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Pete Burns (1959-2016)

Texto: NUNO GALOPIM

Transformado em estrela de reality shows e ultimamente mais falado pelas muitas cirurgias faciais que fez, Pete Burns será lembrado como o vocalista dos Dead or Alive, banda que abriu portas a um relacionamento da pop com a música de dança nos anos 80.

Entre 1984 e 85, quando os Dead or Alive vencem o espaço de nicho (e culto) em que viviam até ali e, pela força fulgorante de You Spin Me Round (Like a Record) se fazem, por uns momentos, um fenómeno pop com expressão global, as reações refletiam não apenas o apelo da música, mas também o choque da imagem. Ousado, provocador, de cabelos longos, desafiando desde logo códigos normativos de identidade de género (num quadro sublinhado pelo tom grave e marcante do canto, baralhando mais ainda os elementos em jogo), o vocalista da banda ganhava visibilidade e, com ela, chamava a si comparações que o colocavam ao lado de um Boy George ou Marilyn. Se na necessidade de demarcação de um espaço identitário havia ali eventuais afinidades, na verdade a mais importante das contribuições de Pete Burns e dos Dead or Alive alargara-se a outras frentes e dimensões, cabendo-lhes por um lado uma exploração na pop europeia de heranças (contemporâneas) do electro e hi-nrg – de origem americana – antes mesmo de nascidos os Pet Shop Boys e o encontrar da fórmula de sucesso da “tríade” Stock, Aitken e Waterman antes de iniciadas as carreiras de nomes como os de Rick Astley, Kylie Minogue ou a dupla Mel & Kim, os nomes pelos quais esta equipa de produção fixou um “som” e somou os seus maiores êxitos. Aos 57 anos, vítima de um ataque cardíaco, Pete Burns morreu este fim de semana. O apelo, sempre com fortes ingredientes de gosto pelo “choque” visual, que teve a sua invulgar predileção por cirurgias faciais (diz-se que terá feito cerca de 300, algumas certamente para corrigir consequências de outras menos bem sucedidas) e uma passagem pelo espaço televisivo dos reality shows já depois da viragem do milénio desviaram o discurso sobre Pete Burns das suas importantes contribuições para a história da pop dos anos 80 para um terreno de conversa cor-de-rosa de famosos e bizarrias. Na hora em que nos deixa convém, contudo, não esquecer o músico nem os discos que nos deu a ouvir.

Tal como os Echo & The Bunnymen, os Teardrop Explodes ou os Orchestral Maouevers in The Dark, Pete Burns nasceu musicalmente no mítico Eric’s o clube de Liverpool que foi casa das movimentações pós-punk na cidade e que assim foi o palco de muitos dos nomes que dali emergiram entre finais dos anos 70 e inícios dos anos 80. A sua primeira banda, a que chamou The Mistery Girls, era um trio que, integrava a presença de Pete Wylie, um dos elementos dos Crucial Tree (a banda fundadora desta movimentação e que o juntava a Julian Cope e Ian McCulloch). Separaram-se depois de uma atuação, seguindo Pete Burns a caminho dos Nightmares on Wax, banda na qual explorou uma aproximação a estéticas góticas, que se mantiveram ainda evidentes quando, depois de 1980, a banda muda de nome para Dead or Alive, estreando-se nos discos logo nesse ano com single I’m Falling. A banda era nessa altura composta por cinco elementos, entre os quais Steve Coy (que acompanharia todas as etapas da sua história ao lado de Pete Burns) e Wayne Hussey, o guitarrista, que anos depois formaria os The Mission (que têm nesta etapa dos Dead or Alive um evidente antecessor).

