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Quando o nosso presente parece um passado distante

Texto: NUNO GALOPIM

As eletrónicas de Murcof e o piano de Vanessa Wagner abordam em “Statea” obras de compositores como John Cage, Philip Glass, John Adams, Arvo Pärt ou Valentin Silvestrov, entre outros.

Os seus caminhos cruzaram-se pela primeira vez num workshop integrado num festival não muito longe de Poitiers (França). Ele, que se chama Fernando Corona mas assina a música que faz como Murcof, é simplesmente um dos mais talentosos e cativantes entre os autores da música eletrónica que temos escutado desde a alvorada do milénio. Ela, Vanessa Wagner, é uma pianista francesa com formação feita entre o seu país natal e a Itália e que, entre editoras como a Naïve, a Abroise Records e outras etiquetas, tem já uma discografia onde a podemos escutar na interpretação de obras de Brahms, Britten, Rachmaninoff, Debussy ou Scriabin, entre outros. Juntaram-se em disco pela primeira vez num primeiro EP editado já este ano no qual juntavam as suas linguagens, formação e gosto para uma abordagem feita de diálogos entre o passado e o presente tendo como ponto de partida peças de Satie e Moore. Agora, o álbum que editam em conjunto aprofunda a colaboração, não só insistindo nessa ideia da promoção de encontros entre o repertório para piano e a música eletrónica, mas focando as escolhas dos compositores e das obram em torno do minimalismo, entendido não apenas na expressão do trabalho dos compositores que podemos associar a esse universo, mas juntando também algumas obras pelas quais passam evidentes afinidades com a sua música, sejam elas fontes de referência ou expressões de herdeiros destas mesmas experiências.

Vale a pena, antes de mergulhar em Statea, lembrar que a obra do mexicano Fernando Corona, através do seu projecto Murcof é de absoluta referência no universo em que o músico tem trabalhado. Descobrimo-lo em Martes (2002), disco que juntava uma lógica de composição atenta ao pormenor, ao fragmento, revelando sugestões de contemplação onde, por entre as electrónicas, brotava a presença (determinante) de outras paisagens, entre as quais se destacavam samples de gravações de obras de Arvo Pärt. Como que a assinalar, desde logo, o seu interesse em lançar a sua curiosidade sobre terrenos mais próximos da música habitualmente rotulada como “erudita”, abrindo assim o horizonte das possibilidades a um espaço mais vasto que o das mais frequentes escolas seguidas por muitos dos artesãos contemporâneos das electrónicas.

De então para cá editou discos de remisturas e álbuns de originais entre os quais Remembranza (2005) ou Cosmos (2007), que deram novo corpo à mesma demanda. Uma das suas obras maiores é The Versaillhes Sessions (2008), conjunto de peças que nasceu de um desafio concreto para um espectáculo nos jardins do Palácio de Versalhes. Uma obra site-specific, portanto, criada para o espectáculo Les Grands Eaux Nocturnes uma noite de música e luz frente a uma das grandes fontes (jeux d’eau) que adornam o Jardin du Roi, para a qual Fernando Corona fez questão de juntar a uma composição claramente do presente uma série de ecos dos dias em que aquela era “a” casa da mais faustosa corte europeia, na qual trabalharam muitos compositores. A música, que parecia ali sugerir um espaço abstracto, acabava por ganhar forma, corpo, mesmo um carácter cinematográfico. A presença de instrumentos do século XVII (entre os quais um cravo, viola da gamba ou violinos) e a voz de uma soprano sublinham os cenários e lançavam narrativas que evocam concretamente figuras como Lully ou, inevitavelmente, Luis XIV. Fantasmas e memórias cruzando-se numa série de composições onde passado e presente se diluem.

De certa forma, e mesmo tendo havido outras experiências pelo caminho, Statea é um herdeiro natural dessas experiências mais remotas que escutámos em Martes e dos ensaios de diálogo entre a noção de autor e de intérprete que passava já pelas entrelinhas das peças criadas para Versalhes. Há, mais do que nas “sessões” sobre ecos da música barroca, uma mais evidente divisão de protagonismo entre os dois mundos que se cruzam. À troca fluente de ideias entre Murcof e Vanessa Wagner juntam-se depois as obras que são matéria prima para que o diálogo entre ambos de manifeste.

E aqui, convenhamos, não podiam ter escolhido melhor. São magníficas as abordagens sobre um dos fragmentos de Fur Alina de Arvo Pärt, Musica Ricercata No. 2 de Ligeti ou Gnosienne No. 3 de Erik Satie, num alinhamento que passa ainda por bem interessantes olhares interpretativos sobre composições de Philip Glass, John Adams, Morton Feldman, Valentin Silvestrov, John Cage ou Aphex Twin. Ecos do século XX e tempos do presente diluem-se numa música que ignora a noção de tempo mas acaba por nos lançar num futuro no qual estes tempos podem ser um passado distante cujas fronteiras e épocas se esbateram e transformaram em memória de difícil distinção entre si.

“Statea”, de Murcof e Vanessa Wagner está editado em suportes de vinil e CD, e também disponível em formato digital, em edição da InFiné.

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