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Histórias de humilhação e opressão

Texto: NUNO GALOPIM

Em “Scheherazade.2”, uma sinfonia dramática para violino e orquestra, John Adams parte da memória das Mil e Uma Noites para nos transportar afinal para um tempo presente, entre narrativas de humilhação e opressão contra a mulher em alguns espaços do mundo árabe.

A ideia de sinfonia dramática – que de certa forma é herdeira daquelas obras que, sobretudo no auge do romantismo, procuravam desenhar personagens, cenários e até mesmo narrativas tendo apenas a música (sem palavras) como ferramenta de comunicação – não é de todo estranha a John Adams. E logo nos anos 80, ainda a ópera Nixon In China estava a ganhar forma, em 1985 escutávamos em The Chairman Dances uma primeira abordagem orquestral a esse mesmo universo. Entre a Doctor Atomic Symphony (uma vez mais associando uma obra orquestral ao corpo narrativo de uma ópera) ou os retratos de Los Angeles, com marcas do tempo, que escutámos em City Noir, há exemplos recentes desta mesma forma de usar a orquestra em favor da moldagem de figuras, dos lugares que habitam e das vivências de que o compositor nos quer falar.

Sem escapar muito aos caminhos de uma música orquestral já bem afastada da arrumação minimalista de outrora, e mergulhada num lirismo que há muito John Adams sabe abordar, esta nova peça sinfónica de intensa carga dramática é mais uma obra a inscrever não só nesta sua antiga tradição musical narrativa, mas também é peça de um quatro temático e ia que tem estado ligado nos últimos tempos voltando a falar de histórias no feminino, tal como o fizera já em The Gospel Acording To The Other Mary, oratória já disponível em disco através de gravação (dirigida por Gustavo Dudamel) da Deutsche Grammophon ou, em 2017, acontecerá na nova ópera Girls of The Golden West, a estrear em San Francisco daqui a cerca de um ano.

Sheherazade.2 é uma sinfonia dramática para violino e orquestra que parte de heranças diretas das histórias das Mil e Uma Noites (nasce de resto depois de o compositor ter visto uma exposição no Institute du Monde Arabe, em Paris), mas na verdade traduz, através da figura da protagonista, ecos de acontecimentos reais que retratam o papel da mulher no mundo árabe atual, tendo o compositor citado alguns casos que surgiram nas notícias nos últimos anos como motor para que estas pontes justificassem a abordagem que aqui propõe. Histórias de violência e de humilhação que não podem ficar em silêncio.

Um violino apresenta-se assim como a “voz” de uma protagonista que luta pela vida usando o engenho da capacidade de contar histórias, notando o compositor como a tantas outras mulheres a sorte não sorriu da mesma maneira. Daí a dimensão dramática, por vezes quase trágica, que a música sugere, num percurso narrativo que os títulos dos andamentos ajudam a posicionar. Convenhamos que títulos como Tale of the Wise Young Woman-Pursuit by the True Believers ou Scheherazade and the Men with Beards são bem sugestivos. Mas é na relação de todos nós para com estas histórias do quotidiano que brotam os elos de ligação e interpretação que transportam esta história com ecos milenares para um presente que, na verdade, não é ainda igual para todos.

“Scheherazade.2” de John Adams, em interpretação pela St. Louis Symphony, dirigida por David Robertson e com a violinista Leila Josefowicz como solista, está disponível em CD e em suportes digitais em edição da Nonesuch.

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