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A banalidade do real

Texto: NUNO CARVALHO

“Fogo no Mar”, de Gianfranco Rosi, é um filme sobrevalorizado e ao qual foi dado o prémio máximo da Berlinale certamente mais por motivos políticos do que por mérito artístico.

Gianfranco Rosi, autor deste documentário que ganhou o Urso de Ouro na edição deste ano do Festival de Berlim, já foi acusado de nas suas obras anteriores fazer retratos saltitantes e não muito bem organizados de figuras díspares. É o que volta a acontecer em Fogo no Mar, um retrato documental da ilha italiana de Lampedusa e dos migrantes que aí aportam após perigosas e precárias travessias do Mediterrâneo que acaba por se concentrar mais em alguns habitantes da ilha do que propriamente nos refugiados que fogem de situações desesperadas. Parece até que Rosi, que passou perto de um ano em Lampedusa, não conseguiu decidir-se bem sobre o que verdadeiramente pretendia documentar, tendo acabado por centrar-se mais nas personagens mais ficcionais e trabalhadas que habitam a ilha (como o médico que faculta cuidados a quem chega com os mais diversos problemas de saúde ou o rapaz de 12 anos cuja hipocondria contrasta com os verdadeiros dramas físicos e humanos dos migrantes).

Em todo o caso, o realizador (que também é responsável pela fotografia e pelo som) alterna essas imagens mais artificiosas e encenadas com outras puramente documentais da agonia de homens, mulheres e crianças que tentam entrar na Europa fugindo de situações de guerra, morte e perseguição. Fogo no Mar resulta assim um híbrido com alguns momentos interessantes, embora não seja esteticamente muito consistente, na medida em que revela trepidações no olhar, ora apresentando enquadramentos cuidados (e não estamos aqui a defender que as imagens tenham sempre de ter uma qualidade fotogénica), ora mostrando planos de uma banalidade que chega a ser aborrecida. Enfim, tal como Sacro Gra (2013), que ganhou com pouco mérito o Leão de Ouro em Veneza, também Fogo no Mar nos parece um filme sobrevalorizado e ao qual foi dado o prémio máximo da Berlinale certamente mais por motivos políticos do que por mérito artístico – e, quando assim é, perde-se de vista o essencial, que é a avaliação criteriosa de um filme pelas suas virtudes intrinsecamente cinematográficas.

Fogo no Mar
de Gianfranco Rosi
com Samuele Pucillo, Maria Costa, Pietro Bartolo
★★

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