Últimas notícias

Os 10 melhores singles dos U2

Seleção e textos de NUNO GALOPIM

No dia em que se assinala o 40º aniversário do gesto que fez nascer os U2 iniciamos a publicação de uma lista com os dez melhores singles da discografia da banda irlandesa.

Foi a 25 de setembro de 1976. Larry Mullen Jr tinha então 14 anos e resolveu colocar um anuncio no placard da sua escola (em Dublin), pedindo músicos para uma banda. Responderam várias pessoas e, logo entre as que compareceram ao ensaio, na cozinha da casa dos seus pais, estavam Paul Hewson (mais tarde conhecido como Bono), os irmãos Evans (um deles adotaria depois o nome The Edge) , Adam Clayton e ainda mais dois amigos de Larry, desde logo o baterista. A presença de Paul no ensaio deixou claro que seria ele a figura de carisma mais evidente entre o lote… Começaram por se chamar Feedback e traziam entre as suas influências o então bem contemporâneo apelo das mais significativas bandas do punk. Em 1977 mudariam o seu nome para The Hype. E em 1978, após uma progessiva depuração da formação, que ficou reduzida a quatro após a saída de um dos manos Evans, passaram a apresentar-se como U2.

Quarenta anos depois desse gesto fundador de Larry Muller Jr, os U2 são uma das bandas de maior dimensão, obra e influência na história da música popular. Em tempo de assinalar o seu 40º aniversário, vamos caminhar aqui entre as suas dez melhores canções editadas em single. A escolha é, como sempre, uma seleção assinada.

1. “Mysterious Ways” (1991)
Se o mais “difícil” e algo abrasivo foi The Fly, escolhido como cartão de visita para os inesperados sinais de mudança revelados depois em Achtung Baby – álbum que abre uma década de experiências e ousadias que sublinhou a sede de descoberta num grupo que tinha já atingido aquele patamar em que podia ligar o piloto-automático – coube depois a este segundo single retirado desse álbum o papel de lembrar que a relação da banda com um sentido mais clássico de melodismo e com a capacidade de criar grandes hinos não estava fora da nova agenda. De novo, sim, havia uma relação mais evidente com formas ligadas à música de dança, o que acaba por inscrever aqui ecos de sinais dos tempos numa época em que a linha da frente da invenção pop/rock alternativa vivia, precisamente, tempos de flirt com a dance music. Esta canção nasceu de primeiras experiências das quais só as partes de baixo sobreviveram, ganhando depois com o esforço coletivo da banda e produtor as cores e fulgor que lhe deram esta forma final. O teledisco, filmado por Stéphane Sednaoui em Marrocos, acentua um certo tom de exotismo que acentua os sabores da diferença. Não repetiu a popularidade de alguns dos singles nos anos 80, mas a sua presença na Zoo TV Tour e digressões subsequentes transformou-a num clássico maior para ao U2.

2. “Numb” (1993)
Entre as canções gravadas durante as sessões de Achtung Baby, mas depois deixadas de lado estava Down All The Days, à qual regressaram pouco depois, quando (ao mesmo tempo que corriam o mundo com a Zoo TV Tour) começaram a registar os temas que surgiriam em Zooropa. Essa canção foi radicalmente transformada sob intervenção direta de Flood e de Brian Eno, juntando teclados e sampes aos quais depois se acrescentou uma vocalização, algo monocórdica por The Edge, que traduzia o sentido da nova letra e identidade da canção que, entretanto, passara a ser conhecida como Numb. Na hora de pensar num cartão de visita para Zooropa escolheram-na precisamente como single de apresentação, com um efeito de surpresa que não se esgotou apenas na abordagem mais eletrónica da composição nem na vocalização invulgar, mas que se estendeu até ao formato de edição escolhido: o videosingle (na época em suporte de cassete VHS)… Esta opção decretou o relativo insucesso comercial de uma canção que teve contudo maior impacte na rádio. Os telediscos (havia dois, um deles juntando imagens cujos sons eram acrescentados à misyura do áudio) sublinhavam ainda todo um quadro de opções estéticas ousadas (e oportunas) que fizeram deste single um dos casos mais notáveis de toda a obra dos U2.

3. “Where The Streets Have No Name” (1987)
Foi em vésperas de entrarem em estúdio para gravar The Joshua Tree que, na sua nova casa, e apenas acompanhado com um pequeno gravador, The Edge registou uma série de linhas que definiam o caminho para uma nova canção. O tema representaria um dos desafios maiores das sessões de gravação, acolhendo diversas sugestões, alterações, tanto que a versão gravada corresponde a uma coleção de fragmentos criados em alturas diferentes (o que não impediu que, depois, ganhasse impressionante solidez e se tornasse num clássico ao vivo). A letra traduz ecos de uma passagem de Bono por Belfast (cidade na qual as ruas e os bairros traduzem o estatuto social de quem neles habita), espelhando o sonho de uma mundo diferente onde essas diferenças fossem esbatidas e mesmo ultrapassadas. Escolhida como terceiro single do álbum de 1987, sucedendo a With Or Without You e I Still Haven’t Found What I’m Looking For, a canção obrigou à criação de um teledisco que, na verdade, representou um feito histórico de produção ao levar a banda ao terraço de um edifício em Los Angeles, sob o olhar de uma multidão (e das forças de segurança), criando imagens que evocam a histórica atuação dos Beatles em janeiro de 1969 no telhado dos seus escritórios em Londres. A canção tornou-se um clássico e é dos temas dos U2 com mais versões por outras vozes. Os Pet Shop Boys recriaram-na para um single em 1991.

