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A triste família

Texto: NUNO CARVALHO

O que está em causa em “Tão-Só o Fim do Mundo” é o pessimismo antropológico, a consciência lúcida, realista e dolorosa de que o amor humano é sempre condicional e muitas vezes intoxicado por emoções mesquinhas e sonsice vingativa.

Parece que, no caso de Tão-Só o Fim do Mundo, o novo filme de Xavier Dolan, a crítica se uniu e afinou pelo mesmo diapasão de opinião. O vaticínio da esmagadora maioria dos opinadores é que estamos perante uma obra medíocre e que o realizador quebequense só é bom no seu próprio terreno, ou seja, quando é ele o autor do argumento. Acontece que um dos seus filmes anteriores, Tom na Quinta, tal como este, era uma adaptação de uma peça teatral e Dolan não se saía mesmo nada mal. Este novo filme, que ganhou o Prémio do Júri em Cannes, não é tão bem conseguido, mas dizer que é uma desgraça é um manifesto exagero.

Adaptação da peça homónima do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce, Tão-Só o Fim do Mundo centra-se num premiado dramaturgo que regressa a casa após mais de uma década de ausência para dizer à família que tem uma doença terminal e está a morrer. Gaspard Ulliel interpreta o escritor, que tem de enfrentar sentimentos de ressentimento e dor da parte da família, constituída pela mãe, uma “viúva alegre” e sabedora (interpretada com intensidade por Nathalie Baye), a sua irmã Suzanne (Léa Seydoux), que parece respeitar e admirar aquilo que Louis atingiu, e o irmão Antoine (Vincent Cassel), um homem de poucas falas que reconhece que nem sempre uma pessoa calada é um bom ouvidor e que não pretende mascarar o vazio que cresceu entre ambos.

Como observou Peter Bradshaw, no The Guardian, Tão-Só o Fim do Mundo é um filme profundamente pessimista em relação à família. Mostra-a não como um lugar de acolhimento, apoio e reconciliação, mas sobretudo como uma entidade revanchista, ressentida, invejosa e recriminatória. No fundo, o que está em causa neste drama sobre a disfunção familiar é um certo pessimismo antropológico, a consciência lúcida, realista e dolorosa de que o amor humano é sempre condicional e muitas vezes intoxicado por emoções mesquinhas e sonsice vingativa. Dolan filma quase tudo em grandes planos dos rostos dos atores (um elenco de luxo), o que contribui para lhe conferir uma atmosfera claustrofóbica e opressiva, bem como a sensação de estarmos a assistir a uma peça de câmara (e em que a câmara está presa num reduto bastante limitado, o que traduz bem o clima mental de opressão e depressão do protagonista).

“Tão-Só o Fim do Mundo”
de Xavier Dolan
com Nathalie Baye, Vincent Cassel, Léa Seydoux, Marion Cotillard

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