguagem fantasiosa para os abordar à sua maneira.

Muitos dos episódios felizes da sua vida passam também para as histórias que o tornaram mundialmente famoso, como a ideia do chocolate como algo exótico, único e idílico, pelo seu carácter quase inalcançável. Se Dahl gostava de comer um pouco de chocolate após cada refeição, nem sempre as posses da sua família o permitiam. E embora não tenha havido um ‘bilhete dourado’ a levá-lo à fábrica de Willy Wonka, foi mesmo um dos ‘provadores’ dos chocolates Cadbury enquanto esteve no colégio interno, o que serviu sem dúvida de inspiração para as aventuras e para o mundo de Charlie e a Fábrica de Chocolate.

Também as personagens de Dahl, que têm dado origem a várias adaptações cinematográficas – a última das quais O Amigo Gigante (2016), às mãos de Steven Spielberg -, mostram a sua capacidade de observar e absorver o mundo à sua volta e imaginá-lo através do seu próprio olhar. Os protagonistas são mais do que crianças ou criaturas peculiares: são verdadeiros heróis e heroínas, com vidas banais como as de muitas outras crianças, de fácil identificação, mas que ao mesmo tempo são bravos e originais na forma como ultrapassam as adversidades. As suas histórias são recheadas de aventuras fantásticas e as personagens verdadeiras sobreviventes, das quais é impossível não gostar.

O centenário de Roald Dahl celebra-se em cada uma destas histórias, largamente traduzidas para que crianças de todo o mundo as possam apreciar e deixar-se inspirar pelas suas personagens inesquecíveis. Mas nunca estaria completo se à obra de Dahl não associássemos as fiéis e emocionantes ilustrações de Quentin Blake, o – também ele – génio do desenho que tão bem soube captar a alma das suas histórias e personagens.

Juntos, Dahl e Blake continuam a ser responsáveis pelo fascínio constante e renovado por estas histórias ditas infantis, que são verdadeiramente para ser lidas e relidas em todas as idades, sempre com uma visão diferente sobre a escrita e as intenções do autor. Que os próximos cem anos tragam muitos novos leitores para a obra de Dahl, muitas infâncias recheadas de histórias e muitas crianças sem medo de sonhar sem limites.

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