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As confissões de Nico e de Teitur

Texto: NUNO GALOPIM

A partir de narrativas pessoais encontradas em vídeos confessionais no YouTube, o compositor Nico Muhly e o cantor Teitur apresentam em “Confessions” um ciclo de canções que ganha forma com a colaboração de um ensemble de música barroca.

Há de tudo nos vídeos autoconfessionais que empanturram o YouTube de histórias pessoais. Algumas dessas narrativas faladas e filmadas são de facto interessantes e bem contadas, outras serão importantes para estabelecer ligações de afinidade ou até mesmo identidade junto de quem se sinta eventualmente desenquadrado entre a moldura humana que o rodeia, mas a esmagadora maioria desagua no grande oceano da inconsequência. Está aqui, contudo, matéria prima para que se falam retratos sobre o que somos nesta alvorada de milénio, cabendo ou a quem estuda as coisas da sociologia, da política e dos comportamentos, todo um quadro de mergulhos que dirão muito sobre a nossa capacidade de falarmos de nós mesmos ou de dramatizarmos a realidade criando as personagens com que queremos que os outros nos vejam. Este é também um fértil caldeirão para eventuais trabalhos de criação artística. E depois de uma primeira experiência de criar uma canção com base nestas histórias, passado um interregno de sete anos o compositor norte-americano Nico Muhly e o vocalista Teitur, natural das ilhas Feroe (nas altas latitudes do Atlântico, ali a meio caminho entre a Noruega e a Islânda, com a Escócia logo a sul) resolveram procurar mais narrativas e com elas criar um ciclo de canções. Juntaram-se a um ensemble de música de câmara habitualmente ligado a repertórios de música barroca e correram por salas holandesas com estes retratos confessionais. E, no fim da digressão gravaram o ciclo que, agora, muito apropriadamente editam sob o título Confessions.

A ideia do ciclo de canções teve os seus dias de glória nos tempos do romantismo. E basta recordar os ciclos assinados por Schubert, Schumann ou, um pouco depois, os de Debussy, Mussorgsky ou Mahler, os deste último refletindo visões orquestrais de outra ambição sinfonista. Na passagem para o século XX e já pelo novo século adentro houve novas abordagens a este espaço de relacionamento entre a música e as palavras junto de compositores como Britten, Shostakovich, Villa Lobos ou Copland. E poderá dever-se talvez à explosão do mercado discográfico depois dos anos 50, que colocou em cena vozes do jazz e da canção popular, o progressivo desinvestimento de compositores na forma da canção. Foi por isso surpreendente descobrir, em 1986, o ciclo Songs From Liquid Days, de Philip Glass, composto em parceria com nomes como os de David Byrne, Paul Simon, Suzanne Vega ou Laurie Anderson. Glass assinaria pontualmente canções para outras vozes – como Natalie Merchant ou Mick Jagger – e voltaria a assinar um ciclo em Book Of Longing, desta vez com a poesia de Leonard Cohen. Desde os anos 80 o belga Wim Mertens e o britânico Michael Nyman, que estão entre os primeiros herdeiros diretos dos minimalistas norte-americanos, apresentaram ciclos de canções em diversas ocasiões. Moondog também compôs e gravou ciclos de canções tanto na fase nova-iorquina nos anos 50 como na etapa em que, na Alemanha, já no fim da sua vida, trabalhou com músicos e ensembles de música contemporânea. E, nos anos mais recentes encontrámos até uma lógica semelhante à de um ciclo de canções “clássico” no álbum He Poos Clouds, que Owen Pallett (músico com formação clássica) editou em 2006 como Final Fantasy.

O ciclo Confessions acaba por se inscrever como um novo episódio nesta longa história. Reflete por um lado uma abertura da música de Nico Muhly aos espaços que transcendem os da sua mais habitual composição instrumental ou para orquestra, mas que são frequentes ou nos seus trabalhos como arranjador ou nas parcerias que estabelece no âmbito da Bedroom Comunity, a “família” de músicos à qual está ligado e com a qual vai colaborando de quando a quando. Há contudo um interesse evidente da música em explorar linguagens mais repetitivas (e vale a penas lembrar que Muhly trabalhou em tempos com Philip Glass) e, também, sonoridades que podemos associar à música barroca, daí a opção em juntar ao projeto o ensemble Holland Barroque.

As ligações holandesas, tanto à matéria prima dos vídeos que estão na base das “confissões” como aos músicos que colaboram no disco devem-se ao facto de este projeto ter ganho forma durante um período em que Nico Muhly teve uma residência no Muziekgebouw Eindhoven, na Holanda.

“Confessions”, de Nico Muhly e Teitur, está disponível em CD e em suportes digitais em edição da Nonesuch, etiqueta da Warner.

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