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Os 3 melhores filmes do terceiro trimestre de 2016

Texto: NUNO GALOPIM

Dos três melhores filmes que vi nestes últimos três meses dois tiveram estreia em sala em Portugal e um chegou até nós em suportes de home video e via VOD… Aqui ficam três títulos que ajudam a fazer a história de 2016.

"Evolution"

“Evolução”
de Lucille Lucile Hadžihalilović
Com: Max Brebant, Roxane Duran, Julie-Marie Parmentier
Distribuição: Alambique

Há algo de profundamente perturbante logo nas primeiras sequências do filme, mesmo perante a placidez do mar (sobretudo nas imagens subaquáticas) que envolve a paisagem que serve de cenário a tudo o que se segue. E não é pela estranha descoberta que o pequeno protagonista acaba de fazer e que comunica a uma mãe que, imperturbável, lhe serve a refeição e indica que é hora de dormir… Com o evoluir das imagens apercebemo-nos que estamos numa ilha vulcânica (a cor das rochas e das areias indica-o), algures num futuro indeterminado, e com apenas mulheres (quase todas elas aparentemente enfermeiras e com sobrancelhas rapadas, o que adensa a carga inquietante do seu retrato) e jovens rapazes por habitantes. Não há meninas. Não há homens. E uma atmosfera de tensão não nos abandona, mesmo perante os aparentes gestos de zelo maternal das mulheres pelos filhos.

Com um tom de mistério sempre inquieto e dominado por uma sensação permanente de estranheza inexplicada, Evolução, de Lucile Hadžihalilović, lembra o tipo de experiência mais poética de ficção científica que, recentemente, vimos em Debaixo da Pele, de Jonathan Glazer. Também nesse filme havia um pensamento sobre o apelo sugestivo da imagem que perturba (embora surgissem depois ali confrontos diretos com o sentido realista das sequências entre as comunidades da região). Aqui não se trata da dúvida perante as motivações ou atos realizados por uma alienígena (que era então protagonizada por Scarlett Johansson). Aqui há uma ilha onde, aos poucos, percebemos que os jovens que nadam entre as ondas e brincam nas rochas com estrelas do mar, são instrumentos num processo clínico que os faz serem barrigas de aluguer para os fetos que neles são implantados… E com futuro pouco risonho para todos eles.

O protagonista tem contudo algo de diferente de tantos outros que, como ele, acabam nas mãos daquelas enfermeiras e daquele hospital húmido e desconfortável. Sente que algo está ali errado. E, com um lápis, desenha num caderno coisas que ali ninguém conhece. Carros e objetos do dia a dia dos nossos tempos, mas que ali, naquela ilha, ou são coisas do passado ou de uma geografia distante. Afinal não saberemos nunca onde estamos nem quando tudo se passa.

Nesse sentido, ao definir uma realidade que apanhamos a meio, sem coordenadas de tempo nem de lugar, nem mesmo a explicação dos porquês (um pouco como o faz Cormac McCarthy em A Estrada, na versão livro, já que a adaptação a cinema foi um desastre), Evolução é uma experiência de ficção científica visualmente poderosa e capaz de, mesmo sob ténues sugestões narrativas, conseguir conduzir-nos entre aquele mundo que vamos observando e, aos poucos, aprendendo a conhecer. Na idade do primado da pirotecnia dos efeitos especiais, da velocidade dos gestos e dos plots maniqueístas na construção de jogos entre o bem e do mal, Evolução é um magnífico poema visual (com notável direção de fotografia) que usa as linguagens da ficção científica e do terror para nos colocar perante a sugestão de uma narrativa que, mesmo não parecendo evidente, afinal emerge à nossa frente, no ecrã.

“Se as Montanhas se Afastam”
de Jia Zhang-ke
Com: Zhao Tao, Zhang Yi, Liang Jingdong e Dong Zijian
Distribuição: Midas Filmes

Há um impressionante simbolismo na sequência de abertura de Se as Montanhas se Afastam que, de forma mais sugestiva do que descritiva, nos coloca no contexto. Go West, o original dos Village People, escutado aqui na versão dos Pet Shop Boys, serve de banda sonora a passos de dança de um grupo de jovens (entre os quais os protagonistas do filme), algures no fim do ano de 1999. A memória do teledisco que apresentara essa mesma canção alguns antes ecoa ali, lembrando como entre as imagens que serviam então os Pet Shop Boys havia uma coexistência de iconografia americana e soviética, cuja ressonância ecoa numa China que, comunista na sua identidade, abria frestas a relações empresariais mais próximas dos modelos do capitalismo. E as figuras que habitam a narrativa de Se as Montanhas se Afastam traduzem, precisamente, esse estado das coisas.

O filme propõe-nos uma história que cruza três tempos. Em 1999 apresenta as personagens, um trio com uma mulher desejada por um jovem a subir na vida (e que acabou de comprar uma mina quase a tostões) e também por um outro, que trabalha como mineiro. Escolhe o primeiro, com quem casa, dele já divorciada quando, em 2014 (a segunda época) a encontramos no momento em que perde o pai e chama à cidade de província onde ainda vive – embora com outras condições – o filho, cuja custódia ficara por conta do pai, que prosperara nos negócios e se mudara para Xangai e passara a ser tratado como Peter. Dollar (assim se chama o filho) é a figura central da terceira etapa, passada na Austrália, num futuro próximo, em 2025.

Apesar de contrariar o tom mais factual que habitava os lugares e figuras de filmes seus mais recentes como o documentário Histórias de Xangai – Quem Dera Saber (2010) ou a ficção (baseada em quatro histórias reais) China – Um Toque de Pecado (2013), o novo filme de Jia Zhang-ke não deixa de traduzir um olhar crítico sobre os rumos que está a tomar a sociedade chinesa, retomando contudo opções narrativas que revelam planos de fuga ao realismo que caracterizara algumas obras suas antigas. Não necessariamente através da alegoria, como o fizera no soberbo O Mundo (2004). Mas usando as armas da ficção em torno de um triângulo de personagens (e das consequências das suas ações) como um microcosmos que acaba por absorver os ecos do ambiente em seu redor. A etapa lançada no futuro alarga mais ainda as possibilidades narrativas, mostrando o realizador estar mais interessado no destino das personagens do que nas marcas “futuristas” que a ficção científica certamente exploraria com outro afinco. Há um tom (talvez propositadamente) desconcertante na evolução das linhas de vida das figuras em cena… Mas a cena final (e não vale contar do que se trata, porque é na sala escura que se deve revelar) lembra-nos que, o lugar para o sonho nunca desaparece. Mesmo que nada se concretize como antes se esperou.

“Midnight Special”
de Jeff Nichols
com: Michael Shannon, Joel Edgerton, Kirsten Dunst, Adam Driver, Sam Shepard
Edição em DVD e Blu-ray pela Warner

E se, depois de histórias enraizadas entre comportamentos de personagens da América profunda, ao quarto filme Jeff Nichols olhasse para outros horizontes e experimentasse, pela primeira vez, uma narrativa numa dimensão diametralmente oposta à das realidades, medos e assombrações de figuras reais com que até aqui estava a construir uma das mais sólidas obras do cinema americano contemporâneo? Foi o que fez em Midnight Special, filme que tem a alma das memórias sci-fi spielberguianas de uns Encontros Imediatos de Terceiro Grau e E.T. – O Extraterrestre, junta uma evidente contaminação X-Files, mas não perde as marcas de identidade do seu cinema. Midnight Special é tudo isto. E é também um belíssimo filme. Pena que, entre a dinâmica bizarra de um mercado de distribuição nacional que muitas vezes não parece ter explicação, tenha ficado de fora do circuito das salas e surja agora, diretamemente, no circuito de home video (em suportes de DVD e Blu-ray e via VOD).

A primeira qualidade de Midnight Special é a forma como Jeff Nichols – autor de Histórias de Caçadeira (2007), Procurem Abrigo (2011) e Fuga (2012) – não cede à vontade do espectador em querer logo saber o que se passa no ecrã. E durante largos minutos somos confrontados com ações e personagens, sem saber bem o que representam face ao jovem protagonista alegadamente raptado. Sabe-se que é o seu pai natural quem o tem em mãos e que, pelos vistos, o rapaz é dotado de raros e estranhos poderes, tanto que para o seu conforto (ou será defesa de quem o tem a seu lado? – não faço spoiler), ele está obrigado a andar de olhos vendados por uns óculos de natação e dorme com grandes auscultadores nos ouvidos. E, nota adicional, parece que só sai de casa durante a noite (ou, pelo menos, parece ter de evitar a luz do dia).

No meio de tudo isto há uma estranha seita religiosa que parece ter lançado o aviso sobre o alegado rapto. E em cena entra ainda o FBI e a NSA, porque valores de segurança de dados secretos surgiram entre os sermões dessa seita. Confusos? Sim, também fiquei. Assim como dei por mim agarrado ao ecrã. Num livro seria um verdadeiro page turner

Jeff Nichols convoca ecos de uma relação com o desconhecido que têm paradigma nos filmes clássicos de ficção científica que Spielberg realizou precisamente em 1977 e 1982. E junta através da personagem interpretada por Adam Driver uma dimensão à la Mulder e Scully, num domínio da investigação oficial que vive duplamente entre a necessidade de apurar factos e uma curiosidade pessoal sobre aqueles que tem na mira do seu estudo. O que faz de Midnight Special um caso “autoral” no universo do cinema de ficção científica atual é a forma como Jeff Nichols ali colocas as suas marcas pessoais. Que passam pelo reencontro do seu cinema com Michael Shannon (o pai do jovem que está no centro da trama), a forma de projetar (uma vez mais) toda a narrativa na América rural do nosso tempo e a estranheza com que caracteriza a seita que desempenha um papel importante no estabelecimento das muitas dúvidas com que o espectador é confrontado no lançamento da narrativa. O resto? Nada como ver o filme. E ter boas surpresas.

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