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Memórias de um mestre (sete anos depois)

Texto: NUNO GALOPIM

Passam hoje sete anos sobre o dia em que o António Sérgio nos deixou. Sete… Amigo, foi companheiro de trabalho nos tempos da XFM. Entrava no estúdio, pouco antes das 10.00 para me render, com uma valente pilha de discos, um termus com chá e, invariavelmente, uma palavra de boa disposição, comentando muitas vezes o disco que estava a rodar nesse instante. Uma vez por semana deixava-me, de surpresa, um single para tocar… Sim, em vinil, a 45 rotações, para alargar as cores e sabores do que a antena ia dando a escutar. .

Gostávamos de cães. E, creio que nunca o contámos, numa altura em que ensaiávamos num computador o modelo de distribuição de músicas do que seria depois a playlist da XFM, em vez do “A”, “B”, habituais, ele, a Ana [Cristina Ferrão] e eu usávamos nomes de cães. Laika era um deles.

– Então, este tema é ou não uma Laika?
– Ou será Milu? Ou mesmo Rantanplan?
– Esse é claramente Laika…
– Então fica Laika.

Convenhamos que era… alternativo.

Antes, muito antes destes serões em casa deles ou nas instalações da rádio, antes mesmo de emitida a primeira canção (tarefa que depois me coube, num fim de tarde, ao som de Jean The Birdman, de David Sylvian e Robert Fripp), o Sérgio foi também um dos principais responsáveis pela formação musical que definiu os rumos pelos quais fui encontrando o meu caminho. E o mesmo poderá dizer tanta gente que o foi escutando, ao longo dos anos.

A assinalar este dia em que a memória do António Sérgio está na agenda das notícias – agora que a RTP2 vai exibir o documentário Uivo, do Eduardo Morais – partilho aqui dois textos que em tempos escrevi sobre ele no DN. Um deles logo no dia em que soubemos da sua morte. O outro, uns dois anos depois, colhendo ensinamentos do seu trabalho e, sobretudo, uma maneira livre e aberta de estar na música. Entre os títulos de ambos passam ecos de uma expressão que ele mesmo usava frequentemente no ‘Som da Frente’, quando à rádio, e a todos nós que o ouvíamos, nos dava então o “direito à diferença”.

O direito à diferença

Tive a sorte de assistir, ao vivo, e ao lado dele, àquele que certamente terá sido um dos mais marcantes encontros da vida do Sérgio. Foi em 1993. Estávamos em Manchester, em plena convenção In The City, onde se juntavam músicos, editores e divulgadores… Tínhamos partido juntos de Lisboa e levávamos três objectivos na bagagem: comprar discos para a discoteca de uma nova estação de rádio que iniciaria as emissões algumas semanas depois (a XFM), estabelecer contactos com editoras independentes e… desafiar John Peel a fazer um programa para a “xis”…

Ver o encontro entre os dois foi como assistir ao que mais parecia uma reunião de velhos amigos (mas que até aí não se conheciam), rapidamente a conversa saltando da agenda prática do programa (que de facto existiu em exclusivo para a XFM) para discos e trocas de memórias. Chamavam muitas vezes ao Sérgio o John Peel português… Mas ali perderam-se as fronteiras. O Peel português? O Sérgio inglês?… Fiquei calado a assistir… Foi inesquecível.

As minhas memórias do Sérgio recuam contudo mais atrás, a finais de 70 e inícios de 80… Lembro-me da voz, captada em FM, anunciando os discos um a um. Novos discos, sempre desafiantes. E também as referências que completavam esta história sempre em construção… Alguns LPs levavam semanas a chegar a estes lados, e as cassetes com as emissões gravadas da rádio ouviam-se assim vezes sem conta… Até a fita não poder mais… Mal imaginava então que, alguns anos depois aquela seria a mesma voz que me daria, ao vivo, os bons dias de segunda a sexta, sempre com uma pilha de discos na mão, entrando perto das dez da manhã pelo estúdio, tomando o microfone que entretanto eu deixara livre.

Aprendi a ouvir música na rádio. E o Sérgio foi, de todos os que me abriram portas ao som, o mais importante e marcante dos divulgadores. Vincava o direito à diferença. E fez a diferença. Obrigado, Sérgio.
(2 de novembro de 2009)

Ensinar o direito à diferença

Bauhaus. This Mortal Coil. Cocteau Twins. Julian Cope. The Sound. Clan of Xymox. Shriekback. Scritti Politti. Bronski Beat. Love and Rockets. Virginia Astley. Echo & The Bunnymen. Psychedelic Furs. Siouxsie & The Banshees. The Smiths. X-Mal Deutschland. The The. Nick Cave. Einstürzende Neubauten. Violent Femmes. Laurie Anderson… Uns ainda ativos, outros hoje no plano da memória; uns globalmente reconhecidos, outros pequenos fenómenos de culto; uns mais marcantes, outros apenas um episódio fugaz na história da música popular. Mas em todos algo de comum: descobri-os ao ouvir os programas que António Sérgio (nunca o tratei por António, apenas Sérgio) me fazia acompanhar, dia-a-dia, no FM dos oitentas.

Não havia Internet e, apesar de alguma informação entre jornais e revistas, ouvir a música nova que fugia ao que a ditadura dos gostos tornava popular não estava, como hoje, à distância de um clic. Ou tínhamos amigos que iam a Londres, ou pedíamos discos em serviços de venda postal… E pouco mais, garantindo-nos os programas do Sérgio a janela que nos mantinha atentos ao que estava a acontecer (e ainda cá não chegava com o ritmo a que hoje as coisas acontecem). Quem ia a Londres emprestava-lhe os discos. Quem os recebia pelo correio também. E o Sérgio tocava-os, a ideia de partilha de informação entre amigos chegando assim entre a rádio e quem a escutava.

Não tínhamos um botão para dizer “gosto”… Mas gostávamos. Ouvíamos, gravávamos cassetes, tirávamos os nomes da “lista rebelde”, esperávamos depois pelos amigos que iam a Londres ou pelo correio. Com uma voz segura, ensinava-nos o que era o direito à diferença. A criar um gosto. A ser indivíduos. Uma lição pela música. Mas que serve para a vida.
(14 de janeiro de 2011)

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2 Comments on Memórias de um mestre (sete anos depois)

  1. Graça Rodrigues Pereira // Novembro 1, 2016 às 11:05 am // Responder

    Que saudades da voz do António Sérgio… Adorava os programas dele… A Hora do Lobo… Som da frente… E sim, eu fazia parte das pessoas que gravava em cassetes os programas dele… No tempo em que a música era MÚSICA! Obrigada Nuno 🙂 bj 🙂

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  2. Excelente texto e memórias. Obrigada Nuno!

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