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Anna Meredith: “O género não muda nem o tipo de música nem a forma como a abordo”

Texto: NUNO GALOPIM

Compositora de origem escocesa, lançou este ano “Varmints”, um álbum no qual mostra como os caminhos da música eletrónica do nosso tempo podem ser ponto de partida para revelar uma marca autoral nova e cativante. Hoje apresenta-se ao vivo no CCB.

Sente-se a viver algures entre o mundo da clássica e o da música popular? E como se relaciona com ambos?
A minha atitude tem sido a de não em pensar sequer em mundos. Sempre fiz algo que era meu. O género não muda nem o tipo de música nem a forma como a abordo. Tem a ver com o contexto. Percebo que, de fora, para algumas pessoas, possa parecer que são coisas diferentes. Mas para mim são tudo paisagens teatrais, são fluidas…

Acha que as barreiras que por vezes são colocadas entre géneros musicais são forçadas e artificiais?
Há quem veja nessas fronteiras e barreiras uma sensação de segurança. Nunca o senti assim. Mas compreendo, porque é uma atitude muito humana. Tal como é para muitas pessoas a necessidade de categorizar a música e ver onde cada uma se encaixa. Há quem precise de ver onde estão os pontos de referência, mais do que começar a pensar a partir do nada… Eu tentei não pensar em backgrounds concretos nem no que as pessoas poderiam estar a escutar. Nem no que deveria estar eu a fazer…

Teve uma formação clássica…
Tive sim… E isso teve um impacte grande em mim. Não escuto é muita música.  A formação que tive foi daquelas que insistiam numa busca teimosa pela nossa própria voz.

Vem dessa formação uma relação com instrumentos e timbres que por vezes são mais invulgares na música pop?
Sim, talvez. Porque não me intimidam. Ao longo dos anos escutei música incrivelmente complexa e isso não me intimida também. Toda essa aprendizagem ajudou-me muito a estar confiante na relação com os instrumentos, com o ritmo… Todo um lado técnico. Mas tento não racionalizar demasiado as coisas.

Qual foi a música que a cativou particularmente quando era mais nova e eventualmente a chamou para mais tarde seguir estes caminhos?
Nunca fui muito uma pessoa dada a seguir de perto as coisas novas que estão a acontecer. Não sigo blogues… Não acho que seja algo que ajudaria a minha composição. Mas se escutava algo de que gostasse, às vezes acabava até a fazer uma versão dessas peça… Foi assim que fui aprendendo algumas coisas. Mas quando estava a crescer gostava de tocar em orquestras.

E quando é que a música electrónica entrou na sua vida?
Acho que foi um processo lento. Talvez por estar muito ligada à música clássica, sempre que pensava em música electrónica ligava essa ideia a um patamar de grande destreza técnica… Pensava ou nas obras de um Stockhausen, ou nos discos dos artistas da Warp Records… Eram coisas que gostava mas que não sabia como fazer do ponto de vista técnico. Daí ter começado a abordar esse universo de um ponto de vista muito lo-fi… E depois fui aprofundando e, aos poucos, estava a ficar menos preocupada com tudo isso. Acho que as primeiras abordagens que fiz terão sido há uns dez anos, quando comecei a fazer umas primeiras experiências. Como tinha uma formação diferente tinha essas dúvidas, mas fui procurando a minha forma de abordar este espaço, procurando fazer as coisas à minha maneira.

Fez residências em algumas orquestras. Quais são as grandes lições que trouxe dessa experiência? Foi como fazer uma pós-graduação?
A primeira em que estive era ainda muito jovem… O que uma orquestra mais nos ensina é a ideia de que é preciso acreditar na música. Não se aborda uma orquestra com uma obra na qual não acreditamos. Isso obriga-nos a pensar como apresentar a nossa música de uma forma confiante… E ajuda-nos a ter um pensamento claro e preciso sobre a música. E em termos técnicos aprende-se ainda muito mais, sobretudo num plano prático. Ao fazer ensaios aprendemos como abordar da melhor forma e em menos tempo algo que à partida possa parecer difícil.

Implica certamente rotinas e hábitos muito diferentes dos que pode agora ter, em palco, a fazer música com outros instrumentistas…
Em termos de composição não muda nada. Mas nesse aspeto, no palco, sim. Quando toco é algo completamente novo. Os materiais que a minha banda não são talvez tão polidos como os que apresentaria com uma orquestra. Trabalho mais com eles pessoalmente, falamos mais, e isso é muito bom. As salas são mais pequenas, a luz é diferente. Toda a gente está de pé, de bebida na mão, a falar a todo o tempo… Por vezes gostava que as pessoas pudessem ouvir um pouco mais atentamente, mas é também entusiasmante poder em contextos diferentes. E já aconteceu ter a mesma peça tocada num dia numa sala ligada à música clássica e, num outro dia, numa sala completamente diferente… O lugar define muito as espectativas das pessoas no público.

“Handsfree” foi apresentado no Royal Albert Hall, Nos Proms… Foi uma ocasião marcante?
Foi incrível. Não fizemos muitas vezes essa peça, por isso aquele momento tinha em si aquela coisa de ser especial e grande. E assustador também. Mas é bom poder mostrar algo diferente.

Quando chegou à altura de fazer discos como escolheu para onde dirigir as escolhas do que ia gravar. Porque “Handsfree”, por exemplo, é algo completamente diferente…
Na verdade não me parece muito diferente… A forma como as penso e projeto é muito semelhante. Assim como o modo como moldo as formas… Talvez se sintam as diferenças, mas eu estou sempre a notar as semelhanças… Às vezes até me atormento ao ver que repeti coisas… Mas ao escolher a música para levar aos discos também não quis pensar em excesso e projetei ambições de pequena escala. Pensei que queria ter uma música com refrão assim ou assado… Ou que queria ter um momento com metais… Eram mais pequenas ideias que queria fazer, como numa demanda por uma voz.

Por isso fez dois EPs antes de lançar um álbum? Para ir experimentando?
Sim… O primeiro EP não tinha instrumentos ao vivo, por exemplo… O segundo já tinha. Houve progressões. Assim como se nota entre ambos um ganho de confiança na minha relação com as electrónicas. Acho que estava a ganhar fôlego. A aquecer…

E começou a fazer vídeos para apresentar as composições…
Isso é uma coisa nova para mim. E não me admiro que a ideia de fazer vídeos comece também a integrar as minhas encomendas e propostas na área da música clássica. Precisamos deixar um legado desses trabalhos. Senão são apenas tocados ou transmitidos na rádio e depois mais nada acontece. Tive a sorte de trabalhar até aqui com bons realizadores com boas ideias para pouco orçamento.

A ideia de tocar com o ensemble com vídeos entusiasma-a?
Sim. A minha irmã, que é uma artista plástica, que fez a capa do álbum, já colaborou em alguns concertos. Estamos apenas a tentar encontrar o equilíbrio entre todos os elementos. O tamanho das salas por vezes é pequeno e não comporta este trabalho com imagens. É verdade que as imagens podem distrair quem está ali. As pessoas podem ficar apenas a olhar para o ecrã… Por isso é preciso encontrar um equilíbrio e um dinamismo entre tudo.

Tem um instrumento preferencial para a etapa de composição?
É o piano. É neutro… Penso tudo ao piano, esquematizo ali as coisas antes de pensar no resto. Até as ideias cantadas ensaio-as ali, com o piano. E vou desenhando formas ao mesmo tempo. Só depois de ter um papel desenhado com essas formas passo para a partitura. As formas ajudam-me depois a conduzir depois as ideias.

Num dos EPs fez uma versão de A Little Respect dos Erasure…
É uma grande canção! Data de finais dos anos oitenta… Mas devo tê-la descoberto mais tarde, quando eventualmente foi reeditada. Gosto de fazer versões, sobretudo de canções antigas, porque não escuto muitas das novas… Acho que nunca farei uma versão canónica. Faria um mau trabalho… Mas se é algo de que goste, tento. Há algumas outras que estou a pensar em fazer ao vivo. Estou a trabalhar já em algumas… Porque podem ser momentos divertidos num concerto ao vivo.

Está então a preparar uma forma de levar este disco aos palcos?
Sim… Fizemos já alguns concertos. Tenho uma banda de seis elementos e algumas datas já marcadas. Umas outras em festivais que vêm a caminho… E é natural que alguns temas novos comecem ali a aparecer.

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