Últimas notícias

A idade da transparência

Texto: ANDRÉ LOPES

Ao quinto álbum Lady Gaga faz de tudo para garantir um teor de honestidade naquele que consegue ser o disco mais sóbrio da sua carreira até ao momento.

Refletir sobre Lady Gaga implica a compreensão de um trajeto vitorioso por entre as valências de uma pop predominantemente eletrónica, inicialmente formulaica em The Fame (2008) mas que sabiamente se sobre propagar cercando-se das sonoridades certas. Por alturas de The Fame Monster (2009) uma sequência inesquecível de singles marcou a viragem da década por via do fulgor atingido no cruzamento entre música de dança e a electropop. Lady Gaga era então mais: para além das canções, o forro imagético de que cada lançamento novo era provido comprovou uma lição bem estudada no que diz respeito à maximização de impacto mediático e à propagação de uma estética própria. Eventualmente, a reação (ora perplexa ora desinteressada) do público face ao tumulto de ARTPOP (2013) terá motivado alguma reflexão sobre sobre a vitalidade de uma obra que insiste numa premissa de excentricidade mais estimulante visualmente do que a nível do som. Após um período de pausa pontuado pela edição de um disco de standards de jazz com Tony Bennett, Joanne formula um testemunho sobre noções de honestidade criativa, alcançada aqui com o apoio de sonoridades country com a folk por perto.

Sob a pretensão que a instrumentalização acústica gera por si só em canções com mérito superior ao que se obtém com recurso a eletrónicas, esta musicalidade (se quisermos muito) americana soa por aqui mais do que postiça, paradoxalmente artificial. Quando em 1975 Bowie transitava entre o glam rock e a afamada soul plástica no seio da qual construiu Young Americans, contemplava-se um artista que, ciente da importância do processo de construção de personagens, se apropriava de uma sonoridade alheia de forma quase visceral. Por seu lado, Joanne traduz-se mais facilmente como mais uma face de uma personalidade dinâmica. E é à distância do valor da palavra “genuinidade” que podemos valorizar o quinto álbum de Lady Gaga.

Mark Ronson e Bloodpop foram os responsáveis por uma produção que realmente surte efeito nas composições com arranjos mais expansivos. Dancin’ in Circles, Sinner’s Prayer e Come to Mama têm uma luminosidade quase fílmica. Apostando num baixo proeminente ao longo do alinhamento, a produção de Mark Ronson não assegura resultados tão seguros nos momentos mais ruidosos de Joanne: tanto Diamond Heart como Perfect Illusion sofrem de um desajuste que minimiza as guitarras de Josh Home e desperdiça o trabalho de Kevin Parker nas teclas. Já a faixa que dá título ao álbum indica precisamente aquele que é um dos melhores momentos de Lady Gaga em estúdio, por via de uma canção acústica onde escutamos a artista a cantar com uma transparência inédita.

No seu todo, Joanne prevalece como o resultado de um esforço propositado para revelar uma nova faceta de Lady Gaga que clama agora pela integridade artística, após a experiência de mediatismo extremo durante anos consecutivos. A causa pode parecer nobre, porém esta ambição acarta consigo o risco evidente de uma perda de admiradores da vertigem pop de singles como Bad Romance ou Marry the Night. Na verdade, Joanne é um disco que salienta o conflito entre a expectativa do público e a motivação de quem cria, sendo nessa mesma fronteira que faixas como John Wayne e a versão alternativa de Angel Down se dirigem para um ponto médio que mantém o vigor criativo de quem já escutámos canções mais desafiantes do que o que nos é apresentado aqui.

Lady Gaga
“Joanne”
Universal
★★★

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: