Últimas notícias

Uma mão verde para ajudar a descobrir o mundo

Entrevista de NUNO GALOPIM

Foi um concerto, mas deu um disco, que se apresenta como um livro. Dedicada aos mais pequenos, esta “Mão Verde” junta Capicua e Pedro Geraldes no desafio de falar do mundo, lançando alertas e reflexões, lembrando como, a brincar, se pode aprender.

Logo nas primeiras páginas deste livro/disco somos apresentados à génese do projeto, explicada com a mesma linguagem com que, depois, as lengalengas nos levarão através dos temas “verdes” com que estas histórias de contam. Aqui encontramos canções “compostas pelo Pedro [Geraldes] e cantaroladas pela Ana [Capicua]”. A música, como depois se descreve, “foi feita num sótão com muitos instrumentos, um computador e outras maquinetas cheias de botões”. O livro, esse nasceu das lengalengas e poemas escritos pela Ana. Sobre “plantas, hortas, flores e outras coisas boas. Às palavras juntam-se, nas páginas do livro, notas informativas sobre aquilo de que se fala. E, depois, as ilustrações de Maria Herreros, que dão forma e cor ao que lemos e escutamos.

E para apresentar melhor a ideia por detrás deste projeto de música para os mais pequenos, falámos com a Capicua e com Pedro Geraldes, os autores das canções.

Os discos, tal como os livros, podem ter um papel na formação de quem está a descobrir o mundo?
Capicua – Tudo forma as crianças. Tudo o que está ao redor acaba por influenciar. E a cultura em geral tem muita importância. Como somos crianças somos esponjas… E lembro-me da minha experiência, dos livros que li, dos filmes que vi, das músicas que ouvi. Ainda hoje me moldam o pensamento e muitas vezes recordo-me deles. O facto de ter tido um contacto desde cedo com música que estava associada com a palavra tiveram depois muita importância na forma como descobri a música como métier. A primeira música que ouvi, que era a que os meus pais ouviam, era a dos cantautores de abril. Para mim palavra e música estavam associadas. E nem que seja por aí foi uma coisa que me marcou até hoje.
Pedro – A vantagem de haver um disco e um livro, de ser uma coisa lúdica, também acaba por ter um impacto maior. Chega de outra forma para além da educação que vem pela escola e pelos pais. É um livro, tem ilustrações, há essa componente de diversão que pode fazer com que a cabeça mexa de outra forma.
Capicua – É verdade… Quando aprendemos a brincar fica-nos sempre mais do que aquilo que nos impõem para decorar.

O livro é, assim, em primeiro lugar, um projeto com um primeiro objetivo essenncialmente lúdico…
Capicua – Sim, mesmo para nós!

Ser um livro, um objeto que se manuseia, obriga a mexer, além de ler e de se dar a ouvir.
Capicua – Para as crianças o mp3 é uma coisa um bocado teórica. Se não está nas mãos delas, então não existe. E depois há um imaginário, um conjunto de personagens e de conteúdos que, se não tivesse uma dimensão gráfica, seria um desperdício.
Pedro – Tínhamos as músicas feitas e achamos que valorizava muito o objeto ter um livro a acompanhar, tanto pelas personagens, pelas letras e as notas informativas.
Capicua – Para aprofundar os conteúdos com um lado mais didático.

Além das canções há de facto uma série de informações sobre os assuntos. Se se canta que se deve desconfiar de quem não gosta de Chico Buarque, então afinal quem é ele? E explicam…
Capicua – Sim, claro. Serve assim para que o livro possa ter várias camadas de entendimento. Há piadas que só os pais é que vão entender, como essa, do Chico Buarque. Mas quem é que é o Chico Buarque? E há assim uma oportunidade de explicar quem é. Mas fala-se também de temas da agricultura. O que é a compostagem? O que é o aquecimento global e o que se pode fazer para o travar… A ideia era a de explicar os conteúdos. E para isso foi muito útil a ajuda do Luís Alves, que é um agricultor que tem uma produção de ervas aromáticas perto do Porto, em Gaia, e que nos ajudou a fazer essas notas mais didáticas e essas explicações técnicas para acompanhar as letras. A ideia do livro nasce até antes do disco. Antes de eu ter sido convidada para uma temporada de concertos no São Luiz, com alguns deles para crianças, eu já queria fazer um livro de lengalengas… E quando chegou este convite apareceu um concerto, que acabou por ser um disco. E quando começámos a gravar o disco, pensei que ia também haver um livro de lengalengas. Que no fundo era afinal a génese desta vontade. E assim se fecha o ciclo.

Porque escolheram esta temática? É dirigido a uma geração que vai conviver com uma Terra mais estragada do que aquela em que nascemos…
Capicua – A questão dos conteúdos precedeu até o meu convite ao Pedro. Já tinha a ideia de lhe chamar Mão Verde e de falar sobre esse temas de ecologia, da agricultura, da alimentação. São temáticas centrais no nosso tempo histórico e são também muito importantes na minha vida quotidiana. O facto de ter uma horta como hobbie. Essas questões da alimentação são coisa que me preocupa. As questões são coisa que quero sempre aprender mais, porque não tive formação em ciências e só mais tarde comecei a tentar saber mais a fundo as coisas da indústria agro alimentar, sobre como o nosso consumo tem um impacto real no planeta em termos de desflorestação, de consumo de água… São temas muito importantes para mim e penso que o Pedro partilha também essa preocupação. E achei que, no meu trabalho, essas questões ainda não tinham tido um impacte nas minhas letras. Tenho uma agenda mais de política social em algumas das minhas músicas, já tinha debatido sobre outras causas, mas sobre estas questões não. E não queria cair numa coisa muito panfletária e moralista. Tinha sido difícil pegar nestes temas no meu trabalho mais habitual, e achei que esta oportunidade de fazer música para as crianças era a ideal. Nunca conheci nenhuma criança que não gostasse de mexer na terra, que não gostasse de plantas ou de animais. Interessam-se e são bastante mais sensíveis a estes temas. E não os encaram como uma coisa chata. Pelo contrário. Faz sentido, até porque se vão confrontar muito rapidamente com as consequências de todo este processo de degradação que está a chegar a um auge irreversível. Era assim uma oportunidade para falar de uma forma divertida e bem humorada destas coisas que me preocupavam.

Usas por isso muitos jogos de palavras. Brincar com as palavras é uma forma de passar ideias…
Capicua – Claro. Essa é a lógica que está sempre por detrás da minha escrita. As crianças reparam nas palavras. Às vezes estão a ouvi-las pela primeira vez… E têm aquele ar de quem repara pela primeira vez nas coisas querem saber porque é que as coisas são assim. Acho que nunca perdi esse olhar pelas palavras. Acho piada. Porque é que se chama buzina. Vem do búzio… Fazia som, sinais, e a palavra ficou. Gosto de perceber a origem das palavras. Gosto de brincar com os jogos de palavras, com os sons, com os significados, os duplos sentidos. A ideia de lengalenga, que era das coisas de quem mais gostava quando era miúda. Acho que foi um bocado o conservar dessa minha relação com as palavras e levá-la para o universo infantil. Que é o espaço por excelência para brincar.

Tiveram uma vivência relacionada com algum autor ou universo ligado à música infantil em particular?
Capicua – Acho que a minha geração é a dos Amigos do Gaspar. Mas também as músicas da Rua Sésamo, ou até os filmes da Disney.

Como é que este tipo de trabalho, que está fora do âmbito mais habitual na obra de cada um de vós irá eventualmente influenciar outros projetos que venham a fazer?
Capicua – Tudo o que fazemos dá para aprender coisas novas. Aprendemos truques novos e vamos aplicar… Ainda não sei… Mas o que aprendi até agora foi o reencontrar-me com uma escrita mais intuitiva. Quando vamos evoluindo tecnicamente às vezes temos de reforçar esse canal intuitivo quando escrevemos. Não racionalizar muito…
Pedro – Depositar mais energia nessa intuição foi uma lição.

Dizem, a dada altura, que não se pode confiar em quem não gosta de chocolate…
Capicua – Isso fui eu que escrevi… Porque não consigo perceber isso.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: