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Os filmes do Queer Lisboa 20

Texto: NUNO CARVALHO, GONÇALO COTA, LOURENÇO ROCHA e LEONARDO RODRIGUES

Com um ritmo lento e contemplativo, e um fio narrativo precário marcado por um homoerotismo em combustão lenta, “Taekwondo” é o mais recente filme de Marco Berger.

“Taekwondo”
de Marco Berger e Martín Farina

Com um olhar sobre o corpo masculino idêntico ao ensaiado no documentário Fulboy (2015), de Martín Farina, Taekwondo, de Marco Berger e Martín Farina (este último, além de correalizar, assina também a fotografia), é uma ficção que se foca num grupo de amigos que passam alguns dias juntos numa casa de campo num subúrbio rico de Buenos Aires. Todos estão na casa dos vintes, têm bom aspeto e gozam uma liberdade lúdica como se vivessem, ainda que por pouco tempo, uma segunda adolescência. Um deles, Germán, bem-parecido e algo introvertido, está interessado em Fernando, o dono da casa, e os dois vão partilhando momentos juntos em que não sabemos bem se existe uma tensão erótica recíproca ou um ligeiro e esporádico flirt entre um homem gay e um heterossexual. Com um ritmo lento e contemplativo, e um fio narrativo precário marcado por um homoerotismo em combustão lenta, Taekwondo mantém o espectador em suspenso, instalando a dúvida sobre se a paixão súbita de Germán será correspondida ou se tudo não passou de um delírio erotomaníaco. – Nuno Carvalho

Cinema São Jorge, Lisboa
Hoje, às 15.00

“Real Boy”
de Shaleece Haas

“Ainda não sei que vídeo vou fazer a seguir”, disse Bennet, ainda no corpo de Rachel, quando era criança. Anos depois, anuncia através do YouTube que iniciou o tratamento hormonal para proceder à transição. Em 2016, chega-nos Real Boy, documentário de Shaleece Haas, essencial para entender a transsexualidade, e comovente mesmo para os mais céticos.

Até à puberdade, vestir-se e ter um cabelo de acordo com o que é normativo foi suficiente. As hormonas ainda não se tinham apropriado da forma do corpo, nem dos estados de alma. Tudo era andrógino. A mãe, para alimentar a fantasia que criava uma “Rapunzel”, apenas conseguiu furar-lhe as orelhas. As fotografias é que não deixam margem para erro, a filha sempre esteve consciente que era um rapaz.

Quando as hormonas lhe começam a tomar conta do corpo, ou deixava crescer o cabelo e se rendia às roupas femininas, ou ficava com um grande “L” escrito na testa. Escolheu a primeira opção, mas, por se sentir tão errado, começou a cortar-se, na tentativa de imprimir em si o engano da natureza.

Na vida de Ben, a música, que acompanha na perfeição todo o documentário, foi essencial e a Internet, poço sem fundo de histórias, revelou-se uma ferramenta de suporte: “o maior presente que recebi enquanto estava a navegar foi saber que não estava sozinho”. Inicialmente a única aceitação que obteve, à semelhança de muitos, foi fora de casa, junto daqueles que também ansiaram pelos primeiros fios de barba, como o seu ídolo Joe Stevens.

Foi rejeitado, pelo pai e pela irmã. A mãe, por influência de hábitos do Texas, da Igreja e do coro, também teve dificuldade em adaptar-se. Para ela, a filha é tal como tinha de ser, o que não está errado, não fosse haver exterior que tem de ser corrigido por não corresponder ao interior.

É extraordinário ver, sem autorização para conter as lágrimas, como uma mãe, sentido a dor de perder uma filha para que nasça o filho, consegue ultrapassar esta barreira ao longo destes quatro anos de filmagens, através do que é o verdadeiro amor incondicional. A mensagem é clara: “há tanta gente no mundo que os adoraria deitar abaixo, só temos de nos certificar que nós não seremos dessas pessoas.”

