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A música (pop) de câmara de Agnes Obel

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de primeiros discos promissores, no novo “Citizen of Glass” a dinamarquesa Agnes Obel conquista definitivamente um lugar na linha da frente de um lugar onde a canção pop se dilui nas fronteiras da música de câmara.

É dinamarquesa, e cresceu numa casa em que um pai colecionava instrumentos (tinham xilofones, contrabaixos) e uma mãe tocava, ao piano, peças de Chopin e Bartók. Estudou piano, teve um breve papel num dos primeiros filmes de Thomas Vinterberg, tocou em bandas, trabalhou num estúdio de gravação e desde 2005 encontrou em Berlim (onde ainda hoje reside) um ambiente de trabalho que lhe pareceu mais estimulante que o de Copenhaga.

Aos 31 anos apresentou-se finalmente em disco em nome próprio com Philharmonics, que cativou os dinamarqueses e criou primeiras ressonâncias para lá daquelas fronteiras. Aventine, o seu segundo álbum, partiu onde esse primeiro disco a deixara, levando-a ainda mais longe. O disco, que abria ao som de Chrord Left, um tema instrumental iluminado por ecos da memória da música de Erik Satie, confirmava um quadro de heranças, transportando-nos depois para uma sucessão de canções breves e delicadas, onde a voz tinha no piano o seu principal parceiro, os arranjos abrindo depois discretos espaços que acolhem as presenças de cordas.

É contudo agora, ao terceiro álbum, que estas duas promessas antes feitas se assumem na plenitude num disco que, se por um lado aceita todo este conjunto de genéticas como parte da sua linguagem, por outro expressa já claramente a afirmação de uma identidade autoral, que se revela num conjunto de peças que parecem poder dar continuidade às visões de pontes entre heranças clássicas e o território da canção popular como fomos escutando em ciclos de canções de Philip Glass, Owen Pallett ou, mais recentemente, Nico Muhly. As contribuições instrumentais ricas em timbres e cores, assim como um trabalho vocal que sabe entender uma noção de espaço, mostra em Citizen of Glass uma figura a ter já em conta no panorama mais eloquente e pessoal da música popular atual, naquele território onde as fronteiras se diluem e dissipam, tal como sucede com uma Julianna Barcwick ou um C Duncan. Sim, o disco é coisa gourmet a esse ponto. E um dos grandes discos desta reta final de 2016.

Agnes Obel
“Citizen of Glass”
PIAS/Edel
★★★★

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