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Quando a valsa fez voguing

Texto: NUNO GALOPIM

Em 1989 o álbum “Waltz Darling” de Malcolm McLaren voltou a cruzar universos clássicos com a pop, e juntou um elemento nascido da cultura queer nova-iorquina de então.

Atenção. Esta não é uma obra-prima. Nem mesmo um dos discos mais marcantes da obra de Malcolm McLaren. Mas numa altura em que falamos tanto por aqui do esbatimento de fronteiras entre a pop e a música clássica, é disco que, com alguns momentos magníficos, merece ser recuperado.

O antigo manager dos Sex Pistols e o visionário por detrás da criação dos Bow Wow Wow tinha já na sua carteira de feitos um episódio de importantes cruzamentos de linguagens e referências. Logo no seu álbum de estreia – Duck Rock (1983) – assimilava ideias da cultura hip hop (sendo dos primeiros nomes da pop a fazê-lo) e da cultura africana (antecipando aqui o que Paul Simon faria com maior visibilidade poucos anos depois, em Graceland). E em Fans, segundo álbum, editado em 1984, encontrava novas pontes, desta vez com o universo da ópera, criando versões pop a partir de árias de Madama Buttefly de Puccini ou Carmen, de Bizet. Depois de Swamp Thing, um álbum de outtakes e novas versões lançado em 1985, apresentou novo passo em finais dos anos 80 com um disco onde não só colocava a memória da valsa na berlinda, como trazia à luz do dia a cultura do voguing (a mesma que Madonna assimilaria um ano depois no single Vogue), uma das mais vibrantes e flamboyant entre as expressões da cultura queer da Nova Iorque de então.

É nesse ponto, entre a elegância classicista da valsa e a sofisticação em pista de dança do voguing que Malcolm McLaren cria Waltz Darling. Contando com colaborações como as de Jeff Beck ou Bootsy Collins, citando Johann Strauss em House Of The Blue Danube (An Instrumental) e Shall We Dance, o álbum deixou-nos momentos maiores como Waltz Darling, Something’s Jumping In Your Shirt, o vibrante monumento funk que é Algernon’s Simply Awfully Good At Algebra e Deep In Vogue (o tema que, antes de Madonna, de facto “descobre” este fenómeno).

Além do número um na tabela de dance music da Billboard alcançado por Deep In Vogue, o álbum não teve nem o impacte de Duck Rock nem a visibilidade das aventuras operáticas de Fans. Mas é uma peça a não esquecer na história dos diálogos da cultura pop mainstream com outras formas e universos.

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