A marcas de corte deram lugar a uma única impressão, na forma de tatuagem: “Real Boy”. Sem dúvida um documentário capaz de mudar mentalidades. – Leonardo Rodrigues

“A Paixão de JL”
de Carlos Nader

“Isso tanto podia ser uma pintura como uma carta,” começava José Leonilson uma entrevista à crítica de arte Lisette Lagnado, em 1988. A fonte da sua arte (a paixão) e a intuição (ou automatismo) que a veicula convergem em produtos honestos, despretensiosos. “Uma tela não é muito diferente de uma manhã minha,” elucida o artista plástico, já à beira da morte, em 1993, no terceiro anal de um diário íntimo que começou a gravar em cassete áudio pouco tempo antes de se descobrir AIDético (como então se dizia). Os depoimentos cobrem encontros amorosos, as expectativas futuras, a relação com a família, medos existenciais, críticas à sociedade, a forma como lida com a doença ostracizante. A divulgação destes diários e o trabalho que é feito para os referenciar às obras concretas de Leonilson sumulam a contribuição de Carlos Nader com este filme.

De resto, falta a Nader sensibilidade artística e estética. As reconstituições visuais das confissões-explorações do artista são preguiçosas, e dissonantes entre si e com o universo imagético de Leonilson. As transições de planos, arbitrariamente na forma de um flash de TV tablóide, constrangem. Ocasionalmente, são feitas “contextualizações” da época tratada: resumem-se a listas minimalistas de cobertura televisiva de alguns acontecimentos políticos (a eleição de Collor em 1989 cumula a sequência protestante chinês contra tanque, queda do muro de Berlim), e só pontualmente têm que ver com os desabafos do artista. As suas obras, provavelmente por constrangimento de produção, aparecem apenas em fotografias de arquivo, de resolução variável, pristinamente enquadradas ao centro de um fundo branco que, destoando dos restantes planos do documentário, encadeia (para não falar das legendas inglesas em letra grossa sobrepondo-se às obras). Por outro lado, oblitera-se a natureza perecível dos trapos e remendos, que Leonilson cose e onde borda pequenos ícones e frases. Na entrevista de 1988 o artista confessava um fascínio pelos fragmentos de pano pré-colombianos, advindo do seu estado carcomido pelo tempo. E a sua produção artística nos últimos três anos da sua vida, que correspondem ao período retratado, foca-se neste material.

Esta produção foi prolífera, em menos de 13 anos, 4000 obras. Já no fim, Leonilson conta no filme “O médico falou: A medicina não pode ajudar… Agora os trabalhos são tudo o que eu tenho mesmo, sabe. É a minha autobiografia, eles são o meu diário.” Leonilson prepara uma instalação final, cuja abertura não presencia, partindo com tenros 36 anos. Na capela do Morumbi, uma série de camisas sem corpo assentam em cadeiras ou penduram-se num chariot, à entrada. Neste, na lapela de uma camisa de mangas esguias e longas, o nome daquele que Jesus terá trazido de volta à vida pela lamentação da esposa. Lázaro. Esta tensão entre o perecível do tecido e a transgressão da morte pela obra, a pulsão de produzir até ao último instante em cada ponto revela algo de universal. O artista, para além do filme, merece ser relembrado, e se este veículo se proporciona, foi uma boa decisão do festival programá-lo (em sessão de entrada livre). Cumpriu-se um dos legados de um festival Queer, atear a paixão daquela geração que pereceu vítima ao VIH. – Lourenço Rocha

“O Ninho”
de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Exibido como uma longa-metragem, O Ninho é, na verdade, uma minissérie televisiva de quatro episódios (com 25 minutos cada). A história centra-se em Bruno (Nicolas Vargas), um jovem a cumprir o serviço militar obrigatório que decide viajar até Porto Alegre à procura do irmão mais velho, que anos atrás fugiu de casa. Nessa jornada, Bruno descobre uma família afetiva entre aqueles que o conheceram. Em O Ninho, a dupla de realizadores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon (de quem vimos, no ano passado, no Queer Lisboa, o surpreendente Beira-Mar) aborda o conceito de família como algo fluido e relativo, que não tem que ver obrigatoriamente com o grau de consaguinidade, mas sim com o facto de um grupo unido por laços afetivos se sentir como uma verdadeira família. Tal como em Beira-Mar, domina o tom melancólico e sombrio, mas, neste caso, também a impressão de força e união que nasce do grupo de amigos, que prova que família é quem nós amamos e nos ama como somos, e não necessariamente aqueles com quem partilhamos o mesmo sangue. – Nuno Carvalho

