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As canções que Moddi trouxe para o jantar

Texto: DANIEL BARRADAS

“Unsongs”, o mais recente álbum do norueguês Moddi sopra nova vida sobre canções que importa não esquecer, não silenciar.

A noite passada fui a um jantar organizado pelo World Music Festival de Oslo. O evento prometia tanto quanto soava bizarro, deixem-me explicar-vos porquê:

Um dos grandes concertos anunciados para esta edição do festival é o do cantor norueguês Moddi com a orquestra de solistas de Trondheim. Moddi lançou recentemente o álbum Unsongs no qual interpreta as suas versões de 12 canções de diversas partes do mundo, canções essas que foram de algum modo proibidas ou censuradas. Se algumas são abertamente canções de combate político como Where is my Vietnam? de Viêt Khang, Our worker de Vitor Jara ou Punk prayer das Pussy Riot, que tiveram terríveis e violentas consequências para os seus autores, outras há que foram silenciadas pela censura em tempos em que soaram “menos bem” como Army Dreamers de Kate Bush, que figurou numa lista negra da BBC durante a guerra das ilhas Falkland por ser anti-militarista.

O disco é de audição (fruição) obrigatória, se não pela qualidade das versões (há umas mais conseguidas do que outras mas se alguém não se comover com A matter of habit só pode ter um coração de pedra), sem dúvida pelas histórias que lhe estão associadas.

Consciente de que o seu trabalho não se deveria limitar à música, Moddi convidou o realizador Jørgen Nordby e juntos viajaram por diversos destinos entrevistando e documentando os autores e o contexto em que surgiram algumas das canções do álbum. O resultado pode (deve) ser visto no site http://www.unsongs.com

De um acaso da vida surgiu o evento a que assisti ontem à noite. O festival de música do mundo de Oslo mudou recentemente os seus escritórios para o Sentralen, um edifício que reúne vários produtores culturais sob o mesmo tecto e dispõe de várias salas de espectáculo e um belo restaurante. Num dia em que Moddi visitava o edifício, cruzou-se na entrada com o chefe Tom Victor Gausdal, que é grande fã seu, e por conversa com a directora do festival, acabou por surgir a ideia de um jantar gourmet com seis pratos de diversas partes do mundo, para coincidir com seis canções interpretadas ao vivo por Moddi.

É uma ideia cuja ironia não escapou a Moddi, que nos contou que se desatou a rir quando lhe propuseram o projecto, já que a maioria dos seus jantares costumam ser noodles instantâneos. E depois de interpretar Punk prayer das Pussy Riot não deixou de referir que, apesar de o tártaro de beterraba russo estar fantástico, se calhar devíamos todos ter antes provado a comida de uma prisão russa para perceber melhor a mensagem da canção. E mais adiante, enquanto comíamos o nosso banh khot de caranguejo, informou-nos que o cantor Viêt Khang acabara de lhe enviar uma mensagem a desejar-nos “Bon apétit”. E depois contou-nos como Khang foi condenado a quatro anos de prisão por escrever Where is my Vietnam?, como está ainda em prisão domiciliária e como perdeu a família e o emprego devido a essa canção.

O evento foi ainda mais bizarro para mim já que, por coincidência, fiquei sentado ao lado do próprio Moddi durante o jantar. Não foi motivo para convívio pois o jantar do músico decorria durante uma entrevista para um jornal local, mas deu para esticar a orelha e ficar ainda um pouco mais por dentro do projecto, dos seus motivos e das suas consequências. E foi um privilégio ouvir o suspiro de Moddi quando a entrevistadora lhe perguntou: “Se fosses escrever hoje uma canção de protesto norueguesa, sobre o que seria?”. Nesse momento, a figura juvenil e frágil de Moddi exalou todo o peso do mundo que pôs às costas desde que concebeu e embarcou no projecto de Unsongs.

Por incongruente que o evento tenha sido, foi sem dúvida mais uma acção digna de nota no projecto. Moddi não parou a noite toda, falando com jornalistas, músicos de outras bandas, comensais, e mal conseguiu comer num jantar que era, de certo modo, em sua honra. Enquanto houver pessoas como ele, como os autores destas canções, capazes de sacrificar tudo para iluminar cabeças e corações, tudo valerá a pena, sejam jantares de seis pratos ou greves da fome.

Unsongs é um álbum importante porque volta a dar voz às mensagens de canções que não devem ser esquecidas ou silenciadas. Musicalmente é competente e veste as canções com uma simplicidade de arranjos capaz de fazer justiça às mensagens que deseja transmitir. Que venha de um canto do mundo que se tem como privilegiado não é mais que um grito de alerta que o privilégio não nos isola nem é permanente. Ouçam-no com a urgência e atenção que merece e juntem-no a Hoplessness de Anohni e a Let them eat chaos de Kate Tempest para completar o ramalhete de discos de 2016 absolutamente comprometidos em combater o marasmo da política e das ideias por via da música.

Moddi
“Unsongs”
Propeller recordings 2016
★★★★

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