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Um justiceiro nas ruas de Nova Iorque

Texto: NUNO GALOPIM

Quarenta anos depois de ter arrebatado a Palma de Ouro em Cannes, “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, regressa amanhã às salas para nos recordar um dos maiores clássicos do cinema norte-americano dos anos 70.

Numa edição recente da revista Sight and Sound, um texto de Jon Savage sobre os 40 anos do punk recordava Taxi Driver de Martin Scorsese lembrando como este era um filme contemporâneo de um tempo em que os Ramones (assim como outros dos primeiros vultos maiores da cultura punk) caminhavam por aquela mesma Nova Iorque, numa altura em que gravavam as canções do seu álbum de estreia que, com o título The Ramones, seria editado em 1976, o mesmo ano em que este filme arrebatava a Palma de Ouro em Cannes.

Um dos maiores retratistas de Nova Iorque através da ficção, Martin Scorsese tinha já tomado a cidade como cenário em I Call First (filme de 1967 que acabaria depois conhecido como Who’s That Knocking at My Door ou em Os Cavaleiros do Asfalto (1973). É contudo em Taxi Driver que, com alguns planos de exteriores rodados nas ruas de Nova Iorque durante uma vaga de calor e em tempo de uma greve dos serviços de recolha do lixo, Scorsese define um olhar que, mesmo física e narrativamente ligado à cidade, na verdade pode ser também lido como um cenário-tipo capaz de traduzir o patamar de gigantismo e desumanização das grandes metrópoles ocidentais nos anos 70.

O próprio protagonista, num dos papéis mais marcantes da filmografia de Robert de Niro, é um ex-militar regressado do Vietname e agora mentalmente instável, um homem alienado decidido a fazer valer os valores da justiça (nem que à sua maneira), sugerindo a ideia de um “vingador” niilista que, mesmo marcado pelo espaço e o tempo em que vive, pode transcender, no que o compele a agir, as marcas de época e geografia que o filme fixa nas imagens.

O filme é centrado na sua figura, num tempo que se segue ao regresso à vida civil e a uma tentativa de enquadramento na sociedade, encontrando trabalho onde ele existe, segundo as regras a que está sujeito. Ao andar pelas ruas de noite, guiando um táxi, o quotidiano fá-lo um observador (não passivo) de situações que soma a outras que vive nas horas livres durante o dia. E entre o que descobre uma rede de prostituição e entre figuras de uma campanha política nasce uma inquietude que, sob o seu quadro mental, acaba a gerar uma espiral de descontrolo e violência.

Com argumento de Paul Schrader, uma direção de fotografia de Mark Chapman que não esconde heranças da nouvelle vague, uma banda sonora que correspondeu à reta final do trabalho de Bernard Herrmann e um elenco onde figuram ainda nomes como os de Harvey Keitel, Josd Foster ou Cybill Shepherd, Taxi Driver é, 40 anos depois, um título que frequentemente habita, e com toda a justiça, as listas de melhores filmes de todos os tempos.

Este texto foi originalmente publicado na Medeia Magazine

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