Cinema São Jorge, Lisboa
Amanhã, 19.30

“Waiting For B”
de Paulo César Toledo e Abigail Spindel

Ainda a limonada demorava (muito) a chegar, as mais intrincadas coreografias e os mais brilhantes figurinos refrescavam as noites de espera à porta do estádio Morumbi, em São Paulo. E foram 57 noites assim. Waiting for B. é o documentário que ninguém estava à espera, nem mesmo os realizadores, Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel, que numa primeira fase pretendiam fazer um vídeo-reportagem de dez minutos e acabaram por fazer um retrato mais extenso sobre fãs da Beyoncé, que acamparam meses antes do concerto, para assegurarem um lugar na fila da frente. “Percebemos que tínhamos ali estrelas de cinema, só faltavam ser gravadas”, disse ontem o realizador na sessão da noite no Cinema São Jorge. Este não é, de todo, um retrato simplista: mergulhamos directamente na discriminação vivida pelas personagens, a maior parte delas homens gays, negros, de periferia, e na emergência de uma comunidade que usa a cultura pop como protesto, a “contracultura que bebe do absinto que é o mainstream“, como nos diz Paulo César Toledo. Divertido e inesperado, este é um dos destaques desta edição do Queer Lisboa 20, que nos permite também olhar sobre a organização das tendas à porta, as regras e a construção de ídolo, também ela é um caso de empoderamento. Este não é contudo um filme sobre a Queen B. Quem usa a coroa são os nossos protagonistas. – Gonçalo Cota

“Kater”
de Händl Klaus

Antes de se dedicar à realização, o austríaco Händl Klaus trabalhou como ator, tendo participado em dois filmes de Michael Haneke. E, na verdade, há em Kater, a sua segunda longa-metragem, depois de März (2008), premiada em Locarno, um toque hanekiano, sobretudo através de uma das personagens, que tem um gesto de inesperada e estranha frieza que desencadeia um clima psicológico devedor daqueles em que o realizador de O Sétimo Continente é mestre. A história do filme centra-se em Andreas (Philipp Hochmair) e Stefan (Lukas Turtur), um casal gay que vive uma vida idílica numa zona de vinhedos nos arredores de Viena. Trabalham na mesma orquestra – Stefan como músico e Andreas na produção –, têm um grupo de amigos íntimos e cuidam com amor do seu gato, Moses. Mas esse estado quase edénico é desfeito quando Stefan tem um inesperado e inexplicável repente de violência que instala a desconfiança e a frieza entre o casal. A partir desse momento, assistimos a uma espécie de processo terapêutico em que o casal tenta reganhar o “paraíso” perdido que uma simbólica serpente veio envenenar. Filmado com destreza técnica e sensibilidade estética, e com interpretações sólidas dos dois principais atores, Kater é um pequeno ensaio sobre o estranho que se esconde em cada um de nós e a luta interna que se trava para tentar “amansá-lo”, como se se tratasse da domesticação de um animal selvagem. – Nuno Carvalho

