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Nos bastidores da democracia (ou como o passado e o presente afinal são parecidos)

Texto: NUNO GALOPIM

Em “Democracia” os gregos Alecos Papadatos e Abraham Kawa usam o formato da graphic novel para nos recordar como os atenienses criaram e defenderam um modelo político, numa narrativa histórica que revela algumas ressonâncias com o nosso tempo atual.

Acampados numa colina acima do lugar onde está acampado o exército persa, conduzido por Hípias, os atenienses observam as movimentações e aguardam o início da batalha. Sentem-se em desvantagem. E a surpresa pode ser a sua aliada. E enquanto se tomam decisões, um jovem ceramista, que com os seus conterrâneos ali está, firme, conta aos que estão com ele as histórias que ele mesmo viveu e viu em Atenas, nos últimos anos. Enquanto escutam, todos eles compreendem o papel que têm a cumprir. Estão ali para defender a sua cidade, o seu povo e o seu modelo de sociedade, contra um invasor externo que procura, pela força, impor o seu poder e a sua razão contra a vontade dos atenienses… O ano é o de 490 a.C…. Mas a essência da história cruza os tempos. E só quem andou muito distraído não notou como, há bem pouco tempo, outras potências externas procuraram agir, também pela força (embora manifestada de outra maneira), sobre as decisões tomadas pelos próprios gregos.

“Pelo facto de o livro ter saído quando saiu, houve quem pensasse que há três meses vimos o que estava a acontecer e resolvemos fazer um livro… Então era como que se eu o tivesse escrito num par de semanas e o Alecos feito num par de meses…”, comenta Abraham Kawa que, juntamente com o desenhador Alecos Papadatos (um dos autores de Logicomix), esteve entre nós para lançar Democracia durante a 27ª edição da Amadora BD. É ele que, com um sorriso, lembra que “não foi assim” que este projeto nasceu. Estavam a trabalhar no livro desde 2008 ou 2009, ou seja, “antes da crise se ter feito sentir na Grécia”. O seu objetivo era “o de contar o que se passara no século V, olhando para os factos históricos e, assim, fazer uma história intemporal”. O que aconteceu foi que, quanto mais olhavam para as fontes históricas e para os acontecimentos do presente começámos a reparar que havia demasiados paralelos. E o que fizeram “foi então trazer esse sentido intemporal da história”. O livro, entretanto, “saiu do ninho e agora cada um o pode interpretar como entender”. Terá, como diz Abraham, “os seus admiradores na esquerda e na direita, mas agora é do público e o que ali está é uma história daquilo que sucedeu na qual se enfatizaram as ligações com aquilo que agora está a acontecer”.

A batalha de Maratona, em 490 a.C. foi usada logo no início da história para “apoiar a narrativa”, lembrando Alecos que essa foi a primeira vez em que um povo resolveu proteger as suas casas e o seu sistema social contra um invasor “que era totalitário, vergado sob o chicote de um imperador”. Maratona foi por isso, defende Abraham, “o primeiro teste à democracia ateniense”, acrescentando Alecos que “os atenienses levaram dez anos a estabelecer as reformas após os eventos que o livro narra”. E durante esses dez anos “os espartanos tentaram atacar Atenas duas mais vezes para tentar mudar o status”. Na verdade “só 20 anos depois acontece a batalha de Maratona”.

O processo foi lento, duro, mesmo violento, como Democracia nos conta, havendo entre os autores um esforço para tentar cruzar factos e os elementos necessários a uma sólida construção narrativa. “Sabemos que os eventos que representaram o clímax desta história, que é o cerco da Acrópole, ocorreram de facto. E foram violentos”, explica Abraham, observando que “esse foi um dado adquirido”. Se partimos de um centro narrativo “e aquele é o centro” depois tiveram de pensar pensar “no que é que conduziu as coisas para que ali tivessem chegado?” E aí “há mais um thriller, porque estamos a ver os bastidores do que aconteceu no plano político”. A violência retratada “foi o culminar do processo, quando as pessoas se envolveram”. Os atenienses, conclui, “tinham de tomar partido por aquilo em que acreditavam, e então foi inevitável”.

Entre os factos e a ficção

Apesar do cenário factual e da trama política que cruza todo o livro, os autores optaram por usar como protagonista um herói ficcionado e não uma figura histórica real. “O Leandro estava já a ser considerado para ser o personagem principal da narrativa antes mesmo de começarmos a trabalhar na história”, explica Abraham, revelando Alecos que tentaram “não ser muito académicos em relação à história”. Ao fazer a investigação descobriram “que o povo ateniense teve um papel muito importante em todo o processo, como no caso da revolta contra os espartanos, sem ter qualquer liderança”. Decidiram assim contar a história através dos olhos de um ateniense”, o que os levou a questionar o que deveria ter como profissão, o que teria de dizer, quem seria o seu pai, entre outros dados que a história nos mostra. O facto de ser um ceramista “foi determinante”. Os ceramistas “trabalhavam no centro da cidade, perto da Ágora, por isso tinham uma relação muito próxima com o lugar dos acontecimentos”.

