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A música como reação contra si mesma

Texto: ANDRÉ LOPES

“22, A Million” reflete sobre o descontentamento que a fama trouxe a Justin Vernon, bem como a sua incapacidade em lidar com esse estatuto, factos que assim se tornaram os principais catalisadores para a obra de Bon Iver.

A trajetória artística de Bon Iver deixa-se traçar de acordo com uma sequência de acontecimentos que mapearam o sucesso inesperado de forma precisa. Tanto For Emma, Forever Ago (2007) e Bon Iver, Bon Iver (2011) vincam uma personalidade criativa dotada de um sentido melódico suficientemente apelativo para chegar ao público em geral. A popularidade do projeto que inicialmente expressava, pela folk acústica, a melancolia e as angústias de um músico isolado algures no Wisconsin, culminou em 2012 com uma digressão lotada que contou com três concertos em palcos portugueses. Ao vivo torna-se evidente: Justin Vernon não encara a popularidade de forma fácil, o constrangimento é flagrante e as opiniões pouco favoráveis do músico sobre a industria discográfica atual são publicas. 22, A Million ajuda-nos a compreender, pelo som, a saída encontrada para uma depressão que quase ditou o final dos Bon Iver.

A abrir uma coleção de canções com títulos crípticos, 22 (OVER S∞∞N) guia-se por um sample de voz processada que repete o mantra “It will all be over soon” enquanto se deixa cercar por uma produção esparsa, na qual a música de Bon Iver volta a respirar expansivamente após alguns momentos mais preenchidos no álbum anterior. É a vertigem com o fim absoluto que motiva muita da escrita poética em 22, A Million. O som acompanha: num alinhamento onde as cordas acústicas surgem numa dimensão diminuta, a exploração de texturas eletrónicas, ritmos mecânicos e o já habitual processamento da voz de Justin Vernon são os elementos predominantes de uma obra que obrigatoriamente alienará alguns dos admiradores da banda que nela encontravam uma fonte de conforto, por via da sonoridade maioritariamente acústica dos discos anteriores. A acentuar com orgulho um qualquer desfasamento com as convenções pop da escrita de canções, muitas das canções do álbum são quase esqueléticas em termos de elementos sónicos, surgindo ainda desprovidas de refrães.

Armadilhada com um início ao piano, 33 “GOD” inclui devaneios quase industriais na sua segunda metade. 29 #Strafford APTS faz-nos recuar ao terreno confortável dos discos anteriores por via do som de guitarra acústica e piano que aqui surge – porque seria demasiado fácil – limitadas por uma produção agressiva e que explora comedidamente o território da baixa-fidelidade. Menos dramática comparativamente com os resultados que ouvimos em Love Remains (2010) de How to Dress Well, importará lembrar que Justin Vernon pertence a uma vaga que músicos que, no início da década, cultivaram uma masculinidade quase alternativa, na qual as fragilidades e transtornos emocionais se tornaram temas a expressar de forma livre; apregoando livremente as vicissitudes da tristeza. James Blake, Frank Ocean, Drake, Yung Lean ou Burial são disso exemplo, não só pela escrita emocional que os caracteriza, como pela forma como encontraram em contextos de percussão menos ritmada, uma nova área de conforto. Com este disco, o vazio causado pela ausência de percussão, deixa-se preencher com eletrónicas densas (mas efémeras), metais de sopro, violinos e teclas, maioritariamente processadas ou manipuladas de acordo com as sugestões de um espírito fixado na introversão e na melancolia.
Em muito se assemelha a uma fuga planeada de maneira a ser o mais extravagante possível, já que por aqui ouvimos um lamento perpétuo de quem rejeitou a clareza e o calor da música popular no sentido mais lato do termo, cercando-se de instrumentais disruptivos que poderiam sabotar por completo a pretensão de desejar que 22, A Million seja um bom disco, não fosse Justin Vernon incapaz de lidar (mais do que com a fama), com o aprazível sentido melódico no qual a sua escrita se molda sempre. É inescapável. O final com 00000 Million é caridoso com quem escutou até aqui – quase como a luz no final do túnel ou algo semelhante – ao piano que a produção naufragou, o artista entrega a canção mais formal do disco que não será mais que uma balada.

Os Bon Iver conseguem assim um álbum que se assume pelo signo da rejeição do artifício, e em busca de uma congruência entre arte e artista. Com uma insatisfação expressa via palavra e som, não serão muitos os que regressão ao alinhamento de 22, A Million para recordar canções em particular, mas antes pela admiração que somos capazes de sentir por uma obra tão honesta aos sentimentos de quem cria, que pela transparência no modo de expressão, propícia quase em pleno uma harmonia emocional entre quem compõe e quem ouve.

Apesar dos momentos em que o estilo é superior à substância, o terceiro álbum de Bon Iver apresenta uma vontade de romper com o passado, de sobressair no presente e de garantir uma imprevisibilidade completa face à forma com a música do grupo irá evoluir.

Bon Iver
“22, A Million”
Jagjaguwar
★★★★

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