“Spa Night”
de Andrew Ahn

Em colaboração com a argumentista Robin Swicord (O Estranho Caso de Benjamin Button), o realizador coreano-americano Andrew Ahn conta, na sua primeira longa-metragem, uma história de repressão sexual sob a forma de um coming-of-age. O filme centra-se em David (Joe Soe), um adolescente tímido e indeciso, filho de imigrantes coreanos a viver em Los Angeles, que luta contra si mesmo por não querer fazer infelizes os pais que se sacrificaram para lhe garantir uma boa educação, e que encontra para este conflito um escape num spa exclusivo para homens onde arranja trabalho a fazer limpezas. No espaço fechado e secreto do spa, de forma clandestina, expressa os seus desejos reprimidos, como se ali encontrasse uma forma ao mesmo tempo mais “benigna” e erótica de viver uma sexualidade que sente como uma força que tem de controlar. Para além da subtileza com que Ahn filma o dilema emocional e sexual de David, Spa Night conta com uma interpretação contida e equilibrada do ator protagonista.– Nuno Carvalho

“AWOL”
de Deb Shoval

Expansão da curta-metragem homónima de 2010 de Deb Shoval sobre uma jovem que decide abandonar o exército numa licença invernal, AWOL centra-se em Joey (Lola Kirke, que vimos ao lado de Greta Gerwig em Mistress America, de Noah Baumbach), uma jovem de 19 anos que vive com a mãe e os irmãos numa pequena cidade do estado da Pensilvânia e que se apaixona perdidamente por Rayna (Breeda Wool), uma mulher casada e mãe de duas filhas. Todavia, enquanto para Joey o seu primeiro amor é uma questão da maior importânica, para Rayna a adolescente parece não passar de uma diversão para aliviar a pressão de uma vida familiar complicada. Tendo como cenário uma cidade do Rust Belt, AWOL é um conto sobre duas mulheres tolhidas nas suas escolhas e aprisionadas nas suas vidas sem grande esperança de mudança por circunstâncias complexas que ultrapassam em vários aspetos a questão da identidade sexual. – Nuno Carvalho

“Tchindas”
de Marc Serena e Pablo García Pérez de Lara

Tchindas (2015), de Marc Serena e Pablo García Pérez de Lara, parte do encontro que o primeiro teve com Cesária Évora em 2011, um dia e meio antes da cantora morrer. Ela recomendou-lhe que testemunhasse carnaval dali, o melhor em toda a África. Numa das suas canções, que entrecortam o documentário: “São Vicente é um brasilin[ho]”. Serena reparou também de imediato que a comunidade LGBT do país era a menos ostracizada de uns vinte países africanos que havia visitado.

Cabo Verde, segundo a história, seria terra sem gente à altura do seu descobrimento por portugueses do século XV. Foi desde então colonizada com reinóis, judeus exilados e, maioritariamente, indivíduos escravizados. O arquipélago tornou-se principal entreposto do tráfico humano português, ditando que aí originasse uma nova cultura miscigenando as que se encontravam na costa ocidental africana.

A transexualidade e a homossexualidade foi notada pelos portugueses, entre os africanos, logo no século XVI. É de há 460 anos o primeiro registo. Vitória, capturada para tráfico em Benim, transgénero, conseguiu numa primeira fase iludir os capatazes e imiscuir-se entre as mulheres escravizadas. Já em Portugal, em 1556, Vitória irritava-se com quem a tratava no masculino e tinha sexo com homens, e por isso foi condenada pela Inquisição a pena perpétua nas galés do rei. Outros relatos, de Angola e Congo, descrevem os quimbanda, indivíduos poderosos nas suas comunidades que se trasvestiam e praticavam a sodomia.

Numa altura em que a homossexualidade é ilegal em 32 dos seus 56 países e a identidade de género apenas reconhecida em um, em que para lá dos estatutos homofóbicos herdados das potências coloniais, a violência estatal é espoletada por movimentos evangélicos internacionais, Tchindas revela-nos uma África contracorrente. A longa acompanha três tchindas, Tchinda Andrade (ao tornar-se em 1998 a primeira figura gay/transgénero a assumir-se em praça pública, tornou-se epónimo para as pessoas daquelas categorias, que aqui se fundem), Edinha Pitanga e Elvis Tolentino preparando um bloco do carnaval da ilha de São Vicente. Este ano o seu carro alegórico, entronando a rainha do mar e a sua corte de tchindas, será escoltado por crianças locais. Tchinda quer ensinar-lhes a sua cultura. Ao ser testemunha de tolerância e integração, ao relegar a homofobia ao negativo, o filme revela um povo que, por rejeitar a moral suplício dos portugueses, se recusa às narrativas de vitimização e condescendência ocidental. O padre diz que o carnaval é do diabo, conversa uma criança, vocês são todos diabos, retorque Tchinda, uma vez a Igreja era ignorante. Somos todos filhos de deus, diz outra cabo-verdiana. É o retrato de um país onde, entrando deus, ele permanece nos termos do seu povo, que conheceu a desumanização por ele em tempos sancionada. Lourenço Rocha

