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“Black Album”: reencontro com as raízes negras da música de Prince

Texto: NUNO GALOPIM

Foi criado para suceder a “Sign O’ The Times”, mas acabou na gaveta e em seu lugar surgiu “Lovessexy”. Transformado num dos bootlegs mais desejados do seu tempo, o “Black Album” teria edição oficial em 1994.

Apesar da excelência dos discos que então nos deu a conhecer, do estado de aclamação generalizada em que vivia a sua obra e dos concertos aplaudidos que então apresentava, a verdade é que, na segunda metade dos anos 80, Prince viveu também tempos de alguma ebulição criativa que nem sempre acabaram resolvidos da melhor maneira. Se das opções de avançar com uma longa-metragem de ficção realizada por si mesmo – estreada em 1986 como Under a Cherry Moon – se revelou mesmo a pior de todas as suas criações de toda a década de 80, já o conjunto de ideias que gravou em disco para suceder a Parade – criando então dois discos que ficaram na prateleira, deles saindo contudo alguns dos temas que depois encontrámos em Sign ‘O’ The Times – traduziu o modo como a agenda e expectativas da editora por vezes serviram de travão ao que seriam os seus desejos. Curiosamente, após Sign ‘O’ The Times, Prince enfrentou um episódio algo semelhante ao que precedera esse que, hoje, é muitas vezes evocado como o seu melhor disco. Desta vez, contudo, a decisão esteve mais nas suas mãos. E o álbum que criara para suceder a esse álbum duplo, e que chegou a ser distribuído entre críticos e DJ em cópias promocionais, foi retirado a poucos dias do lançamento, em seu lugar acabando o músico por editar Lovessexy

Fruto talvez das críticas que se tinham avolumado nos últimos anos, apontando a uma aproximação de Prince aos espaços do mainstream, da pop, do rock, em detrimento do funk e dos universos R&B aos quais nascera associado e que lhe tinham servido de formação, o músico arregaçou as mangas e gravou um álbum no qual era precisamente a esses caminhos que regressava. Tinha inclusivamente por título de trabalho The Funk Bible, revelando um reencontro claro com esses caminhos antes já seguidos, deixando de lado o caráter exploratório dos álbuns que, nos últimos anos, o tinham colocado em terrenos de fluente diálogo com outros géneros e referências (e com magníficos resultados, sublinhe-se).

O disco reativava num alinhamento curto e coeso aquele fulgor funk que, mesmo não tendo dominado nenhum dos seus discos mais recentes, na verdade nunca tinha deixado de marcar presença na sua música, nem nos álbuns nem nos palcos. Contudo, há muito que um alinhamento não mostrava uma tão clara concentração de ideias nesses azimutes.

O funk, como podemos escutar logo no empolgante Le Grind que abre o disco, respirava a peito cheio entre estas canções, abrindo terreno pontualmente a olhares não muito entusiasmados pelo hip hop (algo que Prince acabaria por rever e até mesmo assimilar nos anos 90), sem esquecer o seu gosto pelo espaço da balada R&B – algo que é transversal a toda a sua obra – que ali se manifestava em When 2R in Love, o tema deste disco que não foi silenciado e acabou por surgir no alinhamento de Lovessexy.

Com capa negra, mostrando apenas o número de série, o álbum promocional ficou então conhecido como “Black Album”. E, depois de cancelada a sua edição, das cópias promocionais em circulação nasceu um dos bootlegs mais célebres da história, valendo mesmo a Prince algumas referências nos balanços do disco do ano. E em alguns casos com mais entusiasmo do que aquele com que fora acolhido o disco que editou no lugar deste.

Em meados dos anos 90, num tempo de relação conflituosa com a editora, Prince acabaria por autorizar a edição oficial do Black Album. O disco foi lançado numa edição limitada, com capa a negro, apenas com o número de série na lombada. Um autocolante, sobre o plástico da jewel box do CD, revelava o que lá encontrávamos dentro. E até o alinhamento só surgia mesmo impresso na bolacha do próprio CD.

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