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Nascido para contar

Texto: NUNO GALOPIM

A autobiografia de Bruce Springsteen é um relato vivo e frontal de um músico que aqui deixa claro o que o formou como artista mas também como cidadão e ser político.

Vivemos num tempo em que aos músicos parece ser cada vez mais importante o assegurar de uma voz sua no relato das narrativas das suas vidas (e obras). Sinais possíveis de mudanças de paradigma na forma de comunicar mais dada ao soundbite, à imagem e ao som, e, talvez, expressão de um desinvestimento, à escala global, de muitos espaços de imprensa escrita no que outrora era uma cobertura mais alargada da atividade musical, os músicos resolveram chamar a si, com maior frequência, o contar das suas histórias. Veículos das suas verdades e das mitologias que estas definem ou ficcionam, os músicos enquanto narradores têm-se revelado cativantes fontes de histórias contadas na primeira pessoa. Muitas vezes concedendo ali à sua voz espaços de revelação e exposição que até ali estavam por contar publicamente.

Têm sido várias as formas que têm encontrado para o fazer. Nick Cave ainda há pouco escolheu o cinema para, através de um documentário, apresentar um novo álbum e os factos da sua vida recente que o moldaram. Bob Dylan experimentou, num primeiro volume de crónicas, um exercício de prosa que o revelou tão bom escritor quanto personagem de um arco narrativo fascinante. Os U2, como antes o tinham feito os elementos dos Beatles, encontraram um modelo de grande entrevista “montada” numa sequência quase cinematográfica. Keith Richards deu às palavras escritas a verdade da sua voz sem filtro. John Taylor deu-nos um olhar muito pessoal sobre os dias de fama e de ressaca vividos nos Duran Duran. E Patti Smith assinou já dois volumes de memórias tão carregadas de factos como de emoções. Agora, é a vez de Bruce Springsteen. E dá-nos, em Born to Run, aquele que é, seguramente, um dos livros do ano!

Com uma linguagem simples, direta, Born to Run é um relato vibrante, cheio de pequenos detalhes e de grandes olhares, através do qual acompanhamos a evolução do músico que começou por reconhecer que não tinha particulares talentos enquanto voz em frente a um microfone, mas que se tornou num dos maiores singer songwriters da história da música popular e um performer de exceção que, ainda hoje, não olha para o relógio na hora de pensar quando deve sair do palco e dar o concerto por terminado. E descobrimos a formação gradual de uma consciência política que (felizmente) sabe dar voz ao que pensa e defende, em várias ocasiões deixando bem claras notas críticas às figuras no poder e aos candidatos aos cargos políticos. O ícone de classe trabalhadora made in New Jersey que as canções construíram tem, aqui, nestas páginas, um retrato nítido e frontal da consciência social e política que o define. De resto, das lendas e mitologias, só a uma não adere: a de se lhe chamar “The Boss”. Não é coisa que ele faça.

Arrumado cronologicamente, o conjunto de memórias passa por alguns episódios deliciosos, uns mais luminosos, outros mais doridos (como a ocasião em que lembra como um processo depressivo sobre ele se abateu e de como a procura de auxílio acabou por o levar a ultrapassar o problema). Mais adiante expõe o dilema que viveu quando, a meio da gravação de Born in the USA, sentiu que a música o encaminhava para um terreno mainstream a que não estava habituado e que, então, o deixou preocupado.

Mas, mesmo deixando claras as lutas (pessoais, políticas e profissionais), há em Born To Run uma mão cheia de histórias mais ligeiras, que fazem desta leitura uma entremeada afinal sempre surpreendente e saborosa de acontecimentos. Com uma escrita que não coloca filtro no entusiasmo recorda, por exemplo, o momento da descoberta visual dos Beatles. Já os tinha escutado na rádio. Já tinha comprado o single de My Bonnie, de Tom Sheridan (com uns fab four ainda iniciados a ser a sua banda de acompanhamento), que achara fraco… Mas foi ao ver a capa do mítico Meet the Beatles, que se fez luz. Olhou aquelas caras sobre um fundo negro. Era, como ele mesmo descreve, um monte Rushmore do rock’n’roll. E o que foi o que mais o impressionou? Algo que a rádio não lhe tinha mostrado: os cabelos!

“Born to Run”, autobiografia de Bruce Springsteen, acaba de ter edição entre nós, com tradução de Maria do Carmo Figueira e João Reis, pela Elsinore.

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