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Loving the alien

Texto: NUNO GALOPIM

Quarenta anos depois, a estreia de Bowie como protagonista no grande ecrã recorda-nos um filme que teve depois profundo impacte na sua carreira. E pela primeira vez surge em disco a banda sonora, que se mantinha inédita desde a sua estreia, em 1976.

Não podia ter sido mais ténue, ou talvez mesmo inexistente, a fronteira que se estabelece entre ator e personagem quando, em meados dos anos 70, e precisamente a meio de uma assombrada etapa de vida passada nos EUA, David Bowie aceitou o seu primeiro papel protagonista no cinema ao vestir a pele de um alienígena que visita a Terra para tentar levar água de volta ao seu planeta, que está a enfrentar uma seca de dimensões catastróficas. Estreado entre nós como O Homem Que Veio do Espaço, o filme, realizado por Niciolas Roeg, é baseado no romance de 1963 The Man Who Fell To Earth, de Walter Trevis, e deixou profundas marcas na carreira de Bowie, tanto que entre o seu programa de despedida se contou a criação de Lazarus, um musical pensado com esse mesmo livro como ponto de partida, e para o qual Bowie cedeu não só canções do seu repertório, mas também quatro inéditos, entretanto já editados em disco.

A mesma sorte não teve, durante 40 anos, a banda sonora do filme original. Apesar de originalmente apontado para assinar a música, Bowie acabaria por declinar o convite (diz-se que por questões contratuais), ficando coordenação da música entregue a John Phillips (ex-Mamas and The Papas), que juntou composições suas, muitas delas de pendor jazzy ou country, a peças mais experimentais do japonês Stomu Yamashta, contando em estúdio com a colaboração do então já ex-Rolling Stones Mick Taylor.

A música de O Homem Que Veio do Espaço, que junta ainda elementos já antes gravados como Blueberry Hill, por Louis Armstroong, Try To Remember pelo Kingston Trio ou alguns instantes da suite Os Planetas de Gustav Holst, não chegou a disco na época, levantando mesmo uma controvérsia entre o realizador, o estúdio e possivelmente também Bowie, tanto que durante 40 anos se manteve inédita (apesar de uma republicação do livro, logo em 1976, a anunciar no catálogo da RCA Records, para onde o músico e ator então gravava). A sua edição em disco, agora que passam 40 anos sobre a estreia do filme, é assim uma das grandes novidades neste reencontro quatro décadas depois. Lançada em forma de álbum duplo, inclui todas as peças usadas no filme e toma o rosto de Bowie como imagem da capa (mesmo não tendo a música qualquer contribuição sua).

Apesar de não ter colaborado na criação da música para O Homem Que Veio do Espaço, a experiência colaborativa de Bowie marcou muito a sua obra na segunda metade dos anos 80. Algumas das peças mais experimentais e ambientais de Stomu Yamashta pode ter ajudado a definir em Bowie uma predisposição para o caráter mais exploratório que a sua música atravessaria entre os álbuns gravados em 1976 e 1977. As capas de Station To Station (1976) e Low (1977) são retiradas de imagens do filme. Tal como o é a que seria usada numa reedição do single John I’m Only Dancing em 1979. Durante a cena na discoteca vê-se um poster promocional de Young Americans. E a ideia do alienígena fixou-se definitivamente no seu corpo temático central, chegando mesmo a dar nome a um dos seus melhores singles dos anos 80, Loving The Alien.

Bowie reciordaria contudo esta experiência como parte do quadro bizarro que fazia o seu quotidiano naqueles dias, tendo mesmo afirmado que vivia então com 10 gramas de cocaína diariamente no corpo, pelo que não tinha bem a noção daquilo que estaria a acontecer. Estudava as suas falas, interpretando-as como aquele dia em particular lhe sugeria que o devesse fazer. De resto, foi ele mesmo quem sugeriu que, ainda sem qualquer experiência em cinema, fez da construção da personagem de Thomas Jerome Newton uma extensão direta de si mesmo, tal e qual se sentia naquele momento. E, pelo que sabemos das canções de então, das histórias contadas em entrevistas e dos relatos das várias biografias, na verdade havia demasiadas afinidades entre a forma isolada e distanciada de tudo e de todos com que Bowie viveu o período de 1974 a 1976 (a primeira “fase americana”) e a personagem do alienígena que ali teve de vestir.

O Homem Que Veio do Espaço acompanha a chegada à Terra de um alienígena que usa o conhecimento científico e tecnológico mais avançado do seu planeta para obter patentes e, com elas, estabelecer uma companhia poderosa que lhe permitirá construir a nave pela qual quer levar de volta água e salvação. Toma como parceiro empresarial um advogado gay (e espanta-me porque está este filme omisso em tantas histórias da cinematografia queer já que é dos primeiros, e bem à frente do seu tempo, a tomar a representação de um relacionamento sem convocar nem os silêncios ou as caracterizações-tipo de outrora nem as marcas recentes do afloramento do ativismo LGBT). Usa depois os conhecimentos de um professor universitário (interpretado por Rip Torn) com um historial de casos com as suas alunas. E conhece, na América profunda, uma empregada de hotel que, aos poucos, o apresenta a realidades terrenas, da religião ao sexo, passando pelo álcool, que acaba por viciá-lo, tal como as imagens de ecrãs de televisão, que inicialmente usa para descobrir o mundo que visita, mas que acabam por levá-lo a mergulhar num processo de escapismo (que será, afinal, a sua única forma de liberdade quando acaba detido por um grupo de médicos que o estudam durante anos a fio).

Desenhado como uma tragédia, alertando para a urgência da demanda que traz o alienígena à Terra pelas sucessivas cenas nas quais vemos o seu mundo transformado num árido deserto e a sua família em claro risco de vida, O Homem Que Vem do Espaço confronta o alienígena com uma missão com os vícios, invejas e ganâncias dos homens que vivem na Terra. O estilo de realização, a forma da art direction pensar uma ideia de futuro (mas cheia de marcas das cores e formas dos anos 70), a música, fazem deste um filme claramente datado. A forma inteligente como a narrativa é lançada, aos poucos, juntando peças, e a presença de Bowie num papel icónico que está entre os mais marcantes da sua obra no cinema, fazem de O Homem Que Veio do Espaço uma peça a ter em conta quando se fala da história da sua carreira e, também, dos caminhos que as faces menos mainstream cinema de ficção científica tomavam antes da mudança de ares que o primado dos efeitos visuais lançaria depois sobre o género.

“The Man Who Fell To Earth” acaba de ser reeditado numa caixa com um Blu-ray, dois DVD e um CD. O disco áudio integra as contribuições de John Phillips para a banda sonora (que está também disponível em edição avulso, esta contudo em formato de CD duplo e com peças dos outros compositores e intérpretes envolvidos). O Blu-ray e os dois DVD incluem, além do filme, documentários, e entrevistas, umas já antes apresentadas em lançamentos anteriores (um deles na Criterion), outras realizadas recentemente para esta nova edição.

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