Últimas notícias

Vidas mais que perfeitas

Texto: NUNO GALOPIM

A magnífica apresentação de três das sete partes de “Perfect Lives”, de Robert Ashley, esta semana, no Teatro Maria Matos, revelou nos Matmos um perfeito veículo para que a obra do compositor desaparecido em 2014 possa continuar a viver.

Foto: José Frade

Toda a história da música se faz de uma relação do autor com aqueles que o escutam, com intérpretes como veículo dessa comunicação. Salvo naquelas obras que o tempo engole e esquece, aos intérpretes de gerações seguintes cabe o papel de evitar que essa fome do esquecimento se exerça sobre as obras, garantindo também a quem ouve que a vida da música ali se renove e continue a perpetuar. O que vimos, esta quarta-feira, no Teatro Maria Matos (Lisboa) foi contudo mais do que uma prova de vida de Perfect Lives, a ópera multimédia que Robert Ashley criou entre 1978 e 1983. Interpretada pelos Matmos, juntamente com duas cantoras, um pianista e cinco instrumentistas de cordas, a ópera (da qual escutámos o primeiro, quarto e sétimo atos) não só respirou vida como ganhou novo corpo, sentido e contemporaneidade.

Esta ideia é particularmente vincada pelo viço das eletrónicas e do próprio sentido de encenação que acompanhou Part IV – The Bar, o segmento intermédio, ao qual os Matmos juntam uma dimensão de vivência pessoal que confere àqueles momentos um sentido de verdade atual, mesmo estando o texto e a própria musica despidos de uma vontade de encontrar âncoras de tempo para que aquelas histórias do quotidiano afinal possam fazer sentido.

Ao longo da história coube a vários grandes intérpretes ser vozes marcantes na construção de uma relação firme de tempos seguintes com as memórias de compositores que nos deixaram. Tal como David Oistrakh deu ao Concerto Para Violino e Orquestra de Tchaikovsky a sua melhor “voz” viva bem depois do desaparecimento do compositor ou em Leonard Bernstein conhecemos o primeiro grande responsável pela recuperação da obra de Mahler para o repertório das orquestras sinfónicas, podemos ver nos Matmos grandes embaixadores do legado da obra de Robert Ashley. E, dois anos depois da sua morte (e do momento que os obrigou a tomar o seu lugar para cumprir um compromisso), esta visão tão viva e pessoal de Perfect Lives justifica ser o principio de algo maior que, daqui, possa depois nascer. Um disco, para já, nem era má ideia…

A afinidade entre os dois músicos norte-americanos e o compositor é antiga e ficou evidente não apenas no que vimos em palco mas também pelo que me disseram, antes, em entrevista publicada no Expresso. Ali contavam: “Robert Ashley é um compositor e nós fazemos uma música eletrónica estranha, muitas vezes usando sons primariamente não musicais… Não é intuitivamente óbvio onde possa haver uma ligação. Mas quando começámos os Matmos a música que mais estávamos a ouvir então era a dele. E havia uma canção chamada Massage The Brain, que tinha um sample com a voz do Robert Ashley a dizer essa expressão num bar, tirada do Perfect Lives. Há aí uma relação, com a diferença de que não estamos a samplar, mas a interpretá-lo. E é tão divertido quanto assustador.”

Sobre a forma de identificarem Perfect Lives como uma ópera, afirmaram, ainda nesta mesma conversa, que, antes de tomarem o avião, contaram aos nossos familiares que vinham à Europa apresentar uma ópera “e eles tiveram aquela visão incrível de umas perucas luxuriantes”… Robert Ashley, como ali comentam, “levou a ópera a um ponto em que pensou nesta ideia de ópera para televisão, que envolve uma experiência multimédia”. Esta é “uma peça longa, e envolve voz” pelo que, “se pudermos reduzir a isso o DNA de uma ópera, então, sim, isto é uma ópera”. Não o é, sublinham, “como um Monteverdi a terá entendido, mas somos todos filhos da cultura dos anos 50 e 60 em que as regras que definem o que as coisas são eram como uma camisa de forças, que tivemos depois de rasgar”. A ópera de Robert Ashley “faz até pensar em hip hop, na cadência rítmica e há ali tanta informação musical lançada sobre o ritmo, mas essa presença do ritmo sob a fala”. Steve Reich, como notaram, “explorou isso em Different Trains”. Ashley “teve muita cautela com a prosódia das frases”. E essa, avisaram ainda antes da apresentação, é uma das suas “maiores preocupações”, no sentido de evitar que façam “uma imitação à karaoke da música dele”.

Continuando a falar da sua relação com Ashley, observam que “uma das grandes questões que esta obra levanta é o saber se pode ser tocada sem ser por ele”. Sem surpresa dizem que sim. E que foi por isso que a começaram a fazer. De resto, o que os “fez acreditar nisso” foi o facto de terem “reparado que cada versão de uma gravação de música sua é diferente. É flexível… Adaptável”. E houve até uma ocasião em que ele mesmo os foi ver: “E não se fez anunciar… Sentou-se à nossa frente… Estávamos a imitá-lo… Foi assustador… Mas no fim pegou-nos nas mãos e disse que tinha sido bom! E se ele disse que estava bom, então é porque estava… A mulher dele, que é quem agora gere o seu legado, também parece que aprova o que estamos a fazer. Ela mesmo nos disse que ele sempre gostava que os outros pudessem cantar as suas canções!” Lá está!

Podem ler aqui a entrevista publicada no Expresso.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: