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A ressurreição de Lazarus

Texto: NUNO GALOPIM

A banda sonora do musical que David Bowie estreou em dezembro de 2015 chega a disco numa gravação com o elenco da peça. Um segundo disco acrescenta os registos, na voz de Bowie, dos temas inéditos que criou para esta peça de teatro.

Há um debate que se pode levantar sempre que começam a surgir, editadas, peças que um artista que nos deixou antes tinha fora do nosso alcance. Do extremo que é a obra de um Jeff Buckley (um só disco em vida e já uma multidão de edições póstumas) às mais variadas incursões por arquivos de inéditos, esta é na verdade uma questão debatida no foro da ética já que, legalmente não incorre em erros, uma vez que há herdeiros (dos familiares aos editores) que mantém o direito de exploração das obras e, a menos que o artista deixasse claro que não queria ver publicado o que antes tinha guardado, têm em mãos toda uma nova etapa de vida do material que ficou gravado. O “cofre” de Prince em Paisley Park, os inéditos deixados por Michael Jackson, são exemplos possíveis de um debate que envolve variáveis como a curiosidade do admirador, a gestão do património de quem o detém e os caminhos que depois a música atravessa nos processos de edição e divulgação, fazendo sonoro o que antes estava calado.

No caso de David Bowie parece que as coisas serão um pouco diferentes, tendo algumas notícias indicado que, nos seus últimos meses de vida, ele mesmo terá supervisionado a preparação de uma série de lançamentos, dos quais a caixa recentemente editada, juntando a sua obra entre 1974 e 1976 pode ser um exemplo, ali surgindo pela primeira vez o álbum The Gouster, que ficara na gaveta e depois abandonado em favor de Young Americans, que usaria matéria prima das mesmas sessões, acrescentando outras ideias para, em 1975, fixar a sua primeira visão plastic soul. Lazarus, a banda sonora do musical que agora chega a disco, representa outro episódio de revelação de material inédito já que, além da gravação pelo elenco da peça, o disco inclui as versões, na voz do próprio Bowie, dos quatro temas novos que compôs para este espetáculo. Um deles, o que lhe dá título, surgira em Blackstar, tendo então revelado o seu teledisco (e letra) um dos mais evidentes programas de despedida, naturalmente só devidamente descodificado depois da notícia da sua morte, dois dias após o lançamento do álbum e três volvidos sobre a estreia mundial do vídeo que terminava com a sua silhueta, tão magra quanto o fora nos anos 70, a recuar e fechar-se dentro de um armário. Os outros três são os primeiros inéditos que surgem após a morte de Bowie, todos eles gravados durante as sessões que nos deram a conhecer o álbum editado em janeiro e que, certamente, estariam desde logo agendados para integrar uma edição como esta, apesar de em temática e esteticamente terem evidentes afinidades com o corpo de canções que escutámos em Blackstar.

No Plan e Killing a Little Time são parentes próximos do que ouvimos no disco. Ambos acentuam notas ao programa de despedida, com sugestões mais claras e diretas do que abstratas. O primeiro destes dois temas acentua a faceta mais classicista de Bowie enquanto crooner, a segunda é peça de maior intrensidade e viço, seguindo caminhos de diálogo entre o jazz e o rock como os de Sue (or in a Season of Crime). Já When I Met You, que musicalmente aponta ao que poderia ser o ponto intermédio entre as sonoridades jazzy de Blackstar e o rock’n’roll revisitado do anterior The Next Day, é uma canção de memórias, nota adicional de uma relação com o tempo que coloca tudo o que existe no plano do passado.

Estes temas, que surgem num disco adicional de Lazarus, são o momento mais apetecido da ementa servida já que o prato principal é a coleção de 17 temas cantados pelo elenco da peça (gravadas um dia após a notícia da morte de Bowie), aos quais se junta a versão original (por Bowie) de Sound and Vision e, a abrir, a mais remota memória de Hello Mary Lou (Goodbye Heart) de Ricky Nelson.

Sobre arranjos ora mais transformados – como é o caso de The Man Who Sold The World, transportado para cenografias quase ambient – ora mais fieis aos originais, canções de várias etapas, entre as quais Absolute Beginers, Love Is Lost, This Is Not America ou Life on Mars? São entregues a vozes de vários atores. E ali as transformações ganham formas ainda mais evidentes, entre quem siga mais de perto as tradições do canto mais habitual em palcos de teatro musical americano (como Sophie Rae Caruso, que quase apaga a alma bowiesca das canções e as faz soar a qualquer coisa que passe pela Broadway), ou quem procure vincar uma personalidade interpretativa como é o caso de Cristin Miloti, que assina belas leituras de Changes e Always Crashing In The Same Car. O timbre do protagonista Michael C Hall pode agradar a muitos. A sua voz é afinada e cumpre o recado que lhe é pedido em palco como ator… Mas perde em todas as comparações com o original (o que não sucede com as versões que aqui escutamos na voz de Miloti, que procuram acrescentar-lhe algo seu).

Resta lembrar que Lazarus é um espetáculo cheio de ressonâncias do universo do próprio Bowie. Foi pensado tendo por base o romance de Walter Trevis The Man Who Fell To Earth que Nicholas Roeg levou ao cinema em 1976 num filme que representou a estreia de Bowie como ator no grande ecrã. Ali vestia pele do protagonista, um alienígena vindo de um mundo à beira da catástrofe, revelando a sua interpretação um daqueles momentos em que a realidade do quotidiano assombrado do homem quase se confundia com os traços da figura de ficção a que estava a dar corpo (um pouco como antes sucedera com Ziggy Stardust). Bowie voltou a este texto em conjunto com Enda Walsh, que assinou o texto dramatúrgico que as canções acompanham. Enquanto não surge uma eventual versão em vídeo – que por si seria sempre mais interessante do que apenas o suporte em áudio – ficamos com este retrato de uma peça que Bowie encarou também como parte do seu programa de despedida.

PS. O CD2 seria, se editado avulso, um belíssimo EP de David Bowie!

“Lazarus”
Vários Artistas
ISO Records / Sony Music
★★★

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