Como Yann Tiersen faz tanto com tão pouco
Texto: JOÃO PATRÍCIO
Ao décimo-oitavo álbum, Yann Tiersen volta a arrumar as caixinhas de música e o acordeão. O experimental fica de parte, bem como as influências do rock dos tempos de Dust Lane e do álbum colaborativo com Shannon Wright. À semelhança do que fizera em parte da banda sonora do filme Good Bye Lenin!, o compositor e músico francês eleva a sua música a um outro patamar de erudição.
Escutar EUSA é como ouvir as composições de grandes nomes como Claude Debussy ou Erik Satie. O piano flui naturalmente ao longo do tempo, com composições suaves. Também o caos e o aparato musical de projetos como a famosa banda sonora de O Fabuloso Destino de Amelie ou Skyline são postos de parte e dão lugar a uma sonoridade mais simples.
O álbum não apresenta qualquer compartimentação. O ouvinte passa de uma música para a outra praticamente sem disso se aperceber. Tiersen une aqui as várias composições por meio de breves interlúdios, intitulados Hent, que consistem em transições que deixam o piano respirar, ao lado de ecos, vozes, e corvos.
Vale a pena destacar algumas faixas. A primeira que ressalta é Lok Gweltz. Denota alguns aspetos equiparáveis a Comptine dans autre été, l’après-midi, como se Tiersen compusesse agora a continuação da famosa canção criada em 2001. Yuzin tem alguns elementos de Debussy, nomeadamente do Arabesco nº 1 em Mi. O ritmo e alguns compassos soam familiares à peça concebida no final do século XIX.
EUSA marca uma fase de assentamento da poeira do multi-instrumentalismo, da sobreposição de sons, e do experimentalismo. Neste novo projeto, Yann Tiersen aborda a sua música de forma mais simples e delicada.
Para muitos pode chegar-lhes a visão redutora de um álbum que reune um conjunto de solos de piano. Mas certo é que, sem orquestras, quase no instrumentalismo puro, o compositor toca mais do que nunca no coração de quem o ouve.

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