Últimas notícias

Será que os sonhos moram mesmo a Oeste?

Texto: NUNO GALOPIM

No seu novo filme “Se as Montanhas se Afastam” o realizador Jia Zhang-Ke foca atenções numa ficção que não deixa de traduzir ecos da sua visão sobre a China atual.

"Se as Montanhas de Afastam", de Jia Zhang-ke.

Há um impressionante simbolismo na sequência de abertura de Se as Montanhas se Afastam que, de forma mais sugestiva do que descritiva, nos coloca no contexto. Go West, o original dos Village People, escutado aqui na versão dos Pet Shop Boys, serve de banda sonora a passos de dança de um grupo de jovens (entre os quais os protagonistas do filme), algures no fim do ano de 1999. A memória do teledisco que apresentara essa mesma canção alguns antes ecoa ali, lembrando como entre as imagens que serviam então os Pet Shop Boys havia uma coexistência de iconografia americana e soviética, cuja ressonância ecoa numa China que, comunista na sua identidade, abria frestas a relações empresariais mais próximas dos modelos do capitalismo. E as figuras que habitam a narrativa de Se as Montanhas se Afastam traduzem, precisamente, esse estado das coisas.

O filme propõe-nos uma história que cruza três tempos. Em 1999 apresenta as personagens, um trio com uma mulher desejada por um jovem a subir na vida (e que acabou de comprar uma mina quase a tostões) e também por um outro, que trabalha como mineiro. Escolhe o primeiro, com quem casa, dele já divorciada quando, em 2014 (a segunda época) a encontramos no momento em que perde o pai e chama à cidade de província onde ainda vive – embora com outras condições – o filho, cuja custódia ficara por conta do pai, que prosperara nos negócios e se mudara para Xangai e passara a ser tratado como Peter. Dollar (assim se chama o filho) é a figura central da terceira etapa, passada na Austrália, num futuro próximo, em 2025.

Apesar de contrariar o tom mais factual que habitava os lugares e figuras de filmes seus mais recentes como o documentário Histórias de Xangai – Quem Dera Saber (2010) ou a ficção (baseada em quatro histórias reais) China – Um Toque de Pecado (2013), o novo filme de Jia Zhang-ke não deixa de traduzir um olhar crítico sobre os rumos que está a tomar a sociedade chinesa, retomando contudo opções narrativas que revelam planos de fuga ao realismo que caracterizara algumas obras suas antigas. Não necessariamente através da alegoria, como o fizera no soberbo O Mundo (2004). Mas usando as armas da ficção em torno de um triângulo de personagens (e das consequências das suas ações) como um microcosmos que acaba por absorver os ecos do ambiente em seu redor. A etapa lançada no futuro alarga mais ainda as possibilidades narrativas, mostrando o realizador estar mais interessado no destino das personagens do que nas marcas “futuristas” que a ficção científica certamente exploraria com outro afinco. Há um tom (talvez propositadamente) desconcertante na evolução das linhas de vida das figuras em cena… Mas a cena final (e não vale contar do que se trata, porque é na sala escura que se deve revelar) lembra-nos que, o lugar para o sonho nunca desaparece. Mesmo que nada se concretize como antes se esperou.

“Se as Montanhas se Afastam”
Realização: Jia Zhang-ke
Com: Zhao Tao, Zhang Yi, Liang Jingdong e Dong Zijian
Distribuição: Midas Filmes

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: