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Os filmes do DocLisboa 2016

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

Estamos a acompanhar a edição deste ano do festival DocLisboa, que hoje termina com a reposição de alguns dos títulos premiados. Podem ler aqui sobre os filmes que foram ali apresentados ao longo destes últimos dias.

“A German Life”
de Christian Krönes, Olaf S. Müller, Roland Schrotthofer e Florian Weigensamer

O que há ainda por dizer sobre o Holocausto? A German Life responde: através do depoimento de Brunhilde Pomsel, estenógrafa de Goebbels e que acompanhou a guerra até aos últimos dias dos líderes do Terceiro Reich, é-nos dada uma visão diferente daquele tempo. Uma personagem contraditória, que pela forma como recorda aquele período, parece nunca ter saído dele e ter permanecido sempre com a consciência inconstantemente em sobressalto quanto ao que presenciou – e que, afirma ela, só entenderia realmente anos depois do fim do Holocausto.

Afinal, ainda nos falta descobrir muita coisa, e testemunhos como este só aprofundam a complexidade do sistema criado por Hitler, que pegou na ignorância das massas para ascender meteoricamente ao poder. Aqui podemos olhar o nazismo na perspectiva daqueles que o viveram todos os dias, como uma coisa normal, sem as consequências graves para a Humanidade que, na atualidade, tão bem conhecemos. Com ou sem banalidade do mal, talvez este seja o modo mais terrível, e mais intenso, de se olhar para estas marcas do passado.

A estrutura previsível do documentário, que se divide entre momentos da entrevista a Brunhilde, citações e imagens de arquivos de fontes mais ou menos conhecidas do público, desfaz-se pelo horror do que vemos e pelas palavras que escutamos. Pomsel parece ter medo, e não ter, ao mesmo tempo, de todos os fantasmas que ainda hoje a perseguem, e não conseguimos realmente entender em que lado é que ela se encontra hoje. Enquanto vemos os nacionalismos a recrescer, é bom recuperar esta história, e perceber que já estivemos mais longe de um risorgimento de todos os males do nazismo.

“Nos Interstícios da Realidade ou O Cinema de António de Macedo”
de João Monteiro

Quem ainda se lembra de António de Macedo? Contrariando o esquecimento dominante, Nos Interstícios da Realidade é um documentário que celebra a obra do cineasta, devolvendo-lhe o interesse cultural esquecido pelos cinéfilos, os estudiosos de cinema e os próprios realizadores. João Monteiro recupera, e bem, o cinema de António de Macedo, juntando entrevistas aos seus colegas, amigos e familiares, e materiais das várias épocas que foram marcadas pelos seus filmes.

Desde as polémicas com as instituições às divisões entre as duas “facções” do cinema português, o filme traça o percurso de Macedo com um olhar atento a toda a conjuntura que rodeou a feitura de cada um dos títulos mais emblemáticos da sua filmografia (como o inovador Domingo à Tarde, o estrondoso êxito Os Abismos da Meia Noite, e passando ainda por A Promessa, Sete Balas Para Selma e muitos outros). Os primeiros filmes têm direito a uma maior exposição do que as derradeiras obras do cineasta, mas é um deleite constante ir (re)conhecendo, do princípio ao fim do filme, algumas cenas icónicas (pelas razões mais distintas) e ouvir as histórias hilariantes que recordam as dificuldades de rodar filmes com baixo orçamento. Macedo nunca deixou que o dinheiro o proibisse de usar a imaginação e ter vontade de arriscar, mesmo sabendo que o resultado final, dadas as circunstâncias e os constrangimentos da falta de meios, pudesse não ser o esperado. Mas Macedo tentou sempre contrariar esta situação, como poucos o quiseram – e Monteiro faz uma bela homenagem ao cineasta que sempre se reinventou, mesmo quando já não conseguia angariar apoios para novos projetos.

A ideia de uma conspiração à volta de Macedo, levantada pelo filme e pelos testemunhos que vamos ouvindo, até poderia ser inusitada, se o desprezo pela obra do autor não continuasse, ainda hoje, a perdurar. Vários indivíduos bem pensantes da contemporaneidade lançaram mau olhado a este projeto, e alguns até compararam Macedo (errada e injustamente) a alguns realizadores do chamado realizador comercial/chunga dos tempos portugueses modernos. À falta de uma ideia de diversidade dentro do cinema português, que não se resuma aos dois pólos cliché a que estamos habituados a associar-lhe (que, em termos muito básicos, dizem que em Portugal só podem filmar ou o Pedro Costa ou o Leonel Vieira), junta-se uma falta de respeito pelo realizador.

Gostando ou não da sua obra, é um ato criminoso esquecê-lo/apagá-lo entre os seus pares, tanto por causa dos seus filmes mais famosos (e, arriscamo-nos a dizer, vanguardistas) como os objetos de culto. Nos Interstícios da Realidade mostra como o nosso patrmimónio faz-se de muitas mais coisas do que aquelas que nos querem impingir, e que é preciso conhecermos, ou pelo menos termos acesso a todo o cinema português. Continuar a não dar acessibilidade aos filmes deste e outros cineastas só nos torna culturalmente mais pobres e desconhecedores das várias direções e estilos distintos que podemos encontrar nesses filmes.

Ganhamos uma nova maneira de contemplar as agruras de um coletivo de realizadores em constante discórdia, percebendo que Macedo estava muito longe disso – ele só queria fazer filmes, mas como não se encaixou em nenhum grupo “aceitável” deste meio tão pequeno, acabou por desaparecer. Está nas mãos dos espectadores recuperar a sua obra e julgá-la, para o bem e para o mal – porque só assim é que se compreende a visão de um cineasta, não pelo que se disse ou se criticou sobre os seus filmes na altura da estreia.

Monteiro constrói o seu filme fora dos olhares estereotipados e parciais com que muitos olham o legado dessa geração, dividindo-a e estratificando-a de forma ingrata e elitista. Movimentamo-nos entre os filmes tão diversos que Macedo realizou, conjugando-os com a realidade portuguesa, e os efeitos obtidos naquilo a que se pode chamar de “cinema português”, sem recorrer à perspetiva escolástica que pouco aprofundou realmente os meandros da História deste “nosso” cinema.

E é por isso que, mais do que um documentário sobre António de Macedo, Nos Interstícios da Realidade é o filme sobre a geração do Novo Cinema que precisava de ser feito.

“Liberami”,
de Federica di Giacomo

Numa era em que os exorcismos podem ser feitos por telemóvel (como atesta uma cena hilariantemente ridícula deste filme), e quando o “flagelo” das possessões está a aumentar “vertiginosamente” (ou pelo menos é o que nos adiantam as informações inseridas no desfecho), Liberami parece querer ser um documentário muito aprofundado e real sobre as possessões e os exorcismos no século XXI. Não sabemos o que Federica di Giacomo queria mesmo tirar daqui, mas nada consegue passar de um olhar acidentalmente hilariante, e pouco ou nada documental, sobre um tema tabu.

A tentativa de tornar sérias estas questões surge, mais uma vez, desaproveitada – talvez porque não nos dão realmente razões de que atirar cadeiras ao ar, fazer vozes esquisitas e tremer da cabeça aos pés, possam ser sinónimo de um fenómeno grave que assola o mundo. E não é só isso que falha, mas a assumida convicção do filme achar ser muito fácil convencer os espectadores da sua “verdade”, quando, para além do ridículo que é filmado, um rápido olhar técnico consegue desacreditar tudo o que vemos (tanto os movimentos de câmara, como a montagem demasiado aperfeiçoada, e a medíocre construção da “narrativa” que segue padres exorcistas e várias pessoas possuídas).

A única coisa interessante de Liberami é que mostra como os demónios só são criados em ambiente de crentes e crenças, entre o desespero e a confusão mental de pessoas que confundem o que é místico com tantas outras coisas humanas. Fora isso, não temos aqui mais do que, pura e simplesmente, uma hora e meia de reality TV, cujo “realismo” é ultrapassado, aos pontos, pelos filmes famosos que abordaram a mesma temática – O Exorcista consegue ser mais credível do que isto.

