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Quando o passado é um futuro diferente

Texto: DIOGO SENO

“Abril e o Mundo Extraordinário”, de Christian Desmares e Franck Ekinci é uma história alternativa num universo ‘steampunk’ graficamente nascido do traço de Jacques Tardi, nome maior da BD franco-belga.

E se o progresso técnico e científico tivesse parado antes da descoberta da electricidade, e o planeta ficasse para sempre dependente do carvão? Este é o mundo paralelo do filme, um no qual os maiores cientistas foram raptados, e a História saiu de forma diferente. É uma história alternativa num universo steampunk definido pelo traço de Jacques Tardi, a lenda da banda desenhada francesa, que Christian Desmares e Franck Ekinci transformaram agora em longa-metragem de animação.

Antes de mais, Abril e o Mundo Extraordinário é um filme de aventuras, em que a protagonista é movida pelo desejo de concluir o legado dos pais e encontrar a fórmula mágica da eternidade, lutando por isso contra um mundo em constante guerra e em que o progresso científico apenas a ela serve. Avril perdeu os pais numa perseguição da polícia, em que estes, misteriosamente, como outros cientistas, desapareceram após serem fulminados por um raio. O mistério do seu desaparecimento é o que põe a narrativa em andamento, e com a descoberta dos contornos deste desaparecimento se faz o percurso narrativo do filme. Estão aqui muitos dos elementos do filme de aventura: temos o polícia tótó a perseguir a protagonista, e a complicar os seus avanços, ignorando o perigo maior que alimenta desta forma, o romance (involuntário), a figura do ancião sábio (neste caso o avô da protagonista), e inclusive o sidekick, que neste caso é um felino falante, e um dos mais encantadores a agraciar o cinema de animação recente (é este que traz os momentos de humor e os diálogos espirituosos: um gato erudito, leitor de Platão e Perrault).

As delícias do mundo de Avril são muitas, e vão do encadeamento ágil das peripécias da narrativa à excelente animação. A criação deste mundo faz-se de muita imaginação visual e muita atenção ao pormenor, num estilo de animação cujo traço e cor se aproximam do da banda-desenhada. É esta atenção que dá encanto a esta história alternativa com contornos de fábula, uma similar a Invenção Diábolica, de Karel Zeman, que passou também neste festival. Largamente ambientado numa Paris cinzentíssima (em muitas cenas, o filme quase que se aproxima do monocromático), Abril leva-nos dos mais elegantes restaurantes (em zepelins), a elaboradíssimos transportes alternativos, passando pelo fundo do Sena, por museus, pelo interior de estátuas. Um universo também inspirado em Verne, que o referido Zeman de certeza apreciaria. Pena que a emoção do filme – a relação de Abril com a sua família e o seu animal de estimação falante, e, depois, com o seu interesse amoroso – não convença, exactamente por repousar nas convenções deste género de aventuras, sem exactamente encontrar uma voz própria.

O final em que a protagonista se encontra com o vilão caricatural e previsível enfraquece também o comentário sobre os fascínios e os perigos da ciência e do progresso tecnológico. Fica no entanto uma boa aventura por um mundo original e visualmente rico que dá gosto percorrer por algumas horas.

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