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Lucky Luke e outros heróis, tempos e lugares para ver na Amadora BD

Texto: NUNO GALOPIM

As exposições patentes no Fórum Luís de Camões são um dos motivos centrais para uma visita à 27ª edição da Amadora BD. De memórias e reflexões sobre a história da nona arte a novos livros que fazem o presente, há ali motivos para uma bela e longa visita.

Lucky Luke - 70 Anos. Amadora BD 2016 27.º Festival Internacional de Banda Desenhada

De visita ao núcleo central da 27ª edição da Amadora BD (que decorre até dia 6 de novembro), no Fórum Luís de Camões (na Brandoa) não usem o modo contrarrelógio. Há tantas e tão boas exposições que pedem tempo, o gosto e a afinidade de cada um de nós pelos géneros, traços, personagens ou narrativas, acabando até por ser critério secundarizado na hora de caminhar ora entre as exposições que circundam o espaço central da feira do livro ou as que compõem o percurso no piso inferior.

Comecemos pelo piso superior. Entramos no circuito com um conjunto de pranchas de Zombie, de Marco Mendes (lançado pela Mundo Fantasma em 2015), livro que reafirmou uma voz já plena de personalidade no panorama da BD nacional. Ali perto abre-se depois espaço aos dos percursos retrospetivos desta edição.


“Zombie”, de Marco Mendes

O Espaço e o Tempo na BD, que define o rumo temático central da Amadora BD deste ano, revela uma sugestão de mergulho no universo da banda desenhada através de obras de vários autores, notando precisamente as relações com os lugares e a noção de tempo com que as narrativas e as imagens lidam, observando frequentemente ligações possíveis com os universos do cinema. A casa e a cidade definem relações cénicas que muitas vezes cruzam interesses dos autores de BD com a arquitetura, daí um destaque particular atribuído a Building Stories de Chris Ware, do qual se lembra ali que “o título é revelador da analogia entre história e construção” e que há nesta obra “uma analogia visual e formal evidente, bem como uma intenção narrativa comum, entre os quadradinhos e as divisões das páginas-edifício” ali presentes.

A ideia da viagem alarga em muito os universos cénicos pelos quais as histórias caminham. E aqui temos exemplos determinantes em casos como Corto Maltese de Hugo Pratt ou Tintin, de Hergé. A viagem, expansão, a exploração geográfica são, de resto, entendidas como “um dos primeiros sinais da modernidade” na BD. Há contudo características curiosas que a exposição observa já que, “enquanto que a maioria dos heróis e heroínas europeus viaja e regressa, os norte-americanos estão fixos nas suas cidades, e os asiáticos criam o seu próprio mundo em devir”. E descendo ao concreto, o texto da exposição acrescenta que “Tintim, Spirou, Astérix, Blueberry, Blake & Mortimer e Alix deslocam-se para viverem aventuras, enquanto que o Super-Homem, Super-Mulher ou Homem Aranha, entre outros, vivem e agem nas suas cidades.

Nos 500 anos da Utopia de Thomas More, a exposição toma essa referência não só para apresentar um mapa de uma ilha na qual se localizam utopias e distopias da BD, como acrescenta um mapa mundo e uma carta do espaço, na primeira projetando viagens de Tintim, Astérix, Corto Maltese, Jonathan e Alix (o mais viajado de todos, como ali se observa), no segundo apontando as deslocações no espaço das séries Yoko Tsunoi, Valérian e Laureline, Flash Gordon, Saga e as deambulações de Moebius e das personagens que criou.

Na reta final da exposição há todo um conjunto de observações sobre o tempo, quer entendendo o modo como o desenho sugere a sua evolução no decurso da ação, quer no sentido macro da relação com as personagens notando como muitos heróis, como Tintim, nunca envelhecem e até que Blake & Mortimer, sobretudo nos volumes posteriores à morte de Jacobs, parecem “não querer sair” dos anos 50.

O percurso desta exposição leva-nos diretamente a uma sala que celebra os 70 anos de Lucky Luke. Ali somos recebidos pelo herói, os irmãos Dalton e o sempre adormecido Rantanplan, assim como um conjunto de desenhos, pranchas, velhas reportagens em revistas e os álbuns mais recentes publicados entre nós.


“Democracia”, de Alecos Papadatos e Abraham Kawa


“Papá em Africa”, de Anton Kannemeyer


“O Tempo do Gigante” de de Carmen Chica e Manuel Marsol

O piso inferior acolhe uma série de (magníficas) exposições temáticas centradas em álbuns de edição recente. Democracia, dos gregos Alecos Papadatos e Abraham Kawa, que a Bertrand acaba de publicar (com lançamento feito ali mesmo há cerca de uma semana e contando com a presença dos autores), é apenas um dos destinos possíveis de um conjunto de salas decoradas em função do traço, cores e ambientes de cada livro que representa.

Merece algum tempo uma passagem pelos universos de sátira corrosiva de Papá em África, de Anton Kannemeyer, sobretudo porque o livro está esgotado e hoje em dia há quem peça uma soma nada meiga por um volume… A pequena antologia (sim, o tamanho do livro é mesmo coisa de quase esconder numa mão) Crumbs dá outra dimensão às pranchas que publicou. E entre outros pontos de interesse, entre os quais uma coleção dos lançamentos do último ano editorial entre nós, vale a pena visitar o universo criado em volta das ilustrações de Manuel Marsol para
O Tempo do Gigante
, numa sala que inclui já referências ao novo Ahab e a Baleia Branca, que ali será apresentado na próxima semana.

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