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Memórias da escola (num lugar diferente)

Texto: NUNO GALOPIM

O segundo volume da série “O Árabe do Futuro” recorda memórias do tempo em que o autor entrou na escola, num tempo em que a família vivia na Síria. Ecos do quotidiano de então e os métodos de ensino são peças centrais nesta narrativa.

Com um primeiro volume distinguido em Angoulême, o que quer dizer que nasceu com o mais cobiçado prémio na área da BD, a série O Árabe do Futuro está-nos a contar, aos poucos, a história da infância do seu autor. Riad Sattouf é filho de mãe bretã e de pai sírio (conheceram-se quando ele fazia os estudos universitários em França), e é também conhecido pelo seu trabalho em cinema – é o realizador de Les Beaux Grosses, que entre nós estreou como Uns Belos Rapazes. No primeiro volume, que a Teorema lançou entre nós há cerca de um ano, o tutano dos acontecimentos expressavam a memória dos choques culturais que a família sofreu quando o pai, que estudara em França, encontrou um lugar como professou na universidade em Tripoli (Líbia) e, depois, nova colocação desta vez perto da sua cidade natal, na Síria.

A ideia de Riad Sattouf era logo ali a de juntar aqui as suas mais vivas memórias desses dias, daí a profusão de marcas olfativas, auditivas e visuais, que guardou em si, o que dispensou de ter de consultar as coleções de fotografias dos pais ou ter se encadear uma série de entrevistas com os familiares. E, por ser contada através do ponto de vista de um muito jovem Riad, a história não só transportava logo no volume inicial toda a carga de surpresas que os costumes novos levantavam, como os desenhos mostravam um ponto de vista mais próximo do chão do que o que é habitual no olhar de um adulto.

Agora publicado entre nós, o segundo volume ocupa-se todo ele de um tempo em que, entre 1984 e 85, então com seis anos de idade, Riad chega à escola. E ali não só vivemos um novo confronto cultural, como somos colocados perante as prioridades da pedagogia tal e qual eram definidas pelo regime sírio, então conduzido pelo pai do atual presidente. A figura de poder (e de castigo) da professora, a valorização do patriotismo e dos textos religiosos sobre o próprio programa de ensino da escrita e da leitura são apenas um entre os focos de atenção da narrativa.

Há contudo episódios de memórias além da escola. E uma vez mais Riad mergulha nos comportamentos da ética familiar, que nota uma clara separação de tarefas, espaços e protagonismos entre o mundo dos homens e o das mulheres. A relação entre a escassez de bens local e a abundância em França (onde vão em férias) e a hierarquia estabelecida pelas figuras de poder que se cruzam com o pai de Riad são também matéria prima devidamente explorada. Tem depois particular impacte a recordação de uma visita às ruínas de Palmira, momento que ganha outro peso depois dos acontecimentos que, sob ocupação jiadista, ali aconteceram no ano passado.

Um terceiro volume está já publicado em França, recordando acontecimentos ocorridos imediatamente após os que se revisitam neste volume 2, e que nos transportam para o período entre 1985 e 1987.

“O Árabe do Futuro 2 – Ser Jovem No Médio-Oriente 1984-1985”, de Riad Sattouf, é um volume de 158 páginas que acaba de ser publicado pela Teorema, com tradução de Helena Guimarães

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