“Coming Out”
de Alden Peters

Em 2013, Alden Peters, um jovem norte-americano, decide lançar um campanha de crowdfunding no Kickstarter de forma a poder realizar um documentário sobre o processo de revelação de quem é, ou como se popularizou, de “sair do armário”.

Num jeito de introdução, durante uma viagem de carro, confidencia ao irmão mais velho: “neste novo documentário vou filmar-me a contar-vos que sou gay“, começando assim o seu percurso de libertação. Surpreendido, o irmão abraça-o. Entre Nova Iorque, Seattle e Phoenix, seguem-se os amigos mais próximos, a mãe, o pai e os irmãos até ao grande momento de o fazer no Facebook – o que é o mesmo que escrever liberdade plena no século XXI.

O documentário, embora utilizando um formato de base há muito explorado por youtubers consegue surpreender. As primeiras “saídas do armário”, desde o pai até aos amigos fazem-se à frente da câmara – que o empurra para passar à ação -, de forma crua, sem artifícios. É refrescante ver a atitude honesta e descontraída do protagonista, mesmo com o nervosismo natural junto de quem se estreia nestas andanças.

As revelações são-nos mostradas entre excertos do coming out de outros e de imagens que remontam à infância – as roupas femininas, as conversas e performances ousadas, sugerem sinais aparentemente ignorados por todos.

Ainda na infância, confidencia-nos, perguntou a um rapaz se podia vê-lo com as calças em baixo. No dia a seguir, não fossem as crianças cruelmente honestas, toda a gente já sabia, o que resultou na sua primeira experiência de humilhação pública. Foi aqui que aprendeu que “aquilo” era errado, algo que explica a sua tentativa de esconder quem era, vestindo a pele que julgou que assentava melhor aos outros, numa repetição constante do mantra: “eu não sou, eu não posso, eu não quero”.

A internet, para Alden, foi até Coming Out o único lugar onde podia debater o facto de ser gay e autodescobrir-se. Online, tudo isso traduziu-se na utilização de fóruns de discussão e a procura de relações íntimas no popular site Craigslist.

Como uma das vídeo-histórias mostradas ao longo do documentário nos relembra, cada caso é um caso. E este é um processo diferente para todos dada a pluralidade de circunstâncias que fazem parte das vidas de cada um. – Leonardo Rodrigues

‘Antes o Tempo não Acabava’
De Sérgio Andrade e Fábio Baldo

A primeira longa-metragem que marca a colaboração entre o realizador Sérgio Andrade e o montador e autor de curtas Fábio Baldo é um olhar que mistura registos de ficção, documentário antropológico e realismo mágico para contar a história de Anderson (Anderson Tikuna), um jovem índio que vive numa cabana nas margens da cidade de Manaus, perto da floresta onde se encontra a tribo a que pertence. O filme foca sobretudo a terra de ninguém e o estado de limbo em que Anderson vive, numa condição de conflito interior e ambivalência perante a necessidade de procurar na selva urbana um espaço mais coincidente com a sua identidade e as raízes que parecem prendê-lo a um passado de que se exilou mas que teima em persegui-lo através da pressão que o velho xamã exerce para que volte à aldeia para repetir um ritual que falhou na passagem da infância para a puberdade. Antes o Tempo não Acabava é um retrato semiabstrato sobre uma figura essencialmente lacónica e silenciosa, como se tivesse transbordado as fronteiras da própria linguagem conhecida e habitasse uma zona morta ou desértica cuja cartografia implica a criação de uma nova língua pessoal e identitária. – Nuno Carvalho

Cinema São Jorge, Lisboa
Hoje, às 17.15

“Brazil Carnival”, “Brazil Jungle” e “Brazil Solos”
António da Silva

A sessão deste ano das Hard Nights do Queer Lisboa apresentaou as últimas quatro curtas metragens do realizador português António da Silva: Brazil Carnival, Brazil Jungle, Brazil Solos e Ecosexual.

