Últimas notícias

De regresso a Argel, sem filtro

Texto: NUNO GALOPIM

Cinquenta anos depois de ter sido premiado com o Leão de Ouro em Veneza, “A Batalha de Argel” lembra um olhar a quente sobre um conflito com afinidades para com a trilogia da guerra de Rosselini.

Há todo um curioso conjunto de ecos entre os três filmes que Rosselini rodou entre Itália e a Alemanha, fixando neles o final da II Guerra Mundial e os tempos que se lhe seguiram e A Batalha de Argel, histórica produção italo-argelina de 1966 que, também com os factos reais ainda quentes na memória recente, retrata episódios de violência e confronto na cidade de Argel nos anos que antecederam a independência da Argélia.

Premiado com o Leão de Ouro em Veneza, o filme de Gillo Pontecorvo tem particular familiaridade com Paisà, o título “do meio” da trilogia de guerra de Rosselini, já que, mais do que em Roma Cidade Aberta ou Alemanha, Ano Zero, há aqui uma vontade em associar diretamente a condução narrativa a factos, geografias e datas, juntando contudo A Batalha de Argel uma mais evidente vontade em diluir as fronteiras entre a ficção e o documentário não só pelo recriar de figuras e situações reais, mas pelo integrar de comunicados da época, que assim fixam entre o corpo do filme esses pedaços da história de que ali se fala.

Tal como os três filmes que Rossellini apresentou entre 1945 e 1948, também A Batalha de Argel é fruto de um sentido de urgência que vence os constrangimentos da dieta de meios e da escassez de orçamento. Criado já depois da independência reconhecida, o filme usou espaços reais para neles recuperar cenas que a história neles tinha registado, em muitos casos com memórias de violência que atingiu ambas as fações em conflito: os argelinos e os colonizadores franceses.

Depois de um momento que antecede um possível clímax, o filme mergulha num flashback que nos coloca perante a eclosão dos conflitos que, daí em diante, acompanha sob arrumação cronológica, numa escalada de violência progressivamente desmesurada. O realizador mostra pouca vontade em olhar para além do domínio dos factos que fizeram as notícias, raramente abrindo olhares sobre as personagens. Quando o faz repara talvez mais humanamente nos protagonistas, e também os peões, que, no cashbah, lançam os focos de luta contra os franceses. Mas não deixa também de observar, nas situações que recordam os ataques terroristas, o que de tão inexplicável há na morte de quem, sem um papel direto no conflito armado, acaba involuntariamente no papel de vítima.

Há contudo uma diferença maior entre A Batalha de Argel e qualquer dos três filmes de Rosselini que, esteticamente, são a herança genética que habita a alma deste filme. Com participação de Ennio Morricone, a música (e toda a utilização dos sons) acrescenta uma dimensão que acrescenta às imagens uma carga dramática que amplifica as sensações e retratos que o plano mais realista das imagens e da narrativa nos mostram. Poderia parecer, à partida, um jogo de contrastes. Mas a verdade é que há um diálogo entre a crueza das imagens e o dramatismo da música que serve ao filme uma dimensão que o faz viver para além de uma qualquer vontade mais simplista de categorização de género.

“A Batalha de Argel”, de Gillo Pontecorvo, acaba de ser editado em DVD entre nós num lançamento da Alambique Filmes.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: