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Os dez melhores filmes de Tim Burton

Seleção e textos de NUNO GALOPIM

No momento em que chega às salas de cinema um novo filme de Tim Burton, lembramos aqui os seus dez maiores feitos enquanto realizador. E assim, aos poucos, vamos aqui recordando os seus filmes.

1.“Eduardo Mãos de Tesoura” (1990)
Se fosse preciso escolher um filme que traduzisse a essência do cinema “Burtoniano” (por muito que o realizador não goste nem da ideia nem da expressão), ele seria este título que, depois de primeiras experiências tateando ideias (entre as curtas-metragens e as duas primeiras longas Pee Wee’s Big Adventure e Beetlejuice) e de um caso de visibilidade maior conquistado em Batman, consagra aqui não apenas uma identidade autoral como abre um espaço de colaboração recorrente entre o realizador e o ator Johnny Depp, que seria depois rosto (e voz) com protagonismo em diversos outros momentos da sua obra. A história revela alguns dos ingredientes mais caros às ficções de Tim Burton: um herói bizarro, incompreendido e isolado e uma sociedade em seu redor que reage pelo medo e suspeita perante o desconhecendo, mostrando na verdade pouca vontade em compreender o que se passa. O “estranho” Eduardo, que foi deixado incompleto pelo seu criador é assim o herói-paradigma de uma obra que tem aqui também uma expressão muito madura de um sentido de expressão visual e que conhece na música de Danny Elfman (aqui numa das suas melhores bandas sonoras) o complemento certo.

2. “Ed Wood” (1994)
Poucos biopics têm o poder de resgatar à história um talento que o seu tempo não soube entender… Não vamos aqui entrar no debate sobre o cinema de Ed Wood, se era bom ou mau ou assim assim. Mas a verdade é que, no terreno do cinema fantástico feito com orçamento em dieta avançada de recursos mas sem travões no plano dos sonhos e das ideias, os seus títulos tornaram-se referências. E podemos agradecer ao filme (brilhante) de Tim Burton o facto de ter reaberto janelas sobre o cinema deste raro realizador que, aqui interpretado por Johnny Depp, encontrou neste filme não um retrato de precisão histórica realista, mas um olhar capaz de, com respeito pela matéria prima humana e artística em causa, evocar um tempo, um espaço e uma figura, aproximando-nos inclusivamente do seu processo criativo e das linguagens do seu cinema. Com fotografia a preto e branco, música de Howard Shore (no primeiro dos três raros episódios em que a banda sonora não coube a Danny Elfman), notável art direction e uma interpretação de excelência de Martin Landau como Bela Lugosi (que lhe valeu um Oscar), Ed Wood deu vida ao legado do biografado, ao mesmo tempo que deixava claro como a sua obra habitava o código genético daquele que, agora, assim o homenageava.

3. “Vincent” (1982)
Pode uma curta metragem, anterior à estreia do seu autor nas “longas”, deixar claro todo um projeto visual e temático pelo qual a sua obra depois seguirá alguns dos seus passos mais significativos? Pode sim. E Vincent, a quinta curta-metragem de Tim Burton, é um claro manifesto artístico no qual se lançam muitas das ideias a explorar futuratente, não apenas na alma das narrativas, mas até mesmo nas imagens, habitando aqui uma clara expressão já muito bem definida de um universo visual que teria expressão em muitos dos seus filmes posteriores (e não apenas os de animação stop motion). Vincent é a história de um rapazinho bizarro. Tão bizarro quantos outros que Tim Burton imaginou ou nos seus filmes ou nos pequenos contos ilustrados que entre nós tiveram edição como A Morte Melancólica do Rapaz Ostra e Outras Histórias. O pequeno Vincent sonha ser Vincent Price (que por acaso é a voz que narra o filme) e, em seis minutos, dá-nos uma espantosa introdução ao universo mágico e assombrado de Tim Burton. É, sem dúvida, um dos seus melhores filmes.

4. “Marte Ataca!” (1996)
Uma série de ‘trading cards’ dos anos 50 esteve na base de um dos mais desconcertantes (e interessantes) entre os filmes de ficção científica dos anos 90. Estreado a pouca distância de O Dia da Independência de Roland Emmerich, Marte Ataca não podia ser mais diferente do que essa celebração com músculo da aventura, efeitos visuais de primeira linha e um discurso patriota em regime clássico. Retomando um “medo” que tem raiz na Guerra dos Mundos de H.G. Wells, Marte Ataca é ao mesmo tempo uma homenagem às linguagens sci-fi dos anos 50 (dos ‘trading cards’ que definem inclusivamente a imagem dos marcianos e algumas situações da trama aos filmes de baixo orçamento que claramente são citados) e uma paródia não apenas às narrativas de hegemonia humana mas também um absoluto deleite visual em clima pop. Com um elenco onde surgem nomes como os de Jack Nicholson, Glenn Close, Anette Benning, Sarah Jessica Parker ou Pierce Brosnan, a cereja sobre o bolo surge numa participação de Tom Jones que reforça as contribuições de uma banda sonora notável.

