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Pensamento, palavra, música

Texto: DANIEL BARRADAS

Kate Tempest põe a lucidez do seu pensamento em palavras vestidas de música. A poesia triunfa e reina em “Let them eat chaos”, um dos discos que mais urge ouvir este ano.

Ao seu segundo disco, Kate Tempest deixa-nos a prova de que é uma das grandes poetas contemporâneas. Pronto. Digo isto logo de entrada, agora que o Bob Dylan está premiado com o Nobel da Literatura. Preciso de vos explicar a musicalidade das palavras? Perguntar o que seria da poesia sem ritmo? Nem vale a pena…

Claro que Tempest, sendo a genuína artista que é, está-se bem nas tintas para nos provar seja o que for. Não é isso que a move. Uma coisa que fica bem clara em Let them eat chaos é o seu fogo ardente, a sua absoluta necessidade de se exprimir, de nos fazer ver.

Se o seu primeiro álbum, Everybody down já fora palco de ensaio para muito material do que depois se viria a transformar no seu primeiro romance, The bricks that build the houses, é agora neste seu segundo momento em disco que a sua escrita atinge uma maturidade impressionante, não só pela estonteante capacidade de mover agilmente a sua objectiva entre a grande panorâmica (às vezes, cósmica mesmo) e a intimidade microscópica das suas personagens, mas pela capacidade de, no limitado conceito de disco de canções, criar uma obra coesa que transcende disciplinas e consegue ser emotiva, sensível, política e filosófica.

Let them eat chaos é um longo e único poema, (daí que seja editado simultâneamente em formato livro), mas esta é uma obra que de facto faz todo o sentido ser transformada em som. Porque são palavras que precisam ser ditas (literal e figurativamente).

As primeiras palavras deste álbum, soando secas e negras, são precisamente: “Picture a vacuum…”. Este vácuo onde ela começa por nos colocar é o espaço sideral, e a primeira faixa serve como uma aproximação ao planeta Terra, à cidade de Londres. Estamos no nosso tempo: “This is a city, let’s call her London and these are the only times you have known”

Como um Shakespeare galático, Tempest desenha-nos o grande palco onde irá colocar as suar personagens. As suas palavras oscilam de tom entre o científico e de história infantil e por trás delas, electrónicas que nos transportam do brilho cósmico de xilofones ao pulsar maquinal de uma grande cidade.

A segunda faixa explica-nos a cidade, as pessoas. Com um pulsar dançante, somos guiados pela paisagem humana de uma grande cidade adormecida. São 4:18 am. Chegamos a uma rua. Aqui há sete pessoas, em sete casas diferentes que não conseguem dormir. “they shiver in the middle of the night, counting their sheepish mistakes”

Ketamine for breakfast apresenta-nos a primeira personagem, Gemma. É por esta altura que sabemos que estamos frente a um dos grandes discos do ano. O poderoso poema veste-se de canção, convida-nos a dançar, e o retrato desolado desta vida torna-se ainda mais pungente.

A fasquia ergue-se ainda mais na faixa seguinte que nos apresenta Esther, que não consegue dormir por estar preocupada com o mundo. Europe is lost são cinco lúcidos minutos de batidas e palavras que são como bofetadas. Na nossa cara, a nu e sem pruridos, temos a nossa contemporaneidade. E é impossível desviar o olhar. É feia, é enorme, é fascinante.

As personagens seguem-se, faixa a faixa. Há que ouvi-las todas com atenção e re-ouvir para descobrir pormenores, apreciar inflexões de voz, perceber as texturas musicais. Destaque para Perfect coffee onde o omnipresente rap, ganhando mais melodia, faz soar Tempest quase como uma Grace Jones.

Depois de nos apresentar estas personagens, todas congeladas às 4:18 am, Tempest faz o tempo avançar em Breaks. Uma tempestade irrompe (e sim, há aqui uma ironia teatral propositada), e estas pessoas saem de casa, fascinadas com a chuva. Encontram-se na rua e há pela primeira vez, a oportunidade de se verem umas às outras na comunhão face aos elementos.

O álbum termina com Tunnel vision, um resumo negro da nossa sociedade mas um esperançoso olhar ao nosso lugar no universo, um apelo ao despertar de consciências para nos levantar a ser algo mais alto do que aquilo que somos. As suas últimas palavras são: “I’m pleading with my loved ones to wake up and love more.” E deixa-nos flutuando num mar de electrónicas.

Para quem se queixa de que na música não há mais pensamento ou intervenção e tudo é pop inconsequente, 2016 brindou-nos já com dois grandes discos que provam o contrário: Hopelessness de Anohni e Let them eat chaos de Kate Tempest. Urge ouvi-los, digerí-los. Procurem-nos para que possam crescer com as perguntas que levantam. Mas não esperem que as respostas vos cheguem com o vento, os tempos mudaram.

Kate Tempest
“Let them eat chaos”
Kate Calvert
★★★★★

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