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A obra-prima dos XTC (e o que aconteceu nos bastidores)

Texto: NUNO GALOPIM

Lançado originalmente em 1986, o álbum “Skylarking” transportou os XTC para o plano de um classicismo herdeiro de memórias dos Beatles e dos Kinks, revelando aquele que seria o momento mais inspirado de toda a sua discografia.

A euforia pós-punk, que herdara o viço da revolução punk na segunda metade dos anos 70 já tinha dado lugar a uma multidão de descendências entretanto lançadas em várias frentes. E os XTC, militantes de peso dessas movimentações originais, tinham vivido os seus momentos de glória (no departamento da popularidade) ora com Making Plans For Nigel ainda nos setentas ou, um pouco depois, com os álbuns Black Sea (1980) e English Settlement (1982).

As coisas tinham contudo começado a mudar internamente. Tal como os Beatles o haviam feito em meados dos sessentas, também os XTC resolveram abandonar os palcos para se concentrar numa nova existência como banda de estúdio, opção que teve como primeira expressão o álbum Mummer (1983) que denunciava olhares rumo a terrenos mais pastorais, afastando-se da ebulição urbana em que a sua música antes nascera, num processo que lhes custa contudo a saída do baterista que os acompanhava desde o início. Sem vontade de cristalizar uma nova identidade logo à primeira experiência, mudam de artes no som de The Big Express (1984) e, novamente, e desta vez até sob um novo nome (The Dukes of Stratosphear), editam depois 25 O’Clock (1985).

É nesse momento que resolvem novamente reequacionar o seu futuro. E encontram a resposta num desafio a Todd Rundgren, que aceita produzir o álbum mas os obriga a fazer as malas e a cruzar o atlântico. E assim, uma banda fulcral da história pós-punk made in UK ia viver a sua aventura americana. Para, contudo, dela sair com o disco mais britânico da sua obra. E também o seu melhor.

Com um currículo na produção que passa por discos de nomes como a dupla Hall & Oates, os Meatl Loaf, New York Dolls ou os The Band, Todd Rundgren revelava contudo uma admiração tremenda pelas memórias da pop britânica mais elaborada criada na segunda metade dos anos 60, nomeadamente a que conhecera álbuns de referência em discos dos Beatles, Kinks ou Pink Floyd (fase Syd Barrett)… Foi precisamente aí que o produtor e a banda encontraram o ponto de entendimento no cruzamento de ideias e referências que os levaria a Skylarking que se afirmaria como um dos discos mais claramente influenciados pelos tempos em que os Beatles começaram a lançar desafios a outras dimensões, procurando outros patamares de complexidade.

O exotismo das cores de Grass (e aqui piscamos um olho a George Harrisson) – canção que valeu aos XTC o entusiasmo do citcuito das college radios americanas – e o tom igualmente beatlesco de canções como The Meeting Place ou Ballet For a Rainy Day, sem esquecer a dimensão barroca do magnífico Sacrificial Bonfire, são apenas alguns episódios entre um álbum de travo classicista no qual a composição está dividida entre a pena de Andy Partridge e a de Colin Moulding e que, trinta anos depois, sugere aquela rara sensação de não ser peça de um tempo específico. Ganhou uma dimensão atemporal. E sabe tão bem como o sabia quando, na altura, nos deixou surpreendidos com os caminhos que a banda estava a tomar…

Para os conhecedores da obra dos XTC este é um reencontro saboroso. Para quem não os conhece esta reedição pode ser uma bela surpresa. O álbum surge numa nova mistura e masterização no CD, que inclui algumas faixas extra, entre as quais o single Dear God. O Blu-ray que completa a edição acrescenta não apenas imagens, mas maquetes e gravações que ajudam a compreender o percurso em estúdio que as canções foram tomando ao longo das sessões com Todd Rundrgren, assim como remisturas com a polaridade corrigida.

“Slykarking”, dos XTC, acaba de ser editado numa edição comemorativa do seu 30º aniversário, num lançamento (CD+Blu-ray) pela Ape House.

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