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Decadente, sempre

Texto: DANIEL BARRADAS

Ao quarto álbum Michelle Gurevich deixou de assinar como Chinawoman. Mas, se a conhecem desses dias, acreditem que neste novo “New Decadence” ela continua igual a si mesma.

É talvez irónico chamar a um álbum New decadence quando na verdade a decadência de Michelle Gurevich é a mesma de sempre: glamorosa, blasé, cínica e sentimental. Mas a ironia faz parte integrante do seu charme. Talvez não lhe reconheçam o nome já que, ao quarto álbum, a artista deixou de assinar como Chinawoman (todo o seu catálogo no iTunes e Spotify passou para o novo nome) mas, se a conhecem desses dias, acreditem que ela continua igual a si mesma.

Michelle canta sempre como uma mulher do mundo, pouco importa que todos os seus álbuns sejam de facto gravados no seu quarto. Soa a cabarets ao fim da noite, a pistas de dança gastas e ensopadas em álcool, a quartos de hotel saturados de fumo e sexo.

É ainda a mesma voz, a mesma personagem, que já na canção título do seu álbum de estreia, Party girl, nos tinha deslumbrado. Se alguma coisa mudou passados quatro álbuns, é soar ainda mais vivida, com mais experiência e cinismo do mundo acumulados. Aproxima-se agora mais a Leonard Cohen do que a Nico já que as suas canções são contaminadas pelos ritmos cansados de valsas, tango e “bailinho”. A faixa de abertura, First six months of love é quase uma cinicamente realista versão de Dance me to the end of love de Cohen, feita para ser dançada por quem já anda nisto do amor há muito tempo e está pronta para o quinto divórcio. Cantada por que sabe que o fim do amor não está no infinito, está já ali a seis meses de distância.

A análise desapaixonada do romance passa por todo o álbum. Um dos seus pontos altos, Russian romance, é sem dúvida ideal para ouvir depois de alguns shots de vodka. Em contraste com o seu ritmo animado, é uma canção de desânimo. Mas é precisamente na dictomia entre o entusiasmo e o desespero, na vontade de acreditar na redenção pelo amor mesmo tendo passado por desilusões, que Michelle encontra a sua voz única de contadora de histórias.

No final do álbum, Gurevich serve-nos a mais fria balada de amor em Drugs saved my life. Mas há um estranho poder quando fala em noites de verão e beijos na boca enquanto usa um ritmo de valsinha foleira, como de quem sabe que por trás do cliché se esconde o verdadeiro brilho do mundo e da vida, pouco importa se está gasto e já é inútil.

New Decadence é mais um capítulo na excelente obra de Gurevich e tão bom ponto de entrada no seu universo como qualquer outro dos seus álbuns. Apaguem as luzes, encham um copo e juntem-se a ela nesta celebração da decadência do amor.

Michelle Gurevich
“New Decadence”
Michelle Gurevich
★★★★

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