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O bizarro, segundo Tim Burton (mas em piloto automático)

Texto: NUNO GALOPIM

A adaptação ao cinema de “A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares” por Tim Burton lembra que o realizador sabe contar histórias. Mas parece ter perdido os temperos mais negros e melancólicos que outrora marcavam o seu cinema…

Convém escutar com atenção as histórias que os nossos avós nos contam. Até mesmo as que nos deleitavam quando éramos mais pequenos e, com o passar dos anos, começaram a parecer coisa da mais pura e impossível fantasia… Porque, um dia, podemos acabar por descobrir que tudo afinal era mesmo verdade. Esta é uma conclusão possível de A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares, adaptação por Tim Burton do romance homónimo que Ransom Riggs publicou em 2011 e que, mesmo não nos devolvendo o cinema do realizador ao patamar dos seus melhores feitos, tem pelo menos o mérito de nos colocar perante uma narrativa bem imaginativa (o que é mérito do escritor) numa expressão visual que, por muito que o cineasta não goste da ideia, carrega muitas das marcas habituais do imaginário burtoniano.

Esta é a história de um neto que cresceu a escutar as histórias do avô, que lhe recordava uma casa cheia de crianças peculiares que conhecera quando, nos tempos da II Guerra Mundial, passou por Gales. E peculiares como? Todas elas tinham uma característica invulgar. Havia uma pequena com uma força descomunal. Uma menina loira que, de tão leve, voava (a menos que usasse os pesados sapatos de chumbo que a faziam caminhar pelo chão). Um rapaz, sempre interessado no que cada um trazia vestido, tinha sonhos premonitórios que podia projetar, com a ajuda de uma lente, como se fosse cinema. E por aí adiante, todos eles vivendo num loop que repetia incessantemente as mesmas 24 horas, sob o zelo de Mrs. Peregrine… Um acontecimento grave levará o neto em busca da ilha e da casa… Para descobrir mais do que alguma vez poderia supor, mesmo sabendo de cor as velhas narrativas que lhe contara o avô.

Com um extenso leque de personagens – e um elenco cheio de nomes “grandes”, entre os quais os de Terence Stamp, Judi Dench, Samuel L. Jackson ou Eva Green, que se juntam ao protagonista Asa Butterfield – A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares socorre-se de uma pesada artilharia de efeitos digitais para criar o universo de fantasia que a história sugere. Há aqui contudo mais vitaminas de ação para alvo juvenil do que o sentido de arrepio que outra habitava filmes como Eduardo Mãos de Tesoura ou A Aventura do Cavaleiro sem Cabeça. O sentido de desenquadramento que o primeiro traduz ao abordar a diferença e a capacidade de sugerir a assombração mais profunda da ameaça do segundo não parecem estar sequer na carteira de objetivos deste novo filme. Tim Burton limita-se, como o tem feito com as adaptações de Alice no País das Maravilhas ou de Sombras na Escuridão (na origem uma série de TV), a aplicar o seu código de identidade visual a histórias de figuras bizarras nas quais o medo é trocado por suaves sugestões de tensão, mas numa ementa de baixas calorias.

O anterior Olhos Grandes tinha devolvido a um filme seu o tom perturbante que, na gestão muito sua de luzes e sombras, habitara os filmes que lhe deram um estatuto raro. A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares limita-se contudo a retomar, sem riscos, o ciclo de criações de entretenimento competente (e, de facto, o filme vê-se bem) que tem dominado a sua oferta em quase piloto-automático que se seguiu a Sweeney Todd. É certo que o piloto automático de Tim Burton é melhor do que o esforço concentrado de muitos outros criadores… E já fez bem melhor…

PS. Na música, a troca de Danny Elfman por um compositor a fazer uma banda sonora à la Elfman não acrescenta nada a esta ideia de piloto automático. E Florence and The Machine nos créditos finais não é (pelo menos para mim) cereja que se ponha sobre um bolo…

“A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares”
de Tim Burton
com: Eva Green, Asa Butterfield, Chris O’Dowd, Allison Janney, Rupert Everett, Terence Stamp, Ella Purnell, Judi Dench e Samuel L. Jackson

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1 Comment on O bizarro, segundo Tim Burton (mas em piloto automático)

  1. Olá Nuno, gostei da sua análise.
    Eu vi recentemente este A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares: 4*

    Este é um filme bastante bom e recomendo, pois está repleto de magia ao estilo de Tim Burton.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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