Brazil Carnival explora a hiperssexualidade vivida no carnaval do Rio de Janeiro, onde as bundas e os pénis se misturam com os ritmos quentes do samba e do funk. A ideia da libertação da verdadeira identidade é fulcral nesta curta: o calor, a máscara e os corpos nus libertam o desejo e a excitação reprimidos no resto do ano.

O leão deixa de ser o rei da selva. Em Brasil Jungle, a primitividade é o mote e a premissividade a regra. A performance do sexo explicito, sem tabus, é assistido pelas formigas e pelos voyeurs mais atentos, que vão até à mata libertar os seus instintos mais animalescos.

30 foram os homens entrevistados em Brazil Solos. A nudez e a descontração permite conhecer o seu intimo: a diversidade cultural e sexual do Brasil, a obsessão pelos corpo, e bunda, perfeitos, as fantasias e experiências, os preconceitos e os medos.

Ecosexual transporta-nos do Brasil para as praias do Sul de Portugal. Rowland, que desaguou noutros filmes de António da Silva, apresenta-nos um monólogo inspirado no “The Wide Ocean” de Pablo Neruda, onde o corpo entra em simbiose com a paisagem e com a natureza. – Gonçalo Cota

‘Théo et Hugo dans le Même Bateau’
de Olivier Ducastel e Jacques Martineau

Como se fosse uma espécie de versão benigna e agradável da opressiva cena do clube noturno em Irreversível (2002), de Gaspar Noé, a sequência de abertura de Théo et Hugo dans le Même Bateau decorre na cave de um clube de sexo gay parisiense e centra-se no encontro sexual entre dois rapazes na casa dos vinte anos que descobrem nessa experiência de amor físico uma paixão à primeira vista que os leva depois numa deambulação pelas ruas quase desertas da zona leste de Paris à medida que se vão conhecendo melhor. Porém, essa viagem ao fim da noite, que acabará ao romper da aurora, numa simulação de tempo real, é assombrada pelo fantasma da dúvida e do medo. Isto porque fizeram sexo desprotegido e Hugo (François Nambot), a crer nas suas palavras, é seropositivo de longa data em tratamento. Por isso, antes de continuarem noite fora e apanharem o primeiro metro em direção ao apartamento de Théo (Geoffrey Couët), passam por um hospital para seguir um protocolo de profilaxia pós-exposição ao VIH.

Vencedor do Prémio Teddy do público na edição deste ano do Festival de Berlim, Théo et Hugo dans le Même Bateau, de Olivier Ducastel e Jacques Martineau (As Aventuras de Félix), é um excelente exercício de mise em scène, entre a ficção e o documentário, que retrata de forma sedutora e envolvente a realidade relativamente subterrânea dos clubes de sexo gay e de como entre os seus frequentadores se pode encontrar dois jovens adultos cujo espírito nada tem de sórdido ou reles. Enquanto se conhecem noite dentro, ficamos a saber, entre outras coisas, que Théo tem o sonho de fazer serviço humanitário e que Hugo é ajudante de notário. Mas é claro que há também aqui um olhar com consciência social que mostra como, nalguns aspetos, os homossexuais são pressionados para permanecer numa certa obscuridade, relegados para funções profissionais (e sociais) de segundo ou terceiro plano. Como se a ideologia reinante ainda lhes negasse, por medo e preconceito, a exposição natural e sem complexos que merecem como cidadãos dignos e de pleno direito que são. – Nuno Carvalho

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