A descoberta de novos encantamentos pelo som da música de dança que por aqueles dias ganhava forma nas noites de Nova Iorque levou os Dead or Alive a afastar-se progressivamente das guitarras, assimilando pistas do electro e do hi-nrg, que transformam radicalmente o seu som quando, em 1984, editam o belíssimo álbum de estreia Sophisticated Boom Boom, no qual integram uma versão de That’s The Way I Like It dos KC & The Sunshine Band, que lhes dá um primeiro êxito maior. Deste disco vale contudo a pena evocar peças mais visionárias como Do It, I’d Do Anything, Wish You Were Here ou What I Want, pelas quais passam as heranças da dance music norte-americana de então acima referidas, ou Misty Circles, o single de 1983 que expressa os sinais de transição de uma antiga etapa gótica e abre terreno ao som que o álbum depois coloca em cena.

Caberia contudo ao passo seguinte o momento da revelação. Uma nova canção levantava possibilidades que a banda quis explorar junto de um novo trio de produtores que, em 1984, tinha revelado, entre singles como You Think You’re a Man de Divine ou Whatever I Do (Wherever I Go) de Hazel Dean, uma abordagem eficaz e empolgante à pop por vias da assimilação de pistas do som hi-nrg (este com berço nas noites de San Francisco como herdeiro natural do disco, em finais dos anos 70). É assim que surge You Spin Me Round (Like a Record), que dá ao trio de produtores o seu primeiro número um e abre terreno para fazer do álbum Youthquake, também criado sob a mesma parceria em estúdio, o momento de maior sucesso discográfico da história da banda, continuando o impacte do single de apresentação com os subsequentes Lover Come Back To Me, In Too Deep e My Heart Goes Bang.

A carreira dos Dead or Alive não seria contudo capaz de resistir às armadilhas que por vezes o sucesso coloca em frente a um momento de impacte global. Em 1986 o álbum Mad, Bad and Dangerous to Know, ainda produzido pelo mesmo trio, pouco juntou ao que antes fora dito, deixado de memorável apenas o single Something In My House. Depois seguiu-se um apagar gradual da imaginação e do consequente impacte dos discos. O autoproduzido Nude (1989) revelou os últimos sinais de relacionamento com uma plateia global. Os já inconsequentes Fan The Flame (Part 1) (álbum de 1990 que já só teve edição no Japão, onde Pete Burns não perdeu nunca o estatuto de pop star), Nukleopatra (1995) e Fragile (disco de 2000 com inéditos, regravações e remisturas) passaram longe das atenções.

Apesar de nunca terem desativado os Dead or Alive, depois da viragem do milénio Pete Burns e Steve Coy pouco acrescentaram à sua discografia além de reedições e remisturas, algumas com algum impacte mediático causado pela exposição televisiva conquistada pelo vocalista, entretanto feito estrela da reality TV.

A par com a televisão e com a manutenção do nome Dead or Alive, Pete Burns abriu pontualmente espaço a uma discografia a solo, tendo em 2004 lançado o single Jack and Jill Party, criado em parceria com os Pet Shop Boys, ao qual se seguiu, em 2010, Never Marry an Icon. Em 2014 apresentou o álbum de remisturas Sex Drive 2014 Remixes.

Um relato autobiográfico da sua vida pode ser lido em Freak Unique, livro que publicou em 2006 e no qual, além da música e da exposição mediática, refere também episódios de uma vida pessoal que recuam à história dos pais (ela uma judia alemã que escapara às perseguições do regime nazi, ele, um soldado inglês) que se conheceram em Viena, num chá dançante.

Para esta semana estava há muito agendada a edição de uma mega-antologia integral. Em versões de CD e vinil, Sophisticated Boom Boom MMXVI surgirá no mercado na sexta-feira e lembrará certamente a muitos os momentos maiores que Pete Burns criou sobretudo em meados dos anos 80.

Na hora da despedida, uma das mais fortes declarações de despedida foi dita por Boy George ao Guardian, descrevendo Pete Burns como um “dos grandes verdadeiros excêntricos”. Quem ouvir os seus discos de 1984 e 1985 e lembrar os telediscos que os acompanharam saberá porquê.

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