“A Road”
de Daichi Sugimoto

Filmado com parcos recursos, A Road é um filme singelo, realizado por um estudante de cinema, com intenções básicas que são fragilizadas por uma notória falta de domínio dos recursos, e que acaba por ser mais um filme feito por amigos e para amigos de Sugimoto do que para o público.

No entanto, vale a pena valorizar a simplicidade e a ingenuidade da primeira obra deste jovem. O seu olhar inocente, com alguns momentos de maior relevância, ao meio em que vive, não é tanto um documentário “verdadeiro”, mas uma ficção em contínua construção, com toques de realidade, filmada com meios caseiros. É com as falhas que se aprende a ir mais longe, e talvez, daqui a umas décadas, e com uma carreira de sucesso já bem construída, Sugimoto volte a olhar para este A Road e descobrir como cresceu – e nós também poderemos fazer esse exercício, se continuarmos a ter acesso aos seus filmes.


 
“By Sidney Lumet”
de Nancy Buiski

Filmado em 2008, três anos antes da sua morte, e só agora lançado no circuito internacional, By Sidney Lumet é uma viagem pelo cinema americano e por uma das vozes mais originais da sua geração. Através de uma fórmula simples, que resulta pura e simplesmente graças ao entrevistado, Nancy Buiski conduz-nos pela carreira de Lumet, pelas personagens mais marcantes do seu cinema, e pelas memórias que moldaram a sua visão do mundo, e que o levaram a filmar algumas das narrativas sociais mais representativas (e geniais) das últimas cinco décadas do cinema americano.

O melhor de By Sidney Lumet é o facto de termos uma entrada privilegiada no mundo do cineasta. Ele conta-nos histórias que marcaram o seu percurso, fala de muitos dos grandes filmes que assinou (entre Serpico, Um Dia De Cão, Escândalo Na TV, entre outros), e de todos os que o influenciaram. É uma conversa íntima, apaixonante e sincera, que fascina os “crentes” no Lumetismo e, provavelmente, entusiasmará os desconhecedores da sua obra.


 
“Cinema Futures”
de Michael Palm

E se a modernidade fosse o prenúncio do fim de uma forma de lidar com o cinema, desde o momento em que o digital entrou nas nossas vidas e mudou totalmente a maneira como “consumimos” filmes? E se o digital provocasse mesmo o fim do cinema tal qual o conhecemos, numa era em que sessões em 35mm parecem um acontecimento raríssimo? E se houver a possibilidade de, depois de nos convertermos totalmente ao digital, perdemos toda a nossa História graças a um simples erro informático? Podem ser interrogações apocalipticamente exageradas, mas é nesta direção que caminha Cinema Futures, documentário de Michael Palm que analisa o confronto entre o analógico, a película e a preservação da História do cinema, e o outro lado, o do digital, dos ficheiros de durabilidade questionável e do armazenamento de informação em zeros e uns, em pens do tamanho de um polegar, em clouds espalhadas por lugares cibernéticos duvidosos.
 
O futuro permanece em aberto e as possibilidades são várias, como mostra o documentário, sendo que as hipóteses drásticas são as mais próximas de uma descrição fidedigna das mudanças que temos presenciado ao longo dos últimos anos – não só no que diz respeito ao armazenamento e visionamento dos filmes, como também à forma como lidamos com o passado e os fantasmas que circundam o imaginário cinéfilo. Será que estamos a ver a mesma coisa, quando contemplamos um épico como Lawrence da Arábia no negativo original e no ecrã de um computador? E o que perdemos no processo de digitalização dos filmes e da nossa relação com os mesmos?
 
Começando no momento em que Hollywood decidiu tornar o digital a tecnologia de vanguarda para a sua produção, Palm explora a fundo todas as consequências desta moda que, infelizmente, veio para ficar. Num mundo feito de imagens que são registadas por uma multiplicidade de câmaras, torna-se difícil perceber como vamos conseguir armazenar toda a nossa História recente, com tantos ficheiros captados com telemóvel, guardados em cópias digitais ou num disco rígido topo de gama, cuja resistência ao tempo, e a outros formatos, é uma incógnita total.
 
