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Foi preciso lá estar

Texto: DANIEL BARRADAS, em Berlim

Erlend Oye, Bon Iver, Damien Rice, The Staves e os irmãos Dessner (dos The National) foram alguns entre os muitos que fizeram o “Endless Nameless”, um festival diferente que decorreu este fim de semana em Berlim.

Teve lugar este fim de semana em Berlim o “Endless Nameless”, uma espécie de festival em que o conhecido e boémio hotel Michelberger em Berlim se juntou com a promotora Stargaze (responsáveis pelo tributo a Bowie dos BBC Proms deste ano), Vincent Moon (dos famosos take-away shows da Blogothéque) e alguns conhecidos músicos, como Aaron e Bryce Dessner dos The National ou Justin Vernon dos Bon Iver.

Durante uma semana mais de 80 músicos das mais diversas proveniências hospedaram-se no hotel para criar música e trocar experiências e preparar dois dias de banquete musical, servido na Funkhaus, os antigos estúdios de gravação da rádio da antiga Alemanha de leste.

A minha chegada ao festival foi feita de barco, uma solução encontrada pela organização para facilitar o transporte a muita gente, já que a Funkhaus fica em Berlin leste profunda, numa zona muito mal servida por transportes públicos.

Já no barco, o encontro com o restante público assegurava que iria ser um evento diferente. É certo que havia uma elevada percentagem de jovens hipsters, mas o que unia toda a gente era um óbvio interesse por música. Um evento caro, sem bandas definidas e com apenas os nomes de alguns artistas a emprestar prestígio, limita logo a disposição necessária para embarcar na aventura.

E de facto, ao longo do fim de semana, foi notável o comportamento do público. Paciente com as falhas da organização, disposto a seguir as ordens frequentemente ditadas por megafones (necessárias para gerir o constante entra e sai dos preciosos estúdios) e a manter o mais respeitoso silêncio durante as actuações.

O festival distribuiu-se por um palco central de entrada livre num grande armazém e pelos estúdios da Funkhaus. Nas grandes salas 1 e 2 havia sessões marcadas. Um símbolo da pulseira atribuída à entrada garantia o acesso a quatro sessões nesses espaços onde tiveram lugar os concertos mais marcantes. Para os restantes pequenos estúdios fazia-se uma fila única e entrava-se ao acaso em sessões mais íntimas com artistas.

A grande excitação (e frustração) era não saber ao que se iria assistir. Não havia programa, apenas a certeza de que em todas as salas qualquer coisa de potencialmente extraordinário estava a acontecer. Corriam boatos (O Justin Verner está a fazer sessões no estúdio 5! As The Staves estão a cantar versões da Kate Bush!) mas era impossível segui-los e cada pessoa teve a sua versão única deste festival. Daí que faça mais sentido talvez chamar-lhe evento.

A minha experiência começou no Sábado. Tinha logo de início uma sessão marcada para a grande sala 1, um magnífico estúdio coberto a madeira, com um gigantesco orgão. O público reuniu-se em frente à escadaria de acesso e enquanto esperávamos fomos brindados com um coro formado for várias das vocalista femininas, movendo-se entre nós, harmonizando as vozes e arrastando pregos pelo chão deixando um suave e brilhante rasto metálico. Depois, já dentro da sala brindar-nos-iam com um extraordinário concerto acapella, interpretando peças clássicas ou canções do repertório de algumas das artistas. O público estava coberto de sorrisos e rebentava em aplausos estrondosos a cada pausa. Era o primeiro gostinho da magia que cada uma das sessões iria ter.

Segui para o palco principal onde tive a oportunidade de ver a Jenn Wasner (Flock of dimes/ Wye Oak) e descobrir o extraordinário duo indonésio Senyawa.

Por esta altura comecei a suspeitar que estava a perder qualquer coisa de importante nos estúdios mas a fila enorme para neles entrar parecia proibitiva. Como estava com amigos pudemos ir revezando-nos na fila enquanto alguns iam buscar comida ou fazer as suas necessidades, mas acabaríamos por perceber mais tarde que este não era um evento onde perder tempo nessas actividades. O que interessava era conseguir entrada nas salas ou nos estúdios até às nove da noite (hora a que encerravam) porque o palco principal não era tão interessante e o som era bem pior. No sábado, alguns erros da organização causaram filas bastante demoradas mas felizmente no domingo já tinham sido corrigidos e passava-se menos tempo nelas.

No estúdio 3 vi um músico cujo nome desconheço por completo (era irlandês) fazer uma sessão de comédia musical com um humor bem particular (que me agradou pessoalmente, mas não a toda a gente).
De regresso à sala 1 para a minha hora marcada, esperava-nos uma sessão acústica de cantores masculinos com as suas guitarras. Sem programa definido o objectivo era cada cantor surpreender os outros, cantando o que lhe parecesse mais apropriado quando chegasse a sua vez. Quem entrou em cena foi, em primeiro lugar, Erlend Øye (dos Kings of convenience). Também cantou Justin Vernon (Bon Iver), vários outros, todos excelentes mas cujo nome desconheço ou não reconheci, mas os momentos altos pertenceram ao francês Ohm que cantou a Barcarola de Offenbach numa versão particularmente tocante, e a Damien Rice que, devido ao francês, e ao grupo masculino, se lembrou de tocar uma canção sua sobre os homens e os seus pénis, metade em inglês, metade em francês. A festa criada terminaria depois em italiano, com Erlend Øye a convidar todos os participantes a juntarem-se a ele. O resultado foi uma verdadeira apoteose e um público em êxtase.

O final da noite de Sábado no palco principal estava reservado às electrónicas e ao rap. Uma grande jam session que se arrastou por algumas horas teve alguns momentos brilhantes mas acabaria por se revelar um erro de programação já que o grande parte do público acabou por preferir ir mais cedo para casa e preparar-se para o embate do segundo dia.

O meu Domingo começou mais uma vez na Sala 1 com um arrasador concerto de Shara Nova (My Brightest Diamond) que começou com a interpretação de uma peça clássica acompanhada a viola da gamba e violoncelo, passou por uma fabulosa versão de Fever acompanhada pelo saxofonista de Bon Iver e terminou com um apelo ao punk em cada membro do público, pôs toda a gente a cantar e a invadir o palco, incluindo a banda etnometal/screamer Senyawa que assegurou uma explosão de energia. Foi daqueles momentos que não se explicam, era preciso estar lá. De loucos.

Quando pensava que nada conseguiria superar este concerto, consigo assistir a duas sessões seguidas na sala dois onde estava instalada a orquestra Stargaze com uma rotação constante de convidados a cantar. Na primeira sessão, para além das extraordinárias Lisa Hannigan e Jenn Wasner, o ponto alto passou por uma versão de Always crashing in the same car de David Bowie interpretado por um contratenor acompanhado por uma harpa. Na segunda, para além de surpreendentes versões orquestrais de músicas da banda electrónica Boards of Canada, de belíssimas canções em conjunto com Poliça, fomos brindados com a inusitada junção com o rapper Kill the Vultures. Acreditem que depois de ouvirem rap acompanhado por uma orquestra, tudo o resto parece baço.

No regresso à sala 1, um dos mais apetecidos momentos. Uma sala apinhada para receber as três cantoras de The Staves que cantaram acapella várias canções, incluido Cloudbusting de Kate Bush com a participação de Jenn Wasner. Cederiam depois lugar a Bon Iver, (a banda finalmente junta, já que os seus elementos se tinham repartido pelas mais diversas colaborações durante o fim de semana), para um épico momento com dois coros, um clássico e outro constituído por várias das cantoras presentes no festival.

A encerrar a noite, no palco principal, voltaria a orquestra Stargaze, a repetir um “best of” das diversas sessões que tinham tido ao longo do dia, mas adicionando duas versões de canções de Bowie: Let’s dance e, bem anunciado como o hino nacional de Berlin, Heroes. A versão cantada em alemão pelo islandês Ragnar Kjartansson levou, sem surpresa, o público à histeria colectiva e bem poderia ter sido o verdadeiro final do evento porque tudo o que se lhe seguiu não teve hipótese.

Os irmãos Dessner dos The National apresentaram algumas canções novas e conseguiram entediar o público durante quase uma hora, só salvando a situação chamando de novo ao palco Kjartansson para cantar Sorrow.

Por esta altura, previa-se que Bon Iver se apresentassem a toda a gente (na sala 1 só cabia menos de um terço do público do festival) mas este que vos escreve já estava demasiado cansado e preferiu rumar a casa e dormir.

Como balanço, digo-vos que este foi uma das experiências musicais mais intensas e mágicas que já vivi. A qualidade do som nos extraordinários estúdios da Funkhaus e a magia que passou entre músicos e entre músicos e público criou momentos e memórias que guardarei para sempre. Espera-se que para o ano o evento se repita, talvez mais afinado na logística que falhou ocasionalmente mas que não impediu os extraordinários concertos de brilharem. Um grande destaque para toda a equipa técnica que fez um trabalho invisível mas, precisamente por isso, impecável.

Todos os concertos foram filmados e gravados e espera-se por isso que sejam disponibilizados brevemente, já que mesmo quem lá esteve não viu nem um terço do que se passou.

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