Foi por isso “mais interessante contar a história pelos seus olhos” e não pelos de Clístenes, a quem se chama tantas vezes o pai da democracia grega, “que era um político da elite”, sublinha Alecos. Essa opção tê-los-ia “obrigado a ter de inventar muitas coisas, porque na verdade dele pouco se sabe”. E ele seria, nessa outra possível visão, “uma espécie de Lawrence da Arábia”, ou seja, “o aristocrata privilegiado que toma o partido de uma causa rebelde”. Seria, como reconhece, “uma história igualmente interessante”. Mas aí teriam “de inventar muito”, o que evidentemente não os estimulou. Ficaram assim “com o homem comum, o cidadão, a quem as coisas acontecem no espetro político e que tem de reagir”. Mantiveram naturalmente na narrativa a figura de Clístenes “como o enigma histórico que ele de facto é”, observam.

O processo de investigação, como deu para entender com as datas acima sugeridas, foi moroso e atento ao detalhe. Dividiram a pesquisa “a meias”, conta Alecos, e descobriram “que havia muitos buracos que os historiadores tinham tentado colmatar com as suas teorias”, reparando “que havia três escolas diferentes na interpretação do que sucedeu com as reformas de Clístenes”. Uma alemã, uma inglesa e uma americana. Acabaram por ler sobretudo a americana que, “mais do que tentar averiguar o que Clístenes disse, optou por focar os resultados, notando esse raro momento de encontro entre a elite e as massas”, lembra o desenhador. Essa escola notava “que esta revolta fora um pouco como a tomada da Bastilha, embora sem o terror que veio depois”. Havia além disso outros dados do quotidiano a averiguar, como o que se comia, e a que horas ou como eram as casas de então. “E era preciso saber sobre tudo isto para poder descrever as coisas para inspirar depois o Alecos como artista, para que as pudesse desenhar”, observa Abraham que, depois da primeira reunião em casa do desenhador e voltou para a sua “com uma mala de viagem cheia de livros para ler”. Ficando Alecos “com outros tantos”.

Do diálogo com os dois autores, que teve lugar num hotel em Lisboa, há poucos dias, ficou claro que há uma diferença enorme de volume de informação sobre o que se sabe fatualmente deste período e o que vem, depois, de interpretações posteriores. Abraham conta que leu uns 12 livros sobre o assassinato de Hiparco, mas “nos textos de Heródoto e de Aristóteles o mesmo assunto é referido em três linhas”. O resto, diz, “é preciso interpretar”.

O sucesso do formato

O protagonista de Democracia, Leandro, é um ceramista. É um pouco como um autor de banda desenhada daquele tempo… Abraham concorda, e lembra que “é ele quem conta a história, em Maratona”. Ou seja, mesmo na narrativa, é um contador de histórias.

O livro é mais um bom exemplo de como todo um conjunto de novos assuntos estão neste momento a ser abordados através de graphic novels. E é Abraham quem aqui observa que, “quando se é um leitor de banda desenhada apercebemo-nos de que isto não é um género”. Há aqui “uma infindável variedade de géneros, e na verdade podemos contar o tipo de história que quisermos”. Observa ainda que “um filme de Orson Welles ou de Hitchcock é completamente diferente de um de Iñarritu, mas são ambos cinema”. A analogia pode passar para o plano da banda desenhada, notando Abraham que livros “de Will Eisner ou Milo Manara ou Hugo Pratt” ou os que eles mesmo fazem “são tudo coisas completamente diferentes”. Com humor, Alecos acrescenta “que qualquer autor de banda desenhada hoje quer chamar aos seus livros graphic novels”.

Mas porque é que as pessoas estão tão interessadas pelo formato da graphic novel? Será esta relação uma expressão da sociedade visual em que vivemos? Abraham concorda. Vivemos “numa cultura mais visual do que outrora e as graphic novels, tal como o cinema, têm a vantagem de serem expressões visuais capazes de contar uma história ao mesmo tempo”. Escolheram o formato não só porque trabalham com ele, mas porque lhes “permitiu criar coisas que seriam difíceis de fazer em cinema ou televisão”. Há por isso “vantagens do ponto de vista criativo”, conclui. Alecos observa ainda que esta “história tem vários patamares”, pelo que “há assim, neste formato, um modo de comentar o que está a acontecer que não seria possível de fazer assim num álbum clássico de banda desenhada, onde é preciso contar a história de um fôlego”. Havia aqui nuances que queriam assim vincar… Além disso “não é preciso descrever as coisas como o fazem os romancistas, porque as imagens estão lá”… E podem ainda tomar-se “os ângulos e pontos de vista” que se quiser, aqui uma vez mais aludindo ao cinema e às suas exigências técnicas.

Na Grécia, o livro gerou uma reação muito positiva “com muitas pessoas a achar que é muito atual”, comenta Abraham, que não esconde a satisfação pelo facto de Democracia ter tido “bom impacte junto dos mais novos”. A forma da graphic novel “ajuda, claro”, mas nota que os leitores mais jovens “gostaram do facto de ser mais do que uma história”, porque o livro “tem a ver com uma ideia”.

Sobre possíveis vidas futuras para o que estas páginas nos contam contam que já foram “abordados por agências e produtores que gostariam de adaptar isto a cinema ou a uma série, uma delas para fazer desta a primeira parte de um projeto maior que, teria depois, na segunda, o mais glamoroso século V”. Mas isso “foi há já uns anos e não houve consequências”. Até ver…

“Democracia”, de Alecos Papadatos (desenho), Abraham Kawa (texto) e Annie di Donna (colorização) está publicado entre nós pela Bertrand num volume de 240 páginas, com tradução de Joana Neves.

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