Através de uma seleção invulgar de momentos-chave do cinema que auxiliam as metáforas e os alertas do realizador (como a comparação entre os replicantes de Blade Runner com a fraca consistência do digital face à força da película), e com entrevistas a vários museólogos, críticos, realizadores e entusiastas do cinema “antigo”, feito em condições “obsoletas” e “arcaicas”, Michael Palm dá uma visão muito negra de um futuro não muito distante, propondo antes um equilíbrio entre o analógico e o digital – porque o segundo destronou o primeiro, mas vai precisar dele para sobreviver. Tudo o que há a fazer depende de nós, do interesse público para estas questões tão relevantes sobre o património coletivo. Cinema Futures é, por isso, um filme (ou ficheiro, como o próprio realizador o designa) imperdível sobre o que estamos a fazer para colocar a nossa própria História em risco. Basta um clique para aceder a toda a informação do mundo, e uma gestão perigosa dos arquivos fílmicos e culturais para perdermos parte da nossa essência.


 
“Junun”
de Paul Thomas Anderson

Filme feito em parceria com a plataforma MUBI, Junun relata a colaboração entre músicos de nacionalidades e estilos distintos, provocando uma mistura de sons e sentidos fascinante. No entanto, entre belas melodias e algumas situações cativantes sobre o dissecar do processo criativo do disco que saiu deste encontro, Junun é só uma desculpa para Paul Thomas Anderson (cineasta célebre por Magnolia, Haverá Sangue, entre outros títulos) passar o tempo brincar com drones, câmaras go pro e demais dispositivos, com os quais nos vai brindando com planos mais ou menos interessantes.

O filme pouco ou nada auxilia, ou complementa, o poder da bela música que surgiu aqui, e que vamos ouvindo ao longo de todo o filme. É pena não haver nenhuma intenção em aprofundar ou dar mais ao espectador do que uma simples amostra musical, um teaser demasiado longo e um documentário sem grande engenho. E encontramos tanto por explorar e por filmar: músicos talentosos com as suas características peculiares, uma cultura não muito bem conhecida pelos europeus, e tantas outras coisas. Houvesse vontade da parte do cineasta, e da equipa que o acompanhou, e estes 50 e poucos minutos não saberiam a tão pouco.


 
“Muhammad Ali:The Greatest”
de William Klein

Em jeito de homenagem a Muhammad Ali (que morreu em 2016), o DocLisboa programou uma sessão especial com o documentário sobre o ícone.
O boxe parece ser, aos olhos do cinema, o desporto mais épico de todos. Ou por outras palavras, é a modalidade que, se bem que seja das menos agradáveis de digerir, é a que a câmara mais “gosta” de captar, ou com a qual tem uma relação mais interessante, que se revela em várias etapas distintas da História do cinema. Poderiam ser citados exemplos vários desta afirmação, mas o que Muhammad Ali: The Greatest faz não é exactamente aquilo que vimos em tantos desses grandes filmes (a ascensão e queda fatal, e sem retorno, de um lutador, sempre contada em tons bigger e, ao mesmo tempo, smaller than life). Pelo contrário: pouco vemos de lutas neste filme.

William Klein seguiu Muhammad Ali durante uma década que se revelou decisiva para o seu percurso. De 1964 a 74, percorremos acontecimentos reveladores da História contemporânea, começando com a vitória-sensação (aqui ainda como Cassius Clay) num combate intenso contra Sonny Liston, e acabando com a disputa com George Foreman e que significou o regresso de Ali à vida pública e profissional, depois de um processo judicial atribulado criado pela renúncia do pugilista a combater no Vietname. E aqui mostra-o também no ringue, mas vemos mais Ali nas perspectivas mediática e privada. Ele é mais do que o fala barato pelo qual se tornou popular, entre amantes e desconhecedores do mundo do boxe.

Muhammad Ali: The Greatest é um íntimo e divertido documento histórico que vale a pena descobrir, não só por mostrar um outro lado algo diferente da personalidade, focando-se mais no lado do espectáculo criado pelo próprio em todos os momentos (altos e baixos) da sua vida entre o público, as câmaras e a atenção dos media. William Klein vai aos pormenores e, por isso, filma momentos surpreendentes que provocam risos gigantescos: afinal, mais do que um lutador, Ali sempre foi um grande entertainer.

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