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A história de um “salto” (com uma fronteira pelo meio)

Texto: NUNO GALOPIM

A história de Tony Sandoval, que recorda numa BD como conseguiu passar do México para os EUA, chega num tempo em que essa realidade está na ordem do dia. Mas ao valorizar mais o sonho romântico pessoal do que um drama maior de tantos outros, falha a pontaria.

Com um mapa de fronteiras e de migrantes tão na ordem do dia a história autobiográfica que Tony Sandoval nos conta em Rendez-Vous em Phoenix não cai do céu. Em primeiro lugar alerta para um drama real que, a todos os dias, certamente gera histórias como a sua, uns com mais sorte em levar os sonhos americanos mais adiante, outros nem por isso. Em segundo junta-se a relatos pessoais como os que Riad Sattouf ou Marjane Satrapi nos deram a conhecer, usando também a banda desenhada, em livros como (a série) O Árabe do Futuro e Persépolis.

Há contudo diferenças grandes entre esses relatos que nos dão a conhecer cenas de infância e juventude na Líbia, Síria e Irão e a história na primeira pessoa de um jovem mexicano que vive perto da fronteira e, por amor, sonha em rumar a Portland, para também ali fazer outra vida profissional, desenhando para comicst americanos…

Apesar da dificuldade do “salto” – que conhece tentativas falhadas – o relato de Tony Sandoval fecha-se por vezes demais no seu sonho romântico e nas dificuldades por que passou, pouco destacando aqueles que, vindos até de mais longe (como chega a observar), têm naquele “salto” final uma etapa já bem adiantada de um processo mais longo, mais difícil, mais cheio de fracassos do que de sucessos. Os esquemas dos passadores, os destinos dos que falham, até mesmo o contraste entre as oportunidades que esperam casa um de cada lado da fronteira, mereciam mais fôlego que faria deste rendez-vous uma obra com outra dimensão social e outro peso no contexto que muitos, como ele, tão bem conhecem.

Mesmo assim, é interessante ver como experimenta o discurso autobiográfico o autor de As Serpentes de Água e de Mil Tormentas.

“Rendez-Vous em Phoenix”, de Tony Sandoval, está publicado entre nós num volume de 80 páginas pela Kingpin Books, com tradução de Mário Freitas.

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