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Todos os lugares contam uma história

Texto: NUNO GALOPIM

Em “Nostalgia da Luz” e “O Botão de Nácar” Patricio Guzmán usa paisagens do Chile para narrar histórias que passam pelos povos pré-colombianos ou pela memória do regime de Pinochet. Os filmes saem agora em DVD.

É um país longo, de geografia arrumada entre as alturas dos Andes e a costa recortada, que lá bem a sul curva a leste para acolher as terras mais próximas do continente gelado que o resto do globo conhece. Em dois magníficos documentários o realizador chileno Patricio Guzmán dá-nos um conjunto de olhares e reflexões que cruzam espaços da paisagem chilena com ecos remotos e recentes da sua história, desde as vivências pré-colombianas ao regime de Pinochet, servindo os lugares de palco comum para histórias que ali tiveram lugar ao longo dos séculos que aqui se evocam.

O mais antigo destes dois filmes é Nostalgia da Luz (passou em Cannes em 2010) e convoca três formas de olhar o passado, partilhando como espaço a paisagem árida do deserto do Atacama. Este é contudo um filme que mostra uma outra forma de lançar um olhar sobre uma realidade histórica e política (a que O Botão de Nácar dá depois continuidade). E ao tomar a busca incessante de mães, irmãs e mulheres que, entre a paisagem desolada do planalto deserto buscam corpos de antigos opositores do regime como destino dos seus olhos, o filme repara nas semelhanças (e também nas diferenças) da forma de olhar para o passado, no mesmo lugar, que os astrónomos desenvolveram ao serviço dos vários observatórios ali instalados. Tal como não muito diferente é o labor dos arqueólogos (que dão graças às condições de preservação que um regime climático tão seco garante), em busca de sinais de antigos migrantes dos tempos pré-colombianos, já que havia rotas que por ali passavam.

O filme começa junto a um velho telescópio alemão em Santiago do Chile, espaço para que a voz do próprio realizador nos contextualize no tempo, no espaço, sob coordenadas da sua vida pessoal. Ruma depois ao Atacama, escutando primeiro um astrónomo, que explica porque tudo o que vemos, na verdade, é o passado (afinal a luz leva tempo a ir de um ponto a outro, nem que milissegundos quando falamos de distâncias curtas). Só o nosso pensamento traduz o presente… Depois um arqueólogo, que nos dá conta dos velhos migrantes que passavam pela região. Mais adiante um arquiteto, em tempos preso político num campo de concentração que o regime de Pinoctet instalou nas instalações de uma velha mina. E só então as mulheres que, de pás nas mãos, procuram entre o solo as memórias daqueles que perderam.

Todos fazem do passado a razão de ser do seu presente. Todos convergem àquele espaço. Dali saindo análises da composição das estrelas. Dali saindo os restos de velhos habitantes que hoje estão guardados em arquivos de museu. E os corpos achados dos opositores do regime que regeu o Chile depois de 1973 e que, também em caixas, mas noutros arquivos, aguardam quem os identifique.

O Botão de Nácar, estreado na edição de 2015 do Festival de Berlim, usa um método de trabalho semelhante para procurar, num outro cenário, planos de épocas diferentes da história chilena. Desta vez Guzmán ruma mais a sul, até à Patagónia, da qual, tal como no deserto do Atacama, nos dá conta da pujança do recorte da paisagem, como que mostrando como eram aqueles lugares antes do homem lá ter chegado. É contudo humana a história que aqui se conta. Focara ora nas cinco grandes tribos nativas que habitavam aquelas regiões (uma delas tendo desenvolvido um gosto pela pintura do corpo que velhas fotografias ajudam a recordar), ora nos ecos do regime de Pinochet, voltando a evocar memórias de detenções, tortura e morte, mais de mil sendo os corpos que, com ou sem vida, foram lançados para o mar naquelas paragens, a partir de helicópteros que assim afastavam opositores indesejados.

Há um contraste vincado entre uma harmonia talhada entre as populações nativas e o ambiente e a intervenção mais agressiva (e mesmo violenta) que chegou com os colonos no século XIX. E vale a pena notar como, através de palavras de velhos dialetos autóctones se vincam as diferenças entre valores dos que lá habitavam e dos que chegaram com a força das armas e do dinheiro para assumir o poder e moldar aquelas gentes e lugares à sua imagem.

Com uma dimensão mais poética do que Nostalgia da Luz, o Botão de Nácar expressa ainda olhares, que não seriam estranhos a códigos indígenas, sobre a água, o nomadismo, as memórias…

Com uma espantosa direção de fotografia, mas que não quer nunca ser maneirista nem fabricante de postalinhos, estabelecendo claros contrastes entre a contemplação de uma paisagem que tem tanto de bela como de desolada e os rostos próximos daqueles que escutamos, Nostalgia Da Luz e O Botão de Nácar revelam na forma um registo autoral marcado por um fortíssimo ponto de vista. Juntos desenham propostas únicas de abordagem a um tempo e um lugar. E contam uma história (ou várias que de cruzam) que ajudam a dar a conhecer afinal o que é o Chile.

Os filmes ‘Nostalgia da Luz’ e ‘O Botão de Nácar’, ambos com realização de Patricio Guzmán, estão disponíveis em DVD numa edição da Midas Filmes.

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