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“Come”: quando Prince encenou a sua despedida

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1994, foi o primeiro álbum lançado num período de degradação do relacionamento com a editora. O burburinho não deu espaço à música que aqui se revelava.

O relativo insucesso do álbum com título impronunciável (a que se convencionou chamar Love Symbol) foi uma das primeiras pedras no sapato num processo de degradação da relação de Prince com a sua editora que daria mais cabeçalhos à imprensa musical do que as notícias dos discos que foram saindo por aqueles tempos. Não conseguindo chegar a um quinto dos resultados de Diamonds and Pearls, o álbum de 1992 foi o primeiro a surgir após uma renegociação do acordo entre o músico e a editora. E, quando, em 1993, os executivos recusam editar Goldnigga (álbum que Prince queria editar como o primeiro da New Power Generation), um segundo episódio de crise ganha forma. Por esta altura há uma escalada de descontentamento em torno dos resultados da Pailsey Park, que não consegue de facto nem impor as novas vozes que ia revelando nem as estrelas de outros tempos que pretendia recuperar (acabando o processo com um ponto final na etiqueta, criando depois Prince, e sob total independência, a nova NPG Records).

Uma das peças mais indesejadas – para o músico – em todo este período terá certamente sido a antologia The Hits / The B Sides, que a Warner editou em 1993 com objetivos de recuperar alguns dos investimentos em alguns projetos bem sucedidos. É então que Prince surge com a ideia de criar um novo nome para si. E a ideia, que por um lado abria possibilidades para um pseudónimo (e tudo o que isso poderia comportar) na verdade acabou por resultar em mais uma tempestade de notícias em volta do seu nome, fosse ele o mesmo símbolo impronunciável usado no álbum de 1992 – e que seria em vários lugares grafado como o(-> ou a sucessão de variações, de The Artist Formerly Known as Prince até The Artist…. Isto sem contar com as paródias que então foram surgindo na imprensa. Houve quem lhe chamasse The Artist People Formerly People Cared For ou até Symbollina… Não foi a melhor das jogadas. Mesmo tendo a raiz da ideia uma vontade de fazer um braço de ferro com a editora.

Contratualmente Prince tinha ainda obrigações a cumprir. Mas fez saber que, daí em diante, não daria à editora senão peças gravadas do seu arquivo e não material novo. A edição, em inícios de 1994, do single The Most Beautiful Girl In The World, pela sua própria NPG Records, com vendas de quase um milhão de unidades (e atingindo o seu primeiro número um no Reino Unido) deu-lhe argumentos em seu favor. Afinal ainda era capaz de criar grandes êxitos… E é então que faz uma proposta: a de a editora lançar dois discos seus no mesmo dia. Um como Prince. O outro como o(->, podendo o confronto dizer, depois, qual dos “artistas” seria o mais procurado pelo público.

A editora não quis mais do que um disco de cada vez. E optou por pegar, primeiro, em Come. O disco tinha na sua forma original um conjunto de canções registadas nas sessões de Love Symbol, revelando as peças mais funk claras afinidades com as desse outro disco. A editora solicitou algumas mudanças. Uma delas a inclusão do single de sucesso que lançara pela NPG Records algumas semanas antes… Outra delas foi a de uma maior intervenção no tema-título, que acabaria transformado numa suite funk de 11 minutos na qual se recuperava a carga mais explícita de criações de inícios dos anos 80. Prince manteve The Most Beautiful Girl in The World fora do alinhamento, mas juntou alguns elementos criados nas sessões de The Gold Experience (que originalmente queria editado no mesmo dia).

Apesar de ter conhecido uma vida mais discreta do que a de qualquer dos títulos anteriores de Prince – e de ter levado ao formato de single os temas Letitgo e Space, qualquer deles a milhas do potencial dos hits de outrora – Come é um disco que merece ser (re)descoberto. Se o colossal Come é um dos seus mais cativantes excercícios funk, já Space revela uma tentativa menor de flirt com climas da pop de meados dos noventas (animada por assimilações do hip hop) e Loose! traduz uma incursão inesperada por domínios hardcore techno. Os momentos maiores do alinhamento cabem contudo aos mais pessoais e delicados Papa e Solo, entre os quais Prince experimenta um registo de contador de histórias apoiado não só na sua interpretação vocal mas também numa cenografia menos habitual no seu registo mas capaz de sublinhar os picos emocionais mais evidentes do disco.

Na capa a mensagem era clara. Prince escrevia o seu nome entre as datas de nascimento e de suposta morte de si mesmo sob essa designação. Prince 1958-1993… Mal imaginando que, alguns anos depois, acabaria por ressuscitar.

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