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Crónicas de um pesadelo

Texto: NUNO GALOPIM

Escrito sob pseudónimo e levado para fora do país às escondidas, este corajoso volume de contos sobre a vida quotidiana na Coreia do Norte junta um conjunto de retratos sobre uma sociedade assombrada pela repressão.

Num poema que serve de epígrafe ao conjunto de contos através dos quais Bandi usa a sátira para tecer um retrato tão crítico quanto trágico do quotidiano sob o regime que detém o poder na Coreia do Norte desde os anos 40, lemos:

Vivo na Coreia do Norte há cinquenta anos,
Como um autómato que fala,
Como um homem preso por um jugo.
Escrevi estas histórias
Impelido não pelo talento,
Mas pela indignação,
E não usei uma pena e tinta,
Mas os meus ossos e as minhas lágrimas de sangue.

E fica quase tudo dito… Mas quem é Bandi, podem perguntar… É um pseudónimo de um escritor que vive na Coreia do Norte e que integra o comité da organização oficial literária do país, um grupo sem cuja aprovação (e consequente presença numa das suas publicações) ninguém ali se pode afirmar como escritor. Atento e alarmado desde há algum tempo pelo que via ao seu redor (até porque a primeiras das “histórias” que aqui nos conta terá sido redigida em 1989), foi contudo depois de constatar os efeitos da grande fome que se abateu sobre o país nos anos 90, após a morte de Kim Il-Sung, quando vê muitos dos que lhe são próximos a morrer ou a procurar a fuga, que decide questionar o funcionamento do regime e da sociedade que este moldou. Usando a única arma que sabe manejar: a escrita.

Estes pequenos contos nasceram em pequenas folhas de papel quadriculado. A lápis… E durante algum tempo viveram concluídos, mas escondidos, não havendo como os fazer chegar além das fronteiras para uma eventual publicação. Coube finalmente à fuga (atribulada) de uma mulher próxima da sua família o ponto de partida para que estas palavras conhecessem vida. Foi através dela que, com a ajuda de uma ONG atenta às movimentações na fronteira com a China, um outro peão entrou em jogo, encarregado de uma missão: contactar Bandi e levar os textos para fora do país. Assim o faz, escondendo os manuscritos entre páginas de livros de propaganda do regime.

Comparado aos valores de denúncia que habitam muita da escrita do dissidente soviético Alexander Soljenitsin, o conjunto de contos de Bandi que se apresenta, inclusivamente, sob o título A Denúncia, serve-nos uma série de olhares sobre figuras do quotidiano norte coreano, todas elas confrontadas com uma sociedade vigiada, impiedosa, onde os rumores podem destruir vidas… Como as do velho veterano, que lutara inclusivamente pela fundação do regime, causa indignação numa chefia do presente quando se recusa a deixar abater um ulmeiro que tem no quintal, mas que incomodava os fios de comunicação entre escritórios da polícia. Ou a mulher cujo filho chora quando vê a figura de Marx ou do Grande Líder e que, para o poupar, usa cortinados duplos e escuros para vedar a vista da janela (que fica numa praça central onde a ordem oficial mandou que todas as cortinas fossem brancas). Ou um homem que tenta partir de comboio para visitar a mãe, moribunda, numa aldeia rural, sem que lhe tenha sido dada a licença de viagem que lhe permite comprar o bilhete.

A arte maior de Bandi reside na construção das personagens, na capacidade em fazê-las parte de uma trama narrativa de ficção que transpira, sem vacilar, ecos de uma realidade que no fundo molda tudo e todos os que habitam entre as páginas de um livro que, mesmo feito de pequenas histórias, vale como um corpo maior que transforma em denúncia e crítica o desespero que tem como matéria prima bem fixada na realidade. Um artigo publicado na imprensa sul coreana que surge como um apêndice depois dos contos de Bandi ajudará o leitor a contextualizar as narrativas, o autor e a odisseia que fez com que este livro pudesse nascer.

“A Denúncia” (235 páginas), de Bandi, acaba de ser publicado entre nós pela Alfaguara (chancela da Penguin Random House), numa tradução de Patricia Xavier.

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