5. “Batman” (1989)
A vida do super-herói da capa negra não gozava da mesma popularidade atual nem da que o fizera um ícone outrora quando, em finais dos anos 80, Tim Burton o levou novamente ao cinema. A história de Batman tinha, além dos comics, passado já por outras dimensões, entre as quais o grande ecrã, ora em dois serials dos anos 40, ora num filme (então algo esquecido) de 1966. Com uma mão-cheia de argumentos “star power” – do elenco com Jack Nicholson, Kim Basinger e Michael Keaton às canções inéditas de Prince expressamente criadas para o filme – a visão de Tim Burton seguiu pistas do imaginário dos comics, materializando-as numa Gotham imponente e sombria, com tempero “gótico” e banda sonora orquestral de Danny Elfman a garantir que, também ali, a composição seria assombrada. O filme devolveu Batman à vida, assinando o próprio Tim Burton uma sequela – Batman Returns – pouco depois, dessa vez juntando nomes como os de Michelle Pfeifer, Christopher Walken e Danny DeVito ao elenco. Depois, o homem da capa negra ganhou asas e voou… Mas só Christopher Nolan o soube agarrar.

6. “A Noiva Cadáver” (2005)
Depois de ter produzido dois filmes de animação stop-motionO Estranho Mundo de Jack (1993) e James e o Pêssego Gigante (1996), ambos realizados por Henry Selick – Tim Burton chamou a si a direção da sua terceira experiência neste terreno. Sem repetir o patamar de excelência de O Estranho Mundo de Jack, experiência maior a que podíamos chamar uma ópera rock assombrada, juntando as imagética de Burton às canções de Danny Elfman, A Noiva Cadáver tenta contudo retomar caminhos aí sugeridos e acabou por dar a Tim Burton um dos seus filmes mais capazes de assegurar um efeito de transversalidade entre públicos jogando, melhor do que nunca, com condimentos tão aparentemente contraditórios como o humor ou o horror. Marcas características do cinema de Tim Burton passam aqui não apenas pelas temáticas e imagens, como pela música (de Danny Elfman, e que inclui algumas canções) e pelas vozes de alguns atores habitualmente associados aos seus filmes, entre os quais Johnny Depp e Helena Bonham Carter.

7. “Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street” (2007)
A figura ficcional de Sweeney Todd surgiu pela primeira vez num folhetim publicado nos anos 40 do século XIX e rapidamente ficou inscrito no imaginário da Inglaterra vitoriana como um dos maiores mitos urbanos do seu tempo. As histórias do barbeiro que assassina os clientes, mergulhando-os depois por um alçapão pelo qual os corpos caem para um piso inferior onde são depois desfeitos, sendo a sua carne usada na confeção de empadas que a mulher do barbeiro vende depois na sua loja. Esta figura inspirou inúmeros espetáculos de teatro, dança e até musicais, entre os quais Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street. A Musical Thriller (1979), com canções de Stephen Sondheim, o mesmo que está na base da adaptação ao cinema assinada por Tim Burton. Desde os tempos do mudo havia já uma história de representações desta personagem no grande ecrã. Mas, com um elenco de primeira linha, as canções de Sondheim e uma art direction e uma direção de fotografia mais assombradas do que nunca, a versão de Burton ganhou visibilidade maior e valeu-lhe prémios, inclusivamente nos Globos de Ouro e Óscares.

8. “O Grande Peixe” (2003)
O projeto que tomou a atenção de Tim Burton após a sua incursão (menor) pelo universo imaginado por Pierre Boulle em O Planeta dos Macacos (um dos mais interessantes exemplos da literatura sci-fi francesa na verdade mais conhecido pelas suas muitas descendências no cinema), O Grande Peixe nasce de uma adaptação do romance homónimo que Daniel Wallace publicara em 1998 e cujos direitos para o grande ecrã haviam sido adquiridos pela Columbia Pictures, tendo originalmente Steven Spielberg apontado para realizar. O filme acabou nas mãos de Tim Burton, junto de quem a história teve ressonâncias particularmente pessoais já que a narrativa acompanha o processo de reaproximação de um filho com um pai para quem a morte está a chegar. O elenco refletia claramente já uma relação do cinema de Tim Burton com expectativas maiores junto do grande público, envolvendo atores como Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Helena Bonham Carter, Marion Cotillard, Steve Buscemi e Danny DeVito.

9. “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (1999)
Baseado no conto homónimo de Washington Irving, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (Sleepy Hollow no original), este filme representou uma das mais evidentes incursões de Tim Burton pelos universos (narrativos e plásticos) do cinema de terror, traduzindo ainda uma das suas mais claras manifestações de flirt com o imaginário “gótico”… A história transporta-nos ao interior do estado de Nova Iorque no século XVIII, no momento em que a um investigador pouco convencional nos seus métodos é entregue o caso de uma série de assassinatos bizarros que ali estavam a ocorrer. O elenco reafirmou na época o relacionamento de Tim Burton com Johnny Depp, mas envolve também, com presença destacada, as figuras de Christina Ricci, Christopher Walken ou Miranda Richardson, retoma um breve contacto com Martin Landau e conta ainda com o lendário Christopher Lee.

10. “Charlie e a Fábrica de Chocolate” (2005)
Segunda adaptação ao cinema de um conto moral de Roald Dahl, Charlie e a Fábrica de Chocolate representa uma das criações visualmente mais exuberantes de toda a filmografia de Tim Burton. Distante do tom sombrio de alguns dos seus filmes dos anos 90, esta visão é garrida e intensa, não deixando contudo de tomar como protagonistas figuras desenquadradas, marginalizadas e solitárias. A figura central da narrativa, interpretada por Johnny Depp, é tão excessiva quanto as visões que a art direction concebeu para cada sala da sua fábrica de chocolates… Há também açúcar em quantidade nas canções que Danny Elfman compôs para a banda sonora e que fazem deste mais um filme com forte ligação com o universo do cinema musical.

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