4. “Even Better Than The Real Thing (Perfecto Mix)” (1992)
A ideia inicial partiu de um riff surgido entre as sessões de Rattle & Hum, mas por aqueles dias ficou na gaveta. Houve uma nova tentativa de desenvolver a canção a partir desse riff de The Edge durante as sessões em Berlim que marcaram o início (algo atribulado) dos trabalhos em torno de Achtung Baby. Mas na verdade a canção só ganhou forma nas sessões seguintes, em Dublin, nas quais um novo pedal para a guitarra abriu outras possibilidades ao som e um desafio para introduzir um tom mais bem humorado à canção acabou por levar Bono a agir sobre a letra, surgindo então o título pelo qual seria integrada no alinhamento de Achtung Baby. Foi editada em single depois de The Fly, Mysterious Ways e One, resultando na mais discreta das performances desses singles. Contudo, uma reedição do tema sob remistura de Paul Oakenfold revelou não apenas uma capacidade de comunicação mais evidente para com o público (e consequentes melhores resultados) como colocou os U2 na ordem do dia, entre uma série de bandas – como os Primal Scream, Happy Mondays ou Charlatans – que então ensaiavam diálogos entre as linguagens do rock e as novas formas da música de dança… O gérmen de que nasceria a visão PopMart estava aqui encontrado.

5. “Sunday Bloody Sunday” (1983)
A mais abertamente política das etapas dos U2 deu-lhes o mais icónico dos seus hinos (e um dos maiores exemplos de poder de comunicação de uma canção política). Os factos de que nos fala a canção evocam duas datas sangrentas. Uma delas em 1920, durante a guerra da independência. A outra em 1972, durante uma manifestação na Irlanda do Norte, na qual a intervenção armada do exército britânico resultou em 14 mortos (13 dos quais imediatos) e vários feridos, valendo-lhe a designação de “domingo sangrento”. Paul McCartney e John Lennon foram dos primeiros músicos a reagir aos acontecimentos, o primeiro em Give Ireland Back to the Irish (que lançou como single), o segundo através de Sunday Bloody Sunday, que incluiu no álbum Sometime in New York City, editado ainda esse ano. Houve depois canções por bandas como os Black Sabbath ou Stiff Little Fingers… Mas foi em 1983, com o hino que os U2 apresentaram a abrir o alinhamento de War (o seu terceiro álbum), que os incidentes daquele dia em Derry ficaram registados com uma nota de impacte global na história da cultura popular. A canção nasceu de um riff de The Edge, no qual trabalhou enquanto Bono e Ali passavam a sua lua de mel, na Jamaica. Sunday Bloody Sunday ganhou corpo com a adição de uma percussão de alma militarista, projetando logo na música muita da sua carga visceral. Houve alguma cautela da parte da banda na altura de a apresentar… Mas não só se fez êxito imediato como se transformou num hino de palco que em muito contribuiu para o salto em popularidade que o grupo viveu no final da primeira metade dos anos 80.

6. “The Unforgetable Fire” (1984)
À procura de um contraste com o que tinham apresentado no álbum War (1983), os U2 procuraram na companhia de Brian Eno e Daniel Lanois a construção do sentido para uma nova etapa na discografia dos U2. Mais atmosférica, mais rica em detalhes cénicos do que na expressão primordial do viço rock’n’roll do trio elétrico, a música abriu possibilidades que o single de avanço – Pride (In The Name of Love) – não traduzia em pleno, mas que caraterizava a essência do álbum a que chamaram The Unforgetable Fire. O tema título do disco, que se diz ter surgido na sequência de uma visita a uma exposição criada por sobreviventes de Hiroxima, estava longe de ser a mais óbvia das possíveis escolhas para um segundo single (Bad, por exemplo, parecia mais claro candidato)… Mas acabou a ser o escolhido, apresentando aquele que, até ali, era o mais atípico dos singles dos U2, apresentando uma canção cenicamente rica em acontecimentos, contando com um arranjo de cordas assinado por um músico de jazz irlandês. Não se fez hino (nem nunca o seria pela forma da canção), mas marcou presença, desde então, em várias digressões. E chegou a ter boa performance em algumas tabelas de singles.

7. “Vertigo” (2004)
Apesar de alguns sucessos posteriores – como All Because Of You, Sometimes You can’t Make it On Your Own, The Saints are Coming (com os Green Day) – terem chegado ao número um em alguns território, este foi o último single dos U2 a conhecer o efeito de transversalidade global que caracterizou alguns dos seus temas de maior sucesso depois da conquista do mercado americano (e, dali, o mundo), na segunda metade dos anos 80. Depois de um álbum de reencontro com as suas raízes rock’n’roll em All That You Can’t Leave Behind, em 2004 insistiam nesse regresso a valores primordiais, mas desta vez chegando mesmo a devolver à cadeira da produção a figura de Steve Lillywhite, que com eles trabalhara nos primeiros tempos (o que implicou a interrupção, pontual, de uma colaboração em estúdio com Brian Eno e Daniel Lanois que mantinham desde 1984). Vertigo, que nasceu entre as sessões de gravação de How To Dismantle an Atomic Bomb?, era já descrita pelos músicos, antes mesmo da sua revelação como single, como uma grande canção rock’n’roll. Assim era… E com uma intro em espanhol, com um 1, 2, 3… 14, que levantou o debate sobre tão invulgar série numérica. Ao que parece uns copos explicam-na. Ou pelo menos assim o reza a mitologia. O impacte da canção acabou por fazer com que desse nome à digressão que se seguiu ao lançamento do álbum.

8. “I Will Follow” (1980)
A morte da mãe, que se sucedeu numa questão de dias à do avô, teve um impacte devastador no jovem Paul (Bono), então com 14 anos. E esse terá sido o ponto de partida para as palavras que acabariam por surgir na letra de uma das canções mais marcantes da primeira etapa da carreira dos U2. Comandada por uma relação com a guitarra que The Edge reconheceu ser devedora da sua admiração pelo som dos Magazine (uma das bandas de referência do pós-punk britânico), a canção abria o alinhamento do álbum de estreia, Boy, lançado em outubro de 1980. Cinco dias depois do álbum I Will Follow surgia no formato de single – o sucessor de A Day Without Me que, em agosto de 1980, tinha sido o cartão de visita para as sessões com Steve Lillywhite das quais iria nascer um primeiro álbum – e deu aos U2 o seu primeiro teledisco, realizado por Meiret Avis. Apesar dos resultados discretos foi o primeiro single dos U2 a surgir em algumas tabelas de vendas. Com o tempo esta canção tornou-se num clássico maior da sua obra e é das que mais vezes têm surgido nos alinhamentos das sucessivas digressões da banda.

9. “Stay (Faraway So Close)” (1993)
As primeiras ideias surgiram em Berlim, durante as sessões de Achtung Baby e foi retomada quando, algum tempo depois, regressaram a estúdio para gravar Zooropa. O esboço inicial tinha ficado registado com o “Frank Sinatra” pelas afinidades que encontraram nas ideias em jogo, claramente distintas do habitual em canções pop/rock. A canção foi surgindo em vários momentos, sob vários pontos de vista e contribuições. Mas só ganhou forma definitiva quando o realizador Wim Wenders abordou a banda, pedindo-lhes música para o seu novo filme. E foram então as imagens e a narrativa de Faraway So Close que acabariam por dar forma à canção, assegurando assim a sua presença não apenas na banda sonora do filme mas também no alinhamento de Zooropa. Wim Wenders realizou o teledisco que, filmado a preto e branco, inclui cameos de atores do seu filme e usa ainda algumas imagens de As Asas do Desejo. O single, editado em novembro de 1993, incluiria uma imagem de Sinatra na capa e, no lado B, apresentava a versão de I’ve Got You Under My Skin, que tinham, anos antes, criado para o álbum Red Hot + Blue, todo ele feito de versões de canções de Cole Porter.

10. “With Or Without You” (1987)
A atração pelo desafio dominou vários momentos na obra dos U2. E o single que, inesperadamente, acabou por ser escolhido como cartão de visita para o álbum de 1987 The Joshua Tree, é um exemplo dessa pulsão feita de ousadia e, também, uma entre várias histórias de canções que não tiveram parto fácil e estiveram longe de chamar internamente a unanimidade das opiniões numa etapa inicial dos trabalhos. No principio este era um entre os vários esboços de ideias nascidas durante o curso da Unforgetable Fire Tour. Bono tinha composto uma primeira ideia de uma sequência de acordes, um arranjo começava a nascer, mas a ideia não chegou a um patamar de formas que cativasse a atenção de todos, acabando posta de lado pela equipa de produtores. Bono e o seu velho amigo Gavin Friday não desistiram e continuaram em busca de uma ideia mais clara para uma canção que ganharia muito com a chegada de novas possibilidades para as guitarras de The Edge e uma construção cénica na qual o trabalho de Brian Eno seria também determinante. Sem chamar ainda a unanimidade das opiniões, a canção ganhou forma sem contudo estar fadada a ser single. Mas acabou por ser a escolhida para ser o primeiro dos singles do novo álbum e por lhes dar o primeiro número um nos Estados Unidos.

Anúncios

3 Comments on Os 10 melhores singles dos U2

  1. I Still Never Find What I’m Looking For????

    Gostar

  2. o meu preferido. Sunday bl….Sunday.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: