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Eeny, meeny, miny, Melanie Martinez

Texto: GONÇALO COTA

Melanie Martinez estreou-se na Aula Magna na noite de sábado. Trouxe consigo o imaginário do seu álbum de estreia, mas à conversa confidencia-nos sobre o processo criativo de “Cry Baby” e do novo álbum, a ser lançado no próximo ano.

Eras aquela rapariga envergonhada com um estilo inspirado nos desenhos animados que apareceu no The Voice e no ano passado lançaste Cry Baby, que explora a mesma estética. Estás a viver o teu conto de fadas?
(Risos) Sem dúvida, a minha vida tem sido surreal ultimamente. Estou muito entusiasmada por estar na Europa, a visitar diferentes países e tocar música que é importante para mim e para as pessoas que me vêm ver.

Em Outubro anunciaste o lançamento não só de um EP, Cry Baby’s Extendend Clutter, que contem as músicas das versão Deluxe de Cry Baby e uma canção de Natal, mas também de um perfume, Cry Baby Perfume Milk. Como é que estes lançamentos te ajudaram a adensar a atmosfera de Cry Baby?
Eu sinto muita vontade de estar sempre a lançar peças e de tornar tudo muito visual. Eu sabia que queria lançar o perfume logo após ter terminado de criar o álbum. Pessoalmente, não uso nenhum perfume, nem tenho atracção por nenhum cheiro em particular, mas sabia muito bem como queria que este perfume fosse. Trabalhei muito com a editora para lançá-lo, depois de percebermos que havia público que o poderia utilizar.

Como foi para ti ter o controlo criativo em Cry Baby, tanto musical como visualmente?
Não consigo explicar muito bem. Sou eu que penso em tudo e não tenho a ajuda de ninguém: faço a minha própria maquilhagem e styling, dirijo os meus videoclips, escrevo as letras e componho as melodias. No próximo álbum, tive ajuda na escrita de algumas letras e o meu namorado, Michael Keenan, produziu o álbum na integra. Adoro ter a liberdade de escrever a história da Cry Baby. Já está na minha cabeça.

A tua canção preferida deste álbum é Mrs. Potato Head. O que tem de tão especial para ti?
Foi uma canção difícil de escrever, tomou-me muito tempo até acertar naquilo que queria. Tinha a ideia, o título e a mensagem que queria passar… Mas não conseguia encontrar as palavras certas. Até que chegaram eventualmente numa das sessões de escrita. Ajudou-me a ultrapassar as minhas inseguranças pessoais sobre o meu aspecto. É muito difícil crescer com os estereótipos e contradições: ora não podemos mostrar muito a pele, mas se não a mostramos não somos suficientemente bonitas. Foi muito frustrante para mim porque eu não gosto de mostrar a pele e especialmente na indústria da música, há muita pressão para parecer com um certo estereótipo associado às artistas pop. Quis escrever uma canção para ajudar as pessoas a ultrapassar este tipo de inseguranças.

O que nos podes contar já do novo álbum? O que podemos esperar?
Por agora, não posso dizer muito. Cry Baby conta-nos a história desta personagem, dando a conhecer a sua personalidade e a história de família, bem como como a forma como ela lida com os dramas amorosos pela primeira vez, o facto de não ter amigos e de ser raptada. O próximo álbum continua a contar-nos a história de Cry Baby, mas agora fora de casa, num lugar específico – não posso dizer o nome do sítio, porque também é o título do álbum. Posso dizer que vão aparecer novas personagens.

Sobre Cry Baby e o novo álbum, o que é mais complicado para ti: criar a personagem ou alimentar a persona da Cry Baby através de novas histórias e temas?
Demorei bastante tempo a escrever Cry Baby, pelo facto de ter não ter tido qualquer prazo a cumprir. Com o novo álbum, tudo foi mais planeado e estratégico. Sabia exactamente a quantidade de faixas que queria (13 e mais três de bónus) e sabia que história queria contar, do inicio ao fim. Quis manter uma coesão com Cry Baby, o que me facilitou quando comecei a elaborar o tema deste novo álbum. Quando soube o tema, comecei a escrever títulos de canções. E depois, nas sessões de escrita, ia elaborando cada tema, tentando conectá-los entre si. O segundo álbum foi um pouco pais rápido de fazer do que Cry Baby, apesar de ainda haver muito trabalho pela frente: quero ter a certeza que a voz está lá em todos os temas.

Como te sentes agora que estás a terminar a digressão?
Pensava que ia ficar mais emotiva e triste, mas estou muito contente por estar a terminar, especialmente aqui na Europa. É incrível poder viajar. Mas, por ter já novas canções, que estou à espera para lançar, é difícil estar triste com um fim deste capítulo. Porque está um novo já à porta.

Tens uma base de fãs enorme. Como foi estabelecer contacto com eles durante a digressão?
Foi incrível poder encontrar-me com estas pessoas inspiradoras e criativas durante este ano e meio, que ouvem a música que tu escreves. Estou muito contente por fazer canções que as pessoas gostam de ouvir.

A eleição para a presidência do Estados Unidos é já esta terça-feira, o que achas que vai acontecer?
Não tenho ideia. De qualquer forma, não estou muito contente (risos). É um assunto sensível, mas espero mesmo que o Donald Trump não ganhe. Não pode acontecer, não pode mesmo acontecer.

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O concerto

Enquanto os adultos brincam à política, a Aula Magna estava convertida num berçário: o palco estava preenchido com blocos infantis iluminados e bolos gigantes com velas acesas. Risos e choros de bebé dão-nos as boas vindas. Detrás do palco aparece um coelho branco com uma bata médica acenando, o que nos transporta para os ambientes de um filme de Tim Burton.

O bebé nasceu. O berço enorme ilumina-se a abre as suas cancelas: sai a aguardada Melanie Martinez com a musicalidade peculiar que nos habituou desde The Voice. A sua música tem um toque infantilizado, mas pretende contar histórias de gente grande: desde a família disfuncional e às narativas de amor e traição. E, até, um rapto. Claro, um rapto fictício. Esta é a história de Cry Baby, personagem principal do seu álbum conceptual. A personagem é uma versão fantasiada da infância da Melanie, que, segundo ela, representa a sua vulnerabilidade e o seu lado mais perturbado.

Os músicos, vestidos de coelho, dão-nos a batida para a canção de abertura: Cry Baby deixa toda a gente entusiasmada – maioritariamente adolescentes, com cabelos e roupas coloridas a condizer com o estilo pouco convencional da cantora americana, que vestia fralda de bebé e sutiã azuis e com seu já conhecido cabelo preto e loiro, inspirado em Cruela de Vil.

A explosão de energia ocorreu logo a seguir, em Dollhouse. As favoritas, Alphabet Boy e Tag, You Are It, levaram os fãs a acompanharem as letras. O alinhamento é igual ao do álbum, para não perdermos uma pitada da história, contada em forma de metáforas elaboradas pela cantora: Training Wheels, por exemplo, fala-nos sobre levar as relações… mais a sério. Ou Cry Baby sobre a exposição dos sentimentos.

Vocalmente, Melanie Martinez é irrepreensível, mas falha em mostrar-nos corporalmente quem é Cry Baby, provavelmente devido à timidez e inexperiência. Os movimentos de dança são repetitivos, nota-se a despreocupação em teatralizar a narrativa e a conexão é parca com o público. O alinhamento foi cantado de rajada, sem espaço para quaisquer histórias para adormecer ou interações mais prolongadas com quem estava na sala.

Mas o convite para a sua festa de aniversário não se perde no correio, como em Pity Party: ninguém estava sentado nos mil e quatrocentos lugares da Aula Magna, esgotados muitos meses antes do espetáculo. Com ursos de peluche na mão, com pijamas vestidos ou simplesmente com um sorriso esboçado, quem a viu não conseguiu parar de cantar e dançar.

Despede-se com a cereja no topo do bolo. Literalmente. No topo de um dos bolos de aniversário, canta-nos Cake e deixa-nos a promessa de voltar a brincar mais um pouco no imaginário, para o ano, quando regressar com as